Amores Possíveis

Uma das coisas boas da separação tem sido a reaproximação com amigas e amigos. Já estava nos planos pós término da tese, mas estar separada fez com que o “vamos marcar” virasse um “vamos marcar agora?” As pessoas me procuram para saber como estou, para tomar café, cerveja, vinho, cachaça, para dançar ou apenas para conversar. É maravilhoso se sentir acolhida e apoiada, principalmente num momento de fragilidade. Principalmente para uma pessoa que se fechou para o mundo e para as gentes.

O tema das conversas é sempre o mesmo: tristeza e amor.

Tristeza pela vida difícil que levamos, pela falta de empatia que nos cerca, pelo cenário político tenebroso em que nos encontramos, pelo fim da esperança. Pela Marielle Franco, pelo esfacelamento da esquerda, pelo Rafael Braga, pelo Mapa da Fome, pelo fascismo. Porque morremos um pouco a cada dia, estamos exaustas e descrentes. Porque não enxergamos a luz no fim do túnel, porque nada faz sentido e a fé se esvai a cada postagem nas redes sociais. Porque estamos adoecendo, reféns de uma utopia que está presa na gaiola do poder.

Mas estamos juntas. Talvez como nunca estivemos antes. E só assim podemos suportar a angústia de viver num mundo que se desfaz a cada dia.

Nós por nós, sempre.

 

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Eu fui uma criança leitora. Poucos amigos, irmãs mais velhas, muito tempo de sobra. Lia o que tinha em casa. Aos 12 anos já tinha lido Julia, Sabrina e toda a Biblioteca das Moças. Muitos M. Delly depois, cheguei aos romances de folhetim. Aos 13 li todos os volumes de Rocambole (que depois virou meu objeto de pesquisa no mestrado, mas essa é outra história) e me preparei para a chegada do grande amor.

Talvez minha vida amorosa tivesse sido diferente se eu tivesse lido, na sequência, Madame Bovary.

 

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O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.”

Como a maioria das pessoas da minha geração, eu fui formada pela ideia de amor romântico. Aquele modelo do amor platônico, que lá n’O Banquete nos ensina que no início de tudo éramos “um único ser” e que, por castigo divino, fomos separadas e condenadas a buscar a nossa metade, retornando à nossa completude. A metade da laranja, a tampa da panela, aquela pessoa que irá nos preencher e nos acompanhar por toda a eternidade.

Eu vivi todos os tipos de amores: encontrei minha alma gêmea, o grande amor da minha vida, aquele por quem eu largaria tudo, o amor de uma vida inteira.

Eu também morri de amor. Vezes demais, eu diria. O coração sangrando, chorando.

“Quem não ama demais não ama o suficiente”, a novela me ensinou.

E eu sempre ali, amando e morrendo.

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Até que percebi que para amar bastava estar viva. Que podia ser inteira e ainda assim me doar para alguém.

Hoje amo com presença. E com cuidado.

Devagar, sem pressa.

Hoje amo com vida.

2 pensamentos sobre “Amores Possíveis

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