Olimpo

Do alto do Olimpo, você me percebeu com olhos de desejo. Cobiçou com distância o ordinário da vida humana, a mesquinhez dos amores românticos, os pequenos arroubos dos corações partidos. Você, deus, buscava um amor mortal ou um pouco de afeto que acalmasse a solidão de quem está no topo do mundo. Eu, obviamente, nada tinha a oferecer que não fossem mazelas medíocres, algo do prazer da carne de quem gerou e pariu vidas. Não foi suficiente para quem já havia desvendado os segredos do universo. Partiu como chegou, feito furacão. Em alguns momentos consigo observar, de muito longe, seus passos vagando no infinito, buscando.

Algoritmo

De repente parei de contar os dias e o tempo deixou de ser tão importante. Um dia de cada vez, sobrevivi ao caos, à dor, ao vazio e ao abismo que me chamava pelo nome. Por já ter vivido, parecia que não havia mais vida para mim. Nada que pudesse me surpreender ou aquecer. Hoje olho a barba que cresce em seu rosto e me sinto a quilômetros de distância. Nada daquela vida me pertence mais. Não estou ali, mas também ainda não estou cá. Eu ganhei um “Oi”, uma música, uma poesia e uma visita. Eu ganhei um amor, carrego comigo aonde vou, sem bem saber o que fazer com ele. Mas eu carrego e cuido e alimento. De repente meu silêncio se preencheu de risadas inesperadas e de uma canção às 15:47. Não preciso mais estar só.