Carta 1

Meu Amor,

Ontem recebi uma carta de uma pessoa que nem conheço. Era tão linda e triste que resolvi te escrever. Quero compartilhar contigo toda essa loucura que me habita e te encharcar desse meu desejo.

Estou lendo Marguerite Duras, conhece? Tenho uma admiração misturada com empatia desde O Amante. Pois vivi também essa mãe que é um mar, tendo eu mesma me tornado um oceano. E o rosto devastado? É como me vejo todos os dias. Eu já fui bonita, sabe? Esses meus lábios enrugados que te seduzem já foram firmes, e esses olhos pequenos que te habitam já foram tão verdes. Esse corpo que hoje é só pele e osso. Mas eu já fui, sim, já fui tudo. Hoje sou outra coisa e moro nesse rosto devastado.

Mas eu te escrevo para contar que sonhei contigo. Que nos beijávamos loucamente no meio da rua, na frente dos passantes. E que ríamos e éramos felizes ali, em plena praça, nos amando sem nos importamos com viv’alma. Acordei com nosso gozo. Sinto teu amor todos os dias e me movo nele. Quero que saibas que estou aqui, te esperando.

Beijos,

M.

Costume

Sempre lembro de pedaços de textos. Como aquele do “… a gente se acostuma mas não devia.” Na voz do Abujamra. Pois é, eu me acostumei. A dormir horas de menos. A não colocar tanta comida no prato. A adormecer sozinha sempre no mesmo lado da cama. A passar uma quantidade maior de café. A beber todos os dias. A trabalhar mais do que devia. A não desligar a voz que grita dentro da cabeça. Nunca. A sonhar com aquela vida que não é a minha. Eu me acostumei a desejar menos, a achar que não mereço, a sentir a falta, o vazio. A pensar que não posso, que não devo, que não quero. Quando foi que deixei de querer? Quando foi que me acostumei?