Entremeios

Olho para a parede e vejo os quadros meio tortos, na estante os livros meio empilhados, a foto no porta-retrato meio desbotada. Lembro que sempre fui só meio feliz, mesmo jovem. Alguns momentos apenas de felicidade abundante, esfuziante, transbordante. Essa meia vida que me habita não é nova, está aqui há muito tempo. Fui sendo meio inteligente, meio bonita, meio esquisita, meio diferente durante tanto tempo, que sinto que agora ser meio velha e meio ranzinha é só uma parte do percurso.

Olho a carteira de cigarro meio vazia, o copo de whisky meio cheio, os sentimentos meio usados e penso que essa condição de transitar pelo meio da existência nunca foi um fardo. Estar em meio a mim mesma, sem nunca me definir por nada, me permitiu ser um pouco de tudo o que quis. Meio no limite, meio no vazio, muitas brechas por onde pude me esgueirar até chegar em mim. Esse peito meio cheio de um afeto meio quente, meio desejante de algo que ainda está por vir.

Em meio a. No meio de.

Imensa

“Olhei-me no espelho e vi Bilquis* sendo engolida pela rotina, pelo descaso, pela pressão. Senti caírem todos os pedaços que cortei na carne para me adaptar a um espaço tão pequeno: liberdade, audácia, talento, vontade, gozo. Tudo me foi sendo tirado lentamente, nem notei. Só me enxerguei quando saí dessa redoma apertada. Abri os olhos e percebi que já não cabia no desejo estéril, na presença muda, no abraço distante, na suave reprovação. Cresci silenciosamente e deixei que meus membros livres retomassem sua imensidão. É um tanto assustador ser enorme. Não me encaixo nos espaços, vou esbarrando em pessoas e coisas, me acostumando a ser imensa. Ser assim descomunal assusta quem me enxerga. E dói, muito tempo essa amplitude contida e represada. Olho para o lado e vejo outras mulheres se agigantando, esticando o corpo ereto. Altivas, caminhamos juntas, excessivamente espaçosas. Não há mais o que nos contenha.”

*Bilquis: Rainha de Sabá, representada no livro e na série American Gods, de Neil Gaiman.

 

 

08102017