Quebrada

O calendário de rascunhos do WordPress me avisa que eu comecei a escrever esse post lá em agosto de 2018, quando a Suzane Jardim postou no FB sobre a maneira como uma iniciativa de organizar os compromissos a ajudou a realmente conseguir cumpri-los. A dica é importantíssima (incluindo a necessidade de acompanhamento terapêutico) porque, no geral, a gente não tá dando conta mesmo. Vai um tempão e uma energia louca pra conseguir encontrar um jeito de montar um sistema de organização que atenda a nossa demanda (e personalidade). Tem gente que é da lista, gente que é do post-it, gente do digital,  montes de aplicativos para as coisas. Eu tenho agenda, mil caderninhos de notas e um milhão de listas e papeizinhos soltos que incluem coisas urgentes e também que devem ser feitas  um dia. Sempre esqueço alguma coisa, troco os dias e tal. Imagine se não tivesse.

Eu gostei do sistema proposto pela Suzane e resolvi testar. Organizei por cores, para identificar os meus compromissos e os dos meninos, fiz uma estrutura de semanas para visualizar o que tinha data marcada e outra mais livre, para mostrar coisas a serem feitas sem prazo fixo. Peguei uma moldura grande de quadro mesmo, com vidro, que já tinha em casa e fiz as divisões num papel branco. Preguei na parede, bem lindo, me sentindo a deusa do calendário. O Tom prontamente preencheu recados importantes nos seus post-it amarelos, como “comprar presentes do dia das crianças”, e colou orgulhoso no quadro. Durou um tempo, até que uma ventania derrubou o quadro da parede. Reforcei a moldura e preguei de novo. Caiu de novo. Sim, teria que ter mudado de lugar, eu sei, mas agora a moldura estava destruída, apesar do vidro ter ficado intacto.

Então, passei o resto do ano do mesmo jeito que tinha começado: desorganizada. A ideia do “um dia de cada vez” virou meu mantra e fui resolvendo questões urgentes à medida que iam surgindo. Perdi vários rolês legais e compromissos importantes, me atrasei para várias coisas e fui deixando a vontade de organizar a vida pra lá. Eu lido relativamente bem com o caos, muito tempo funcionando desse jeito. Mas não é o ideal, ainda mais quando se está destroçada.

Mas o que me mobilizou mais no texto da Suzane foi a frase ” Eu sou mãe, não posso quebrar.” Esse é o tema dessa conversa. Porque eu quebrei lá atrás e continuei quebrando. Passei um ano inteiro quebrando, dia após dia. Parecia que nunca ia deixar de quebrar. O que uma mãe faz quando quebra? Pede ajuda. E esse foi o meu movimento mais importante, porque meus filhos são minha vida e uma mãe não pode quebrar.

Então fui juntando os pedaços que consegui e levando os dias, toda trabalhada no patchwork. Virei um frankenstein, é óbvio. Física e emocionalmente. Mas fui em todas as sessões de análise, cumpri todos os compromissos profissionais e, quando não consegui, avisei que não conseguiria. Aprendi a dizer não. A dizer não dou conta. A pedir e aceitar ajuda. A conversar com os filhos, tão acostumados a ter uma mãe inteira, que faz tudo. Não é fácil nos apresentarmos humanas e falíveis para quem nos ama. Mas é tão importante.

De tanto quebrar, descobri que havia ali uns pedaços que eu nem sabia (ou lembrava) que existiam. Costurei junto, encaixando onde dava. Olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher ou o que fazer com ela. Muitos pedaços faltando, buracos em que nada cabia. Comecei a sentir o vento passando nas frestas, eu que gosto tanto de espaço. E também a perceber que muito do que deixei para trás realmente não era (mais) importante.

Então, assim fragmentada, percebi que esse quebrar foi um processo significativo na minha caminhada. E que ao me colocar de maneira diferente frente ao mundo, abri espaço para experiências diferentes. Nem todas são positivas, por certo, mas muitas são. Mesmo quando eu achava que não seriam. E aos poucos a ordem veio. Outra ordem, outra forma de organizar a vida e o meu universo interno.

Por isso lembrei desse post não escrito no ano passado. Porque fiz uma lista gigantesca do que precisava ser feito já, daqui a pouco, ou um dia. Consegui fazer a Marie Kondo (ainda não acabei, ok), marcar consultas e exames, levar o carro para a revisão, criar uma rotina com os meninos, finalizar trabalhos atrasados e, inclusive, festar muito (afinal: férias!). Assim como a Suzane, de uma maneira tão diferente, consegui tirar o peso de mim e lidar com a vida. E também a comemorar minhas pequenas vitórias, essas que são fundamentais para me manter viva. Vejo outras amigas fazendo o mesmo: olhando para si, para o seu percurso, para o que ficou pelo caminho e dizendo: eu consegui.

Que bom nos ver vivas!

 

#MariKon*

Como uma pessoa antenada nas últimas tendências de consumo e totalmente pautada pelas demandas das redes sociais (#sqn), comecei a assistir à série da Marie Kondo. Férias pra mim sempre foi tempo de arrumação. Professora-workaholic, mãe e faxina-freak, é no mês de férias que tenho tempo de organizar e limpar a vida para dar conta do novo ano letivo. Também sou da geração X, aquela que tinha uma mãe que abria o armário e jogava no chão todas as roupas emboladas e socadas e dizia: só sai quando terminar de arrumar.

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Então não foi realmente uma novidade, mas mesmo que eu não use nada do método, acho a ideia interessante (principalmente pra quem não tem método algum). Faço tudo de forma aleatória e ao mesmo tempo, roupas, sapatos, papeis, muitos papeis, milhares de papeis, livros (obviamente ficam todos, mas pelo menos limpos e organizados). Agora não tenho mais garagem, mas estou abrindo espaço no apartamento para poder trazer o que ainda ficou na antiga casa.

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Enquanto vou organizando o que vai e o que fica, vou pensando no espaço que é preciso abrir para que o vazio finalmente exista. E em tudo o que tenho aprendido nesses últimos tempos. A fazer as coisas de maneira diferente (nem que seja para quebrar a cara de um jeito novo e não do mesmo jeito das últimas 384743 vezes). A dizer NÃO para o que não quero, não tenho vontade – tempo ou interesse, não posso e/ou não devo (muitas vezes ainda me sinto culpada, mas essa é outra fase a trabalhar). A aceitar minhas limitações e, principalmente, a me ouvir e me acolher. A saber que eu fiz o melhor que podia, mesmo não tendo sido o suficiente. E a agradecer.

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Aliás, tem um monte de coisas que eu não agradeço. Guardo porque fazem parte de sentimentos não elaborados e, na maioria das vezes, não superados. Ainda tenho guardadas todas as minhas agendas e cartas e um dos momentos de arrumação foi olhar para todo esse passado e ver o que é que ainda existe daquela pessoa que se fez no século passado. Além de perceber que eu também fui uma péssima pessoa tantas vezes (nenhuma novidade aí, mas é meio desconcertante quando a coisa grita na sua cara) também senti que, finalmente, é possível reconstruir algumas memórias. Ressignificar algumas dores e reescrever algumas histórias permite que o passado se mantenha como matéria viva, porém sem assombrar ou doer. Essa foi uma vivência muito potente do ano passado e se mantém, agora como um hábito e não mais como uma surpresa. Ao final de tudo, a síntese. Mesmo tendo abandonado a prática dos rituais, há um do qual não abro mão: queimar. Como não podemos tacar fogo em casas ou pessoas, ficamos com a opção de simbolicamente expurgar no fogo o que nos fere. Para mim funciona.

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Outro ponto importante que fica óbvio cada vez faço a Marie Kondo, ano após ano, é o fato de que, sim, toda a carga mental da família (mesmo não sendo mais uma família) é minha. Já tenho trabalhado isso na análise há algum tempo, mas é impressionante como o acúmulo de responsabilidades e de trabalho emocional se soma ao fato de que ninguém na casa, além de mim, sabe nem onde estão seus próprios documentos. É exaustivo, óbvio, mas também extremamente debilitante para as pessoas envolvidas, que se tornam incapazes de organizar e gerenciar a sua própria vida. O fato de que a parte que me cabe nesse latifúndio é um sintoma de um fenômeno social não muda nada. Tenho visto minhas amigas num mesmo movimento de sobrecarga e acúmulo de funções, trabalhando, estudando, cuidando dos filhos e da casa. Todas exaustas.

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Algumas optaram por mudar a estrutura das relações, o que é um movimento que depende também das pessoas envolvidas. It takes two to tango, já sabemos, e dançar sozinha acaba sendo frustrante e nos mantendo no mesmo modus operandi de sempre. Não há como obrigar a outra pessoa a compartilhar as responsabilidades se ela não tem interesse ou vontade. O #porramaridos mostrou bem como é difícil. Outras decidiram (por inúmeros motivos, é claro) que não valia mais a pena permanecer em uma relação na qual não se constrói em conjunto.

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Não importa qual a vibe, acho que o fundamental é estarmos atentas aos nossos sintomas. É difícil existir no caos completo, mas também uma vida rigidamente regrada se torna uma prisão. Para mim separar, avaliar e ordenar as coisas físicas tem permitido um balanço acerca do ponto em que me encontro. O que me trouxe até aqui? O que ainda é importante que permaneça? O que não serve mais? Há coisas que são constitutivas, como base de fundação mesmo, e que permanecerão provavelmente por muito tempo. No entanto, há tantas outras que deixaram de ter sentido com o passar do tempo, que mudaram de significado ou perderam mesmo, se tornando vazias. Tem sido bem interessante viver esse processo. Recomendo.

 

*Sim, eu sei que a réxitégui é KonMari, mas pelamor MariKon é excelente.

Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

No #tbt de hj retomo um texto sobre a morte de Bowie (e meu momento de glória na Internet, pois foi publicado no Biscate Social Club) pensando que continuamos retrocedendo em um moralismo punitivista que captura os discursos, os corpos e os desejos. Há muito decidi que não quero uma luta que não parta do princípio da agência. Infelizmente, o que mais tem por aqui é um aprisionamento do “eles venceram e o sinal esta fechado pra nós”. Pois olha, eu tenho colado com gente que é só resistência e que tá furando sinal há um tempão. E vou te contar que olhar para as próprias contradições (e se perceber como parte da engrenagem que produz machismo, racismo, elitismo, capacitismo) permite agir de forma muito mais complexa e potente. Enquanto o roteiro do aperte os cintos o piloto sumiu vai dando a tônica da vida pública, aqui no andar de baixo a gente samba, transa e resiste. Tamo aí segurando as mãos enquanto agimos e tocamos o barco, como sempre fizemos. Com glitter, com tudo.

“Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (entenda aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.”