Baú

Eu carrego um baú cheio de dores, fragmentos de instantes que poderiam ter sido, pedaços de amores que se foram, sonhos não ousados. Eu carrego um baú sem enxoval, apenas discos quebrados, cartas rasgadas, fotos desbotadas, fragmentos de uma utopia que nunca existiu. Eu carrego um baú pesado, repleto de versões de uma vida improvável, de memórias impossíveis, de saudades inocentes.

Eu carrego um baú vazio.

Oração

Ouço um verso e sou automaticamente transportada praquele outro tempo em que eu acreditava. Quase tudo era possível, mesmo já tendo deixado tanta coisa pelo caminho. Mas eu tinha uma penteadeira e um coração onde cabiam vidas inteiras. Acreditava tanto que desenhei um projeto de vida, um futuro empenhado num voto de amor. Uma tolice, por certo, mas naquele tempo eu acreditava. Obviamente foram-se o amor, o projeto e a penteadeira, não se carrega um voto de futuro sozinha. Vejo fragmentos de uma vida distante, um pic-nic, um passeio de bicicleta, um fogão a lenha, um pé de ameixa, um bebê mexendo na barriga. Mas o filme continua e vejo silêncio, tristeza, distância, mentira. Observo a mim mesma de longe, carregando o mundo nas costas, tanto peso, tanto medo, diagnósticos, contas, cobranças. Impossível acreditar num futuro, num amor – esteja lá ou aqui, num momento mais leve, na possibilidade de – algum dia – essa dor passar. Senti um pouco de saudade de acreditar.

Alguma hora passa

Olho o aparelho e percebo que estou desconectada, uma sensação estranha essa de me imaginar só. Um bom momento para pensar em quando me desconectei e mais, se é possível que me encontre em algum lugar. Há décadas fugindo do vazio, tudo o que consegui foi desaparecer. De mim. Em mim. Esse universo de antimatéria onde tudo é desconhecido. Caminho pelo museu e vejo imagens e palavras. Não consegui salvar minha mãe, nem a mim, segui seus passos mesmo tendo corrido devairadamente deles. Nem foi um caminho, mas uma sina. Lembro-me que ainda é tempo de morangos, que o chapéu côco continua no armário, que o amor deveria me esperar no fim da vida. Que sou um oceano talhado em um rosto devastado. Tanto tempo desejei outra vida, largando essa que me foi concedida. Tantas mortes, de formas diferentes. Penso em você, tão distante, não há mais nada, eu sei, e me entristeço mesmo sabendo que esse era o final possível. Mas eu acredito, às vezes eu acredito. E espero. Recolho-me. Alguma hora passa.