Futuro

Eu me despeço de você um pouco a cada dia, ciente de toda a impossibilidade. Não quero mais amar sozinha e a cada adeus dou mais um passo, me afastando lentamente. Mesmo que continue carregando seu cheiro comigo. Quanto tempo demora para um amor não vivido acabar? Hoje me disseram que sou uma pessoa que não se resigna. Sim, não sei lidar com o impossível. Eu insisto e continuo insistindo. Se o desejo não desaparece, apenas sigo. Saber que não há um futuro possível apenas acelera o fim, mas não o torna menos doloroso. Eu, que sempre fui alguém de futuros, me descobri uma pessoa de momentos. Não aprendi ao certo, mas continuo tateando. Um dia de cada vez. Logo a dor começará a desaparecer. E poderemos, finalmente, nos encontrar de novo.

Morre-se um pouco a cada dia

“Eu escrevi uma tese sobre resistência. Queria escrever sobre revolução, mas como ela não veio – e nunca vem – me obriguei a começar tudo de novo. Para falar sobre resistências que fracassam em se concretizar como sucesso, fui além da teoria. Fui investigar as pessoas que resistem. Descobri , então, que a primeira forma de resistir é existir. Ao insistir em preservar uma existência livre, divergente, dissonante e dissidente, resiste-se. A segunda forma é sobreviver, não se entregar, não desistir. Não pular da ponte, não puxar a corda, não fechar os olhos. NÃO IRÃO ME MATAR. Ainda que me matem um pouco a cada dia. A terceira forma é pelo afeto. Ao afetar-se, permite-se que fluam as potências do afeto. Nos afetamos com a dor e com ódio, mas principalmente com os encontros e amores. Resistimos juntes, sentindo e vibrando.”

*Anotação encontrada em um caderno.