Perfeição

Alguém deveria nos contar que as grandes coisas não existem. Que os moinhos de vento estão em todos os lugares e que cada pequeno feito é uma importante vitória.
A megalomania da vida online faz com que cada refeição, cada beijo, cada pôr-do-sol seja uma experiência mágica, única. E seguimos vivendo na saturação de imagens, gostos e experiências – todas únicas, infinitas e publicizadas. Toda a simplicidade das pequenas coisas – as verdadeiras – que ocorrem no silêncio e no vazio da vida se perde nesse grande show pirotécnico do virtual.
Quanto a mim, que sou do século passado, cada vez mais é no pequeno, na minúscula vitória de cada dia, que me realizo e concretizo. A guerra dos últimos tempos tem sido contra a “perfeição”. Tenho perdido várias batalhas, mas são essas derrotas que me permitem continuar.
Hoje, por exemplo, foi dia de costura. Tudo sob controle até chegar nos pontos manuais. Tortos e assimétricos. Como eu sou, como a vida é. O primeiro impulso é desmanchar e começar de novo. Às vezes até faço. Hoje não. Estou me acostumando com o processo e com todas as maravilhosas imperfeições da vida.
Costurar me traz paz, me enche de afeto e me proporciona essas pequenas vitórias. Não é importante pra ninguém.
Só pra mim.

♪♫ This is ground control to major Tom ♪♫

Uma tese de fracasso

O Facebook me lembra que lá se vão dois anos de defesa da tese e ainda não consigo “comemorar”. Nem deixo de me surpreender quando me chamam de “doutora”, tão pouco importante o título é para mim. Quando entrei no doutorado, em 2013, estava no auge da potência revolucionária – mesmo já tendo me desiludido com a “militância” , bem como lidava com um processo intenso de autotransformação que começou com a Marcha das Vadias, em 2011.

Nomear-me vítima-sobrevivente no encontro com o feminismo teve um efeito fulminante na minha vida, nunca mais pude ser a mesma. Mesmo tendo sido positivo e libertador, em inúmeros aspectos, viver a mudança também tem sido extremamente doloroso. Eu sempre pensei minha vida como uma sucessão de fases, muito relacionadas aos lugares onde morei. Com a vida adulta, os filhos e o trabalho, as fases se tornaram muito mais processos internos. E a fase do doutorado está sendo mais longa do que o previsto. Começou antes da entrada no PPG e, passando pela defesa e pelo divórcio, ainda não terminou.

Talvez por isso ainda seja tão difícil.

Sobre a vida, ainda não me recuperei, tudo acontecendo como avalanche nos últimos anos. Mas sei que o pior já passou, porque agora entendi o funcionamento desse novo modo de viver – descontrolado e desgovernado. É terrível, óbvio, mas não deixa de ser uma aventura. E sempre, sempre, tenho pessoas incríveis e amorosas ao meu lado.

Sobre a tese, durante 5 min achei que poderia ser socialmente relevante. Lá pela metade do segundo ano percebi que estava escrevendo uma resposta para a minha mãe (que já morreu), o que diz muito sobre tudo o que está ali e que talvez só faça sentido para mim. Algumas pessoas leram, algumas gostaram, teve até gente que citou (!). Mas isso realmente pouco importa. O que importa é que, por causa da tese, escrevi o texto Não me chame de guerreira e esse sim tem sido relevante. Milhares de pessoas leram (e continuam lendo), o que é um tanto absurdo pra minha realidade, e têm encontrado algum tipo de conforto de saberem que não estão sozinhas nesse processo massacrante e desumano que é a pós-graduação.

Já me dou por satisfeita, percebendo que, enfim, a tese serviu para alguma coisa.

No mais, continuo fracassando e postado memes. Em vista das circunstâncias, tá de bom tamanho.

fracassei (2)

Ps: Ainda ontem descobri que, ao contrário do que pensava, eu não sou uma péssima pesquisadora. Só sou uma mulher que trabalha 60 horas semanais, tem dois filhos e, nos minutos que sobram, faz pesquisa. Ainda vou escrever sobre isso.