Ano passado eu morri

Ano passado eu morri, esse ano morri de novo. Eu tenho morrido há tanto tempo, de amor, de tristeza, de cansaço. Achava que o pior já havia passado, após a separação, mal sabia que os problemas de fato estavam apenas começando. Lidar com um coração partido, o diagnóstico do filho, o corpo falhando, o descalabro da política nacional. Nada me preparou pra decepção, pra dor, pra raiva, pro medo.

Enquanto fui vivendo o caos, um dia depois do outro, fui observando minhas fraquezas (perceber-se um corpo frágil dá um senso todo novo de falibilidade) e a pouca ou nenhuma capacidade que tinha, na época, de resolver os infintos problemas que se acumulavam. Eu realmente achei que ia morrer, em vários momentos diferentes.

Mas não morri, pelo menos não fisicamente, mesmo que várias partes minhas tenham morrido. Ao mesmo tempo, essas muitas mortes permitiram viver outros sentimentos e outras possibilidades, a começar por ser honesta comigo mesma. Entrei de cabeça na terapia e, após um encontro extremamente potente, abri a caixa de Pandora de tudo o que estava guardado esse tempo todo. Foi horrível e assustador, mas absolutamente fundamental para que eu avançasse existencialmente.

Decidi me recolher afetiva e sexualmente e estando sozinha pela primeira vez em décadas pude me enxergar por outros prismas, inclusive com relação a todo o meu sofrimento, suas causas, e também o fato de que a dor já não dói do mesmo jeito.

Então, mesmo me arrastando cheguei ao fim do ano com um forte senso de prioridades e sabendo o que precisa ser feito. Sei o que quero e o que não quero, o que devo fazer e quais riscos posso assumir. Viver tem sido um eterno recomeçar, numa narrativa sem script, após tantas e tantas mortes.

É claro que é difícil pensar em recomeços quando a necropolítica apocalíptica nos atropela a todo momento. Mas eu confio em quem está ao meu lado, porque se há algo que eu cultivei nesses últimos anos foi a amizade de pessoas absolutamente incríveis e fundamentais. É com elas que eu caminho, com música e poesia, cachaça e afetos.

Então, talvez quem sabe, eu não precise morrer de novo em 2020.