Força do Ódio

Versão Fitness 2020


Eu odeio academia e tudo o que envolve a prática de atividades regulares ligada ao espaço de uma academia de ginástica. Hoje em dia nem fazemos mais ginástica, mas spinning, crossfit e pilates (esse é meu nível de desatualização das modalidades disponíveis) e nem sei se ainda se chama academia ou apenas “studio”.

Mas o que importa aqui é o meu ódio. Odeio o espaço físico, todas as máquinas ciborgueanas projetadas para melhorar nossa performance muscular, aquela que precisamos para termos um bom capital social-afetivo-sexual. Odeio a música ruim, as telas de TV ligadas na Globonews e as pessoas.

Há sempre pessoas idosas muito queridas, simpáticas e conversadeiras, nada contra, exceto quando querem conversar comigo. Eu estou ali concentrada no meu ódio, não posso bater papo. Aqueles homens cis hétero cultuando sua própria masculinidade, tenham músculos definidos ou não, naquele universo de testosterona que chega a dar nojo. A misandria bate com força, o que não ajuda muito visto que sou uma pessoa que (ainda e por enquanto) se relaciona sexualmente com essa espécie.

Você deve estar se perguntando: Mas se odeia tanto, por que vai, criatura? Por que não faz outra coisa? Você odeia tudo mesmo, que eu sei, não tem nada, nadinha que você goste?

Então, eu amo dançar. É o que me faz feliz, o que me dá paz e força para aguentar o dia a dia de ralação. Normalmente eu danço uma vez por semana, às vezes duas, no meu bar favorito. Umas 4 horas seguidas. Mas, apesar do bem que me faz, balançar a raba no bar enchendo a cara de mojito ainda não é considerado uma boa forma de cuidar da saúde.

E como eu amo dançar, eu amo ballet. É minha meditação, a única maneira de desligar as vozes na minha cabeça e me concentrar em algo que me dá um imenso prazer. A combinação dos movimentos com a música clássica tem um efeito impressionante nos meus processos mentais-neurológicos. Mas a combinação preço-horário impediu que eu continuasse fazendo as aulas. Por mais que tentasse todas as formas de ajuste para ajustar a vida aos horários de aula.

Assim, o que me resta, dentro do universo do possível, é enfrentar a academia. É o que eu consigo pagar, é o que eu consigo fazer, porque os horários são livres e, no mínimo, consigo fazer meia hora de esteira quando não dá tempo de treinar.

E é essa vida do universo do possível que estou aprendendo a viver. Para poder trabalhar 40 horas, cuidar dos dois filhos – e do cachorro – e dançar nos finais de semana, eu preciso de um corpo que funcione. De músculos fortalecidos que me carreguem sem dores, de hormônios que circulem pelo meu corpo e diminuam as doses de estresse e facilitem as noites de sono. Se para poder ter acesso a essa saúde que não tenho é preciso fazer exercícios medonhos num lugar horrível, ok, vambora.

Essa é a tal da vida adulta. A vantagem de ser movida pela força do ódio é que na hora de puxar ferro, força é o que não falta.

Tudo bem

Esse deveria ser um texto feliz, afinal está tudo bem, a vida finalmente entrou nos eixos, a dor deu uma trégua, os dias têm sido amenos, alguns momentos muito felizes. Mas o trabalho acumulou, a casa continua suja, os filhos continuam brigando, a menina apanhou no bar que eu frequento, o boy entrou no modo ghosting, a TPM batendo forte.

Ahhh terapia e TPM, por isso o choro desde ontem, essa dor de cabeça insuportável, essa sensação de que tudo está ruindo e nada nunca vai dar certo. A vontade de não sair da cama. Não há chocolate que dê jeito.

Mas amanhã é dia de fotos, sábado é dia de dançar e, como sempre, a dor passa. Aprender que vai ficar tudo bem tem sido um horizonte que me faz andar. Basta dar o primeiro passo.