Gostar

Essa coisa de gostar de si é estranha, de repente você para de pedir desculpas por ser e começa a achar, inclusive, que outras pessoas também podem se interessar por você. Então começa a se mostrar mais um pouquinho, ainda lembrando de quando não se gostava, de quando não lhe gostavam. Mostra algumas partes boas, “olha como posso também ser engraçada”, porque você acha que a graça é das melhores qualidades que uma pessoa pode ter. Mesmo que seja apenas a habilidade de rir da própria miséria existencial, não dá pra confiar em quem se leva muito a sério e se tem em alta consideração. Mostra também algumas partes não tão interessantes, porque carregar em si um abismo é deveras assustador e bem sabemos que a maioria dos seres viventes não aguenta quando o abismo olha de volta. Então, mostramos só um pouquinho mesmo, porque se gostar é também se proteger e não há coragem maior do que se manter a salvo quando você é alguém que ama se arriscar. Querer que outra pessoa lhe goste é também permitir que alguém expresse seu afeto, mesmo que você queira dizer “não me ame tanto”, porque aqui morremos de amor e isso não é recomendável para nenhuma das partes envolvidas. Gostar de si pode ser, como qualquer amor, uma aventura muito linda, com borboletas no estômago e declarações de amor em plena madrugada. Pode até fazer com que você queira dividir esse afeto. Mesmo quando você nem sabe quais os jeitos de gostar, quais os jeitos de ser feliz.

Ano 1

2020 foi um ano horrível, para muita gente foi o pior ano da vida. A perda de pessoas queridas, o projeto genocida necropolítico, a falta de perspectiva, de apoio, de dinheiro. A precariedade, o horror, o ódio. Ver, estampado na cara, o quanto as pessoas são horríveis: mesquinhas, egoístas, burras. O ocaso da humanidade, dos projetos coletivos e pessoais. Não saímos melhores, não aprendemos nada, levará uma geração inteira para reverter o dano causado pelo combo pandemia-governo.

Sobreviver tem exigido da gente uma série de habilidades e competências que se tornam cada vez mais imensas e intensas. Saúde mental entrou definitivamente para a ordem do dia e até quem estava ok com a terapia, já fazendo tratamento, teve que dar conta de um existir sufocante e absurdo. A falta de expectativa, o medo da doença, a desesperança, passaram a exigir de nós muito mais do que coragem. óbvio que aqui estou falando da maior parte da minha bolha, que pôde fazer homeoffice e, mesmo com diferentes questões geradas pela necessidade de garantir a subsistência sem sair de casa, teve condições de se proteger minimamente.

Então, nesse primeiro ano de pandemia achamos que a quarentena seria apenas o tempo de 40 dias ou até as férias de julho, aprendemos a fazer pão, a meditar, cuidar das plantas, fazer pequenos reparos domésticos, flertamos e acreditamos que seria um aprendizado para a humanidade. Lá por julho percebemos que nada disso fazia sentido, que as pessoas estavam morrendo e que não melhoramos em nada. Eu, vivendo essas flutuações todas, tive uma série de transformações tão profundas que ainda não consigo mensurar. Parei de fumar, consegui dormir, me relacionar com meus filhos e decidi que queria viver. Pela primeira vez eu não apenas não queria morrer, mas realmente queria viver. Foi o que eu fiz.

Fui aprender a viver uma nova vida. Muitas coisas fiz do mesmo jeito que sabia, mas vi que o resultado não era o que eu esperava. Então fui arriscar fazer diferente. Fui buscar outras formas de existir, de conhecer, de aprender, de amar, de ser. Tudo era possível na segurança do meu quarto. A análise foi fundamental nesse processo todo, nada disso teria sido possível se não houvesse acompanhamento terapêutico e uma intensa vivência de autoconhecimento. Olhar meus demônios e piores fantasmas, deixar que viessem a tona para que pudessem ir embora ou se transformar em outra coisa. Há muito tempo quero viajar mais leve e continuo carregando toneladas de passados. Dores, frustrações, violências, traumas, medos. Tenho morrido há tanto tempo que quando o mundo começou a morrer eu pude, finalmente, viver.

Meus últimos anos foram de dor e sofrimento intensos, a morte que todo mundo viveu nesse ano de 2020 eu já estava vivendo há anos, já tinha morrido em 2018 e em 2019. E por isso soube o que precisava fazer para viver nesse primeiro ano de pandemia (sim, porque continuaremos nessa por algum tempo). Mandar embora a pulsão de morte foi o primeiro passo, colocar a mim e aos meus filhos como prioridade, o segundo. Deixar o passado para trás, encontrar o que me alegra, me dá prazer, me faz feliz permitiu que eu me descobrisse, me desvendasse. Não há fórmula nem mágica. Sobreviver requer esforço, viver requer coragem.

Conhecer o caminho, trilhar o caminho. Cultivar subversiva alegria, mesmo quando o mundo se desmancha a sua volta. Vencer a pulsão de morte, seja ela sua ou de quem te governa. Vencer a pulsão de morte. Para que então possamos reconstruir esse mundo, ou criar um novo. Haja força, haja alegria, haja amor.