Perdemos

Nós perdemos quando a mídia e a sociedade acharam que era uma escolha difícil optar entre o discurso de morte e o discurso acadêmico, as coisas não estão indo lá muito bem, mas pelo menos tiramos o PT, pouco importa se a vítima dessa escolha seja eu ou você.

Nós perdemos quando deixamos sentar na cadeira da presidência da República a milícia, o escritório do crime e o gabinete do ódio, pouco importa que seja um roteiro de HQ de terror, de horror e de genocídio, afinal bandido bom é bandido morto, morreu foi pouco.

Nós perdemos quando achamos que discurso identitário é cultura do lacre e enfraquece a disputa política, há tantas coisas mais importantes para serem discutidas, mesmo que quem morra seja o preto, mesmo que se mate mulheres e crianças em uma creche, porque o ódio misógino faz parte também da ferida colonial que sangra no nosso jardim.

Nós perdemos quando achamos que pode ser gay mas não seja bicha louca, uma pena o Paulo Gustavo, mas também essa ditadura do politicamente correto já cansou, saudade de quando homem era Homem, com H maiúsculo, mesmo que na República de Curitiba, a capital mais fascista do país, haja um serial killer atacando e matando viados.

Nós perdemos quando já não contamos mais os números, quando já não lembramos mais os nomes, não sabemos quem morre e muito menos quem vive, porque já não vivemos há muito.

Nós perdemos a luta, a batalha, a guerra. A vida. O humano. A esperança.

Nós perdemos como um corpo sem vida numa cadeira de plástico.

Nós perdemos.

Menudo

A vida toda está indo embora, cada dia uma nova tristeza de adeus. Deixar ir é deixar doer, é abrir espaço para o vazio. Li hoje que um Menudo não deveria morrer e penso em como meus unicórnios e fadas se foram todos muito cedo e por isso aqui é tudo abismo e deserto. Às vezes acho que nunca tive uma chance, já cheguei estragada, poderia haver um aviso de defeito de fabricação. Porque ninguém deveria viver em constante devastação, não o tempo todo, sem trégua nem respiro. Passei 24h sozinha e isso foi o que bastou. Sinto falta do seu abraço, seu sorriso continua comigo. Mas são dias demais.