Normal

Bom dia, Helena, uma chuva torrencial nessa segunda-feira e a vida retoma o seu curso, ou pelo menos deveria, segundo me avisa o mundo. Todas as pessoas seguem buscando o “novo normal” e eu odeio tanto, mas tanto essa expressão, porque já não havia nada de normal antes da pandemia, só golpe e necropolitica e, no meu caso, só dor e sofrimento mesmo. Seiscentos mil mortos, Helena, que normal é esse em que a vida não vale nada? Eu recuso o normal, não quero esquecer nem seguir a diante e nem fingir que está tudo bem. Não havia normal antes, não há normal agora. Quero vestir um manto com o nome de todas as pessoas que elegeram esse facínora, com o nome de todas as pessoas que participam desse governo e andar por aí, vestida de morte, porque eu não vou esquecer, Helena.

Amor

Bom dia, Helena, ontem eu dancei e cantei e chorei de emoção, porque sobreviver ao fim do mundo exige coragem e força, mas exige também presença e eu tenho tanto, mas tanto amor na minha vida que às vezes acontecem essas explosões de felicidade. Obrigada por dançar comigo, Helena.

Chuva

Bom dia, Helena, ontem foi dia de terapia e a analista descobriu que estava trancada dentro de casa. Adoro perceber que somos todas humanas e se você olhar bem de perto, não tão diferentes assim. Esta noite choveu muito, aqui o vento bate por os lados, penso sempre em Wuthering Heighs e em Kansas, porque parece mesmo que a casa irá sair voando. Na verdade penso em Twister, nada poético aquela calota voadora, sem falar da vaca. Eu me encantei pelo Philp Seymour Hoffman ali mesmo, muito antes do glamour e do Oscar, sempre gostei dos esquisitos. Mas mesmo sem dormir hoje é sexta, vai dar tudo certo.