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Curitiba, sexta-feira, fim de ano, fim de mundo.

Finjo normalidade enquanto as noites são insones, a fome se vai na ansiedade e no estresse de lidar com a vida, a minha e a de todo mundo. Conto os dias na esperança de que passem mais rápido, bem sabendo que a urgência ainda me consome e me assola. Vi sua imagem na praia, Helena, que o mar leve tudo o que não cabe mais e te traga somente amor. Quem sabe um pouco daquela felicidade com a qual sonhamos.

Quinta

Problemas, Helena, como se já não tivesse os meus ainda tenho que lidar com os dos outros. Carência, falta de noção e de vergonha na cara, falta de empatia e de acolhimento. Não é apenas sobre limites ou a falta deles, mas sobre o fato de que minha própria condição é desconhecida (ou não levada em consideração) até por quem esta muito perto. Sério, cansa demais.

Quarta

Eu queria, Helena, de verdade, que o roteirista da minha vida mudasse um pouco o enredo de novela mexicana, drama, horror, pra sei lá, comédia romântica, comédia, qualquer outro roteiro que não seja essa absurda sequência de fracassos. Talvez eu devesse eu mesma assumir a escrita dessa história, tenho tentado, mas os personagens têm vida própria, você bem sabe. Seguimos esperando dias melhores.

Mare

Uma mãe que é um mar, eu mesma um oceano, aprendi com Marguerite, venho escolhendo palavras para contar essa história, de como cheguei até aqui. Toda ela desenhada como um mapa na minha cabeça. Mas não tenho um nome para dizer onde estou, que terrível esse lugar com tanta dor. Tudo árido, deserto, seco, assustadoramente desapaixonado. Que espelho esse, Helena.

Hortênsia

Teimosa

Quando me mudei para esta casa plantei inúmeras mudas de hortênsia no jardim, adoro a flor e queria muito ter aqueles arbustos todos floridos. Nenhuma vingou, pode ter sido falta de cuidado, o solo inapropriado, motivo é o que não falta, pois sou uma péssima mãe de planta. Eis que hoje descubro, no quintal, esse raminho entre os caules de uma árvore que nem sei qual é. Como já disse que nada aqui é metáfora, o aleatório se dá bem desse jeito: puro caos. Os planos, as metas, as ações, nada sai conforme planejado, aprender a deixar ir (e a deixar chegar) tem sido meu grande desafio. Mas não se engane, Helena, a florzinha é só um disfarce para camuflar minhas borboletas no estômago, conto os dias no calendário enquanto finjo normalidade, mas tenho (mais) uma playlist com músicas de amor.