Luc

Hoje a Ana Paula me perguntou sobre a morte de Luc e instantaneamente me vi imersa em um turbilhão de emoções.

Luc foi um amigo muito querido com quem eu compartilhei tanto, em questões tão profundas. São poucas as pessoas com quem eu tenho essa mesma conexão, talvez Alisson e Rafael, apenas. O fato de serem todos homens me chamou a atenção, pode não haver nenhuma relação de causalidade aí, mas acho digno de nota.

É um tipo de sofrimento muito específico que nada tem a ver com diagnósticos. Os deles, lógico, porque eu pretendo não buscar um cid enquanto for possível. Tem a ver com essa dor que é única e, portanto tão difícil de ser compartilhada.

Continuo fazendo o possível, mesmo sabendo que nunca será o suficiente.

Pas des deux

Durante muito tempo vivi o amor como um caminho a ser trilhado junto, paripassu, numa coreografia muito bem ensaiada em que todo percurso seria atravessado ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, na mesma cadência. Nesse trajeto,  amar seria equalizar frequências, fixar o afeto num único modo de ser estar, para caber nesse caminhar a dois.
Atualmente tenho vivido o amar como um caminho ao encontro do outro, percorrido ao seu tempo e em seu passo,  uma travessia de afeto na qual cada corpo se movimenta no seu próprio ritmo, frente a frente, em eterna descoberta de quem se é em relação ao outro. Deixar-se afetar por outros gestos, outras cadências e inúmeras possibilidades de ser quem se é.
Um tango se dança junto, um pas de deux se dança com.

AFP

Lendo novamente sobre o divórcio de Amanda e Neil e sentindo tanto, por eles e por mim, que ainda não me livrei da dor de minhas próprias perdas e péssimas escolhas. Soma-se a tristeza à imagem colocada à venda para uma campanha de apoio ao aborto em Nebraska e eu pensando cá com os meus botões como não posso nem contribuir com políticas pró-aborto porque elas sequer existem e só o que me resta é preparar uma boa aula e bem isso tenho feito muito bem. Comecar tudo do zero, todos os dias, não aguento mais. Hoje deposito a culpa toda na nova ordem mundial, Helena, mas bem sabemos que é só tristeza mesmo.

Ando devagar

Ah, Helena, eu me preparei para viajar mais leve, mas não mais devagar. Ou mal sair do lugar, que é o usual por esses dias. Quase meio século de vida, ao mesmo tempo em que me sinto uma adolescente ainda tentando descobrir o que deve ser feito me sinto como Raul nascida há milênios e já meio farta de tanta gente horrível. A semana passada poderia ter sido tão feliz e esperançosa, nessa vibração de derrota do fascismo, mas não derrotamos nada, o estrago está feito e o ódio cresce como mato. Esses dias lembrei que fui a uma rave perto do aeroporto, pode ter sido também um sonho ou só uma projeção. Quase meio século de uma vida meio vivida e meio inventada, quem precisa de ficção com uma vida tão inverossímil assim. O rosto devastado, Helena, chega a ser romântico, mas esse corpo alquebrado não tem nada de bom.