Uma tese de fracasso

O Facebook me lembra que lá se vão dois anos de defesa da tese e ainda não consigo “comemorar”. Nem deixo de me surpreender quando me chamam de “doutora”, tão pouco importante o título é para mim. Quando entrei no doutorado, em 2013, estava no auge da potência revolucionária – mesmo já tendo me desiludido com a “militância” , bem como lidava com um processo intenso de autotransformação que começou com a Marcha das Vadias, em 2011.

Nomear-me vítima-sobrevivente no encontro com o feminismo teve um efeito fulminante na minha vida, nunca mais pude ser a mesma. Mesmo tendo sido positivo e libertador, em inúmeros aspectos, viver a mudança também tem sido extremamente doloroso. Eu sempre pensei minha vida como uma sucessão de fases, muito relacionadas aos lugares onde morei. Com a vida adulta, os filhos e o trabalho, as fases se tornaram muito mais processos internos. E a fase do doutorado está sendo mais longa do que o previsto. Começou antes da entrada no PPG e, passando pela defesa e pelo divórcio, ainda não terminou.

Talvez por isso ainda seja tão difícil.

Sobre a vida, ainda não me recuperei, tudo acontecendo como avalanche nos últimos anos. Mas sei que o pior já passou, porque agora entendi o funcionamento desse novo modo de viver – descontrolado e desgovernado. É terrível, óbvio, mas não deixa de ser uma aventura. E sempre, sempre, tenho pessoas incríveis e amorosas ao meu lado.

Sobre a tese, durante 5 min achei que poderia ser socialmente relevante. Lá pela metade do segundo ano percebi que estava escrevendo uma resposta para a minha mãe (que já morreu), o que diz muito sobre tudo o que está ali e que talvez só faça sentido para mim. Algumas pessoas leram, algumas gostaram, teve até gente que citou (!). Mas isso realmente pouco importa. O que importa é que, por causa da tese, escrevi o texto Não me chame de guerreira e esse sim tem sido relevante. Milhares de pessoas leram (e continuam lendo), o que é um tanto absurdo pra minha realidade, e têm encontrado algum tipo de conforto de saberem que não estão sozinhas nesse processo massacrante e desumano que é a pós-graduação.

Já me dou por satisfeita, percebendo que, enfim, a tese serviu para alguma coisa.

No mais, continuo fracassando e postado memes. Em vista das circunstâncias, tá de bom tamanho.

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Ps: Ainda ontem descobri que, ao contrário do que pensava, eu não sou uma péssima pesquisadora. Só sou uma mulher que trabalha 60 horas semanais, tem dois filhos e, nos minutos que sobram, faz pesquisa. Ainda vou escrever sobre isso.

Quebrada

O calendário de rascunhos do WordPress me avisa que eu comecei a escrever esse post lá em agosto de 2018, quando a Suzane Jardim postou no FB sobre a maneira como uma iniciativa de organizar os compromissos a ajudou a realmente conseguir cumpri-los. A dica é importantíssima (incluindo a necessidade de acompanhamento terapêutico) porque, no geral, a gente não tá dando conta mesmo. Vai um tempão e uma energia louca pra conseguir encontrar um jeito de montar um sistema de organização que atenda a nossa demanda (e personalidade). Tem gente que é da lista, gente que é do post-it, gente do digital,  montes de aplicativos para as coisas. Eu tenho agenda, mil caderninhos de notas e um milhão de listas e papeizinhos soltos que incluem coisas urgentes e também que devem ser feitas  um dia. Sempre esqueço alguma coisa, troco os dias e tal. Imagine se não tivesse.

Eu gostei do sistema proposto pela Suzane e resolvi testar. Organizei por cores, para identificar os meus compromissos e os dos meninos, fiz uma estrutura de semanas para visualizar o que tinha data marcada e outra mais livre, para mostrar coisas a serem feitas sem prazo fixo. Peguei uma moldura grande de quadro mesmo, com vidro, que já tinha em casa e fiz as divisões num papel branco. Preguei na parede, bem lindo, me sentindo a deusa do calendário. O Tom prontamente preencheu recados importantes nos seus post-it amarelos, como “comprar presentes do dia das crianças”, e colou orgulhoso no quadro. Durou um tempo, até que uma ventania derrubou o quadro da parede. Reforcei a moldura e preguei de novo. Caiu de novo. Sim, teria que ter mudado de lugar, eu sei, mas agora a moldura estava destruída, apesar do vidro ter ficado intacto.

Então, passei o resto do ano do mesmo jeito que tinha começado: desorganizada. A ideia do “um dia de cada vez” virou meu mantra e fui resolvendo questões urgentes à medida que iam surgindo. Perdi vários rolês legais e compromissos importantes, me atrasei para várias coisas e fui deixando a vontade de organizar a vida pra lá. Eu lido relativamente bem com o caos, muito tempo funcionando desse jeito. Mas não é o ideal, ainda mais quando se está destroçada.

Mas o que me mobilizou mais no texto da Suzane foi a frase ” Eu sou mãe, não posso quebrar.” Esse é o tema dessa conversa. Porque eu quebrei lá atrás e continuei quebrando. Passei um ano inteiro quebrando, dia após dia. Parecia que nunca ia deixar de quebrar. O que uma mãe faz quando quebra? Pede ajuda. E esse foi o meu movimento mais importante, porque meus filhos são minha vida e uma mãe não pode quebrar.

Então fui juntando os pedaços que consegui e levando os dias, toda trabalhada no patchwork. Virei um frankenstein, é óbvio. Física e emocionalmente. Mas fui em todas as sessões de análise, cumpri todos os compromissos profissionais e, quando não consegui, avisei que não conseguiria. Aprendi a dizer não. A dizer não dou conta. A pedir e aceitar ajuda. A conversar com os filhos, tão acostumados a ter uma mãe inteira, que faz tudo. Não é fácil nos apresentarmos humanas e falíveis para quem nos ama. Mas é tão importante.

De tanto quebrar, descobri que havia ali uns pedaços que eu nem sabia (ou lembrava) que existiam. Costurei junto, encaixando onde dava. Olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher ou o que fazer com ela. Muitos pedaços faltando, buracos em que nada cabia. Comecei a sentir o vento passando nas frestas, eu que gosto tanto de espaço. E também a perceber que muito do que deixei para trás realmente não era (mais) importante.

Então, assim fragmentada, percebi que esse quebrar foi um processo significativo na minha caminhada. E que ao me colocar de maneira diferente frente ao mundo, abri espaço para experiências diferentes. Nem todas são positivas, por certo, mas muitas são. Mesmo quando eu achava que não seriam. E aos poucos a ordem veio. Outra ordem, outra forma de organizar a vida e o meu universo interno.

Por isso lembrei desse post não escrito no ano passado. Porque fiz uma lista gigantesca do que precisava ser feito já, daqui a pouco, ou um dia. Consegui fazer a Marie Kondo (ainda não acabei, ok), marcar consultas e exames, levar o carro para a revisão, criar uma rotina com os meninos, finalizar trabalhos atrasados e, inclusive, festar muito (afinal: férias!). Assim como a Suzane, de uma maneira tão diferente, consegui tirar o peso de mim e lidar com a vida. E também a comemorar minhas pequenas vitórias, essas que são fundamentais para me manter viva. Vejo outras amigas fazendo o mesmo: olhando para si, para o seu percurso, para o que ficou pelo caminho e dizendo: eu consegui.

Que bom nos ver vivas!

 

Uma resposta para Simone

Eu gosto muito daquele texto (que não é do Drummond) que fala sobre fatiar o tempo, dividir em doze meses um ano como forma de não sucumbir nem entregar os pontos. Gosto da ideia de uma esperança industrial que, em cadeia produtiva, vem se renovando e movendo o ciclo da vida, criando espaço para um respiro que seja, um moto-contínuo que permite alimentar a coragem de existir. É como um pacto que faço com a vida, esse de não desistir e de seguir tocando o barco, buscando ser mais e melhor, ou buscando apenas ser, o que já é mais do que suficiente, porque é a mudança que alimenta o viver, aquele primeiro passo que preciso dar para me colocar em movimento, mesmo sem saber qual rumo tomar.

Durante anos fiz listas de metas, todas aquelas conquistas que precisava para me completar, como se o vazio pudesse ser preenchido com a matrícula na academia, um novo corte de cabelo, um novo emprego ou um novo amor. Essa esperança industrial carregando um produtivismo exaustivo, porque pôr-me em movimento incluiu cumprir um script que me foi dado pela capa da revista afirmando que se não cumprisse a meta – ou dobrasse a meta – não seria feliz. E assim, nesse tempo fatiado, fui acumulando listas de coisas que não fiz, que não conquistei, que não consegui, desistindo de um pouco de cada sonho, metas não cumpridas se acumulando no cantinho de uma vida não vivida. Aquele sucesso que está a um passo de ser atingido, mas nunca é, nem nunca foi, porque não foi desenhado para ser. E nem percebi, empenhada que estava em seguir esse roteiro que não escrevi, nem era meu, queria tantas outras coisas, a maioria delas ficou pelo caminho, já nem lembro mais.

Mas se continuo girando em torno do sol foi porque viver não cabe na capa da revista, nenhuma história contada ali é a minha história e tenho tantas, tão lindas, muitas tão tristes, sempre verdadeiras mesmo quando achava que não. Cumprir o script foi só uma etapa do percurso, trabalho, família, cachorro, gato, galinha, tantas conquistas que valeram tanto e continuam valendo, parte constituinte de quem sou.

Em 2018 não houve script, nada que pudesse servir como guia (mesmo que péssimo) para o existir. Segui dia após dia carregando um coração dilacerado, sangrando, o mundo em minha volta ruindo, uma dor aguda latejando a cada passo. Foi tão doloroso que achei que não fosse aguentar, deixando uns pedaços pelo caminho, me esvaindo, aquela mão apertando o peito, quase sufocando, nem a boa e velha esperança industrial para me confortar. Como Clarice, tenho caminhado no deserto há muito tempo, acostumada com a sede de quem já bebeu a última gota de água. Embrulhei, inclusive, meus melhores sentimentos em papel de presente colorido, um cartão transbordando amor escrito à mão. Não foi suficiente, nunca é.

Então, Simone, eu queria te contar que nesse ano escabroso eu descobri o meu super poder, esse mesmo que me trouxe até aqui. Minha resiliência me manteve alive and kicking, vivendo uma vida linda e inesperada. Pois de repente eu me vi cantando que a felicidade é uma arma quente, pude dizer não para o que me fazia mal e abraçar uma existência sem roteiro. Enquanto meu presente permaneceu fechado e embrulhado, um destinatário não encontrado, eu recebi tantos outros. Alguns vieram em pacote de pão, como aquela garrafa de bebida que se intenta esconder, sem enganar ninguém. Outros vieram na sacola do mercado, com o preço pendurado. Uns tantos vieram sem pacote mesmo, um post-it dizendo “pensei em você”. Continham poesia, abraço, afeto, presença, música, silêncio, festa, beijos, amizade, amor. Descobri que estou cercada por pessoas maravilhosas, todas lutando suas próprias batalhas, sobrevivendo como eu. E que é possível trocar, mesmo achando que não tenho nada a oferecer. E eu recebi tanto.

Somos todas sobreviventes, Simone, e o que temos feito é nos mantermos vivas. Acho que está de bom tamanho, porque vivendo descobrimos que (quase) sempre podemos mais.

Clube das Desquitadas

Nos últimos anos várias amigas e amigos se separaram. Sempre conversamos sobre como é o processo de luto (e suas fases: negação-raiva-barganha-depressão-aceitação) e superação. A ideia para esse post surgiu quando abri minha pasta de memes e percebi que todas as fases da minha separação estavam representadas ali.

Então hoje vamos falar sobre as “Fases do Clube das Desquitadas”. Se você ainda não faz parte de um, se prepare e salve esse post. Porque todo mundo leva um pé um dia na vida (ou vários, em sequência, como foi o meu caso) e precisa de um apoio moral pra sair da lama.

1. A primeira regra do Clube das Desquitadas é: você fala sobre o Clube das Desquitadas.

#reclama #sofre #chora #clubedalutaéfichinha

Toda pessoa adulta já teve o coração partido alguma vez na vida e tem uma história triste pra contar. É claro que se você é como eu, alguém que odeia gente, fica difícil reunir um Clube das Desquitadas. Mas faça um esforcinho.

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Passar por todo esse processo sozinha piora muito o quadro de infelicidade, então reúna sua galera e abra seu coração. Talvez você precise de ajuda profissional e vamos combinar que processos terapêuticos são fundamentais para manter a sanidade em qualquer fase da vida. Mas, de qualquer jeito, falar ajuda muito e nessa hora vale tudo: chorar, gritar, se jogar no chão, rezar, jogar tarô, búzios, beber, correr, ficar deitada em posição fetal. Qualquer coisa que te permita extravasar e processar o que está sentindo.

Você vai acabar falando, de um jeito ou de outro. Seja para o porteiro que te deseja bom dia ou para as pessoas que chegam no inbox perguntando: Oi, tô vendo teus posts, tá tudo bem?

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2. Separei, e agora?

#Fudeu #Socorro #OlhaessaMerda #Meumundocaiu

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Daí você tá lá, felizona na sua vida adulta, nem sempre tá bom, mas também não tá ruim, paga uns boletos, faz planos, assume prestações a perder de vista. Fechada para o “mercado”, nem olha pro lado, pensando: nossa, nunca vou me separar porque dá um trabalho do cão conhecer alguém, toda uma vida de date ruim. Tá bom assim, né? Tem sexo de qualidade (nem sempre, mas quando a gente tá solteira também não tem e nem de qualidade é), tem netflix, cobertor de orelha, o pacote completo. Nunca vou me separar.

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Separar é sempre horrível. Não importa o motivo ou quanto tempo durou, é sempre doloroso. A gente se sente um lixo, acha que devia ter feito diferente e fica, em looping eterno, perguntando o que fez de errado. Mesmo quando a decisão é sua, porque viu que não havia mais nada naquela relação.

A autoestima desaparece por completo e você só quer morrer. Afundada na merda, como a Glorinha.

3. A Bad

#Morta #ChoroInfinito #Álcool #PlaylistdaBad

Não há como fugir, toda separação tem uma fase da bad. Ou muitas. Você vai chorar, vai beber, vai chorar de novo. Em casa, no banho, no trabalho, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Eu quase chorei na aula.

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É bom avisar algumas pessoas do trabalho, porque terá que lidar com coisas da vida adulta como quem vai morar onde, quem fica com os filhos ou os gatos, os livros, os discos, quem paga os boletos. O preço do divórcio. Peça ajuda, sempre que possível, não adianta bancar a superior que não está nem aí pra nada.

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Organize a sua playlist porque serão muitas noites all by myself, se sentindo miserável. E é assim mesmo, tem que viver o luto para poder superar. Uns duram mais, outros menos, mas vai ter uma longa etapa de dor e sofrimento. Prepare-se. Faça uma escala com amigues do Clube das Desquitadas, principalmente em datas especiais como aniversário de casamento, dia dos namorados, ou quando sentir que a barra tá pesada demais.

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Quem já passou por isso conhece todas as fases e sabe que, algum dia, as coisas vão melhorar. Não agora. Vai demorar. Vai ter luto, vai ter tristeza, vai ter recaída (sempre rola um revival), vai ter raiva e quebra pau.

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Você vai se enfiar em várias roubadas, mas com alguém pra te dar suporte e segurar o rolo de papel higiênico enquanto você chora e o nariz escorre, ou segurar o cabelo enquanto você vomita porque bebeu demais, fica muito mais fácil. Se a sua BFF também se separou (como aconteceu comigo), serão duas lokas se revezando no choro. É ruim, mas com alguém do lado sempre melhora, principalmente na hora da vontade de mandar mensagem bêbada na madruga.

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4. Dating

#TindãodaDepressão #+bad #bad² #faixaetária #queria★morta #nuncamaisvoutreparnavida

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Daí você acorda um dia e pensa: sexo. Preciso de sexo. Não tenho nem autoestima pra aparecer em público, estou sem comer e sem dormir direito há meses, mas uma boa trepada vai resolver todos os meus problemas nesse momento.

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Reza a lenda que depois da separação o ideal é acionar os contatinhos que você já pegou alguma vez na vida. O problema é que você passou anos numa relação e há zero @s na sua lista. E as pessoas estão todas casadas. Ou namorando sério. Ou morando no Canadá (as melhores @s moram no Canadá).

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Nenhuma perspectiva de sexo em vista, você faz o quê? Entra no Tinder. Escolhe as fotos menos piores, aquelas que não dá pra ver direito, faz uma descrição honesta, tipo “Pra ser sincera sou bem chata”, pra não enganar ninguém e manda ver. Ok, perfil pronto. Você olha as fotos que vão aparecendo e quer morrer. Sozinha, óbvio, com a certeza de que nunca mais vai transar na vida.

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Sem contatinhos e sem sexo você vai tocando a vida. Parece que todas as pessoas a sua volta estão felizes e vivendo vida de contos de fadas. Todo mundo tem um grande amor, come bem, viaja o mundo e você enchendo a cara, de roupão, abraçada com os gatos escutando a playlist da bad. Barranco abaixo. Mas, como não há desgraça que dure para sempre, um dia aparece uma criatura interessante. Pode vir de inbox, dirigir o uber, te encarar no bar ou comentar o preço do tomate na feira do sábado de manhã. Você não sabe o que fazer e muito menos o que falar.

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Até se acostumar com a rotina do flerte, você vai perder várias oportunidades. Como não temos em mãos um cartão escrito “Eu daria pra você”, temos que manter a civilidade e seguir as regras de convívio social: conversa, flerte, date, sexo.

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Aí você vai colecionando matches, curtidas, cutucadas e até um sexting aleatório. No começo você vai se sentir ridícula, mas aos poucos pega o jeito. Conseguir manter uma conversa digna, encarar sem babar o drink e não falar algo tosco já de cara é uma arte a ser cultivada.

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Para quem é um meme ambulante como eu, leva algum tempo. Não há tutorial de flerte que funcione, não caia nessa. O esquema é se sentir minimamente segura para interagir com outra pessoa e aprender a ler os sinais. Nem sempre chegar chegando dá certo, precisa de um certo tempo (e uma paciência de Jó) e muito feeling.

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Eventualmente vai rolar. Vai ser estranho, você pode ter vontade de sair correndo, ficar com medo de chorar no meio da transa, cair da cama (se estiver muito bêbada), ter uma super expectativa que não se concretiza.

Sua performance também pode não ser lá essas coisas, leva tempo pra acostumar. Você terá alguns dates bons, conhecerá pessoas legais, fará novas amizades na balada. Terá também dates péssimos, com pessoas esquisitas. Se você se relaciona com homens cishet a chance é maior de dar ruim. Mas né? C’est la vie. Faz parte do jogo. Manter baixas as expectativas também ajuda a não se sentir uma fracassada a cada date furado. E eles vão acontecer. Pelo menos depois de um tempo você terá histórias engraçadas para compartilhar na mesa do bar. Eu, que coleciono dates fracassados há uns 30 anos, tenho várias.

4.1 Embustes

#Fuja #CorraLoko #BoyLixo

Abrimos um parênteses aqui para um aviso importante. Não importa qual a sua orientação sexual, fuja de relacionamentos tóxicos. Você já está fragilizada e vulnerável, a possibilidade de se envolver com alguém lixo é grande. Essa foi a primeira coisa que eu descobri após a separação: as pessoas escrotas continuam sendo escrotas, não importa se têm 30, 40 ou 50 anos.

Então, deixo aqui uma lista com o perfil de 10 tipos de embuste. Eu acho que existem bem mais, e acrescentaria pelo menos o Embuste Combo: aquele que reúne várias características em uma só criatura. Conheci um 9/10- quase um bingo. Não recomendo.

5. Aceitação

#Vaidartudocerto #Seguraesseforninho

Quando terminamos uma relação deixamos uma parte de nós para trás. Esse vazio fica ali por um bom tempo. Até que começamos a nos enxergar de novo, a nos descobrir. Encontre algo que você gosta muito e se dedique a isso. Faça algo novo, descubra quais são os seus sonhos.

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Vivemos tempos difíceis e é preciso muito autocuidado para dar conta de tudo. Nem sempre vai estar bom, mas logo já não estará mais tão ruim. Talvez você se relacione de novo, ou não, não importa. Se você chegou até aqui é porque sobreviveu a 100% dos seus piores dias. Parabéns, Guerreira, você é uma musa maravilhosa. E vai descobrir isso aos poucos. Recuperar a autoestima dá trabalho, mas vale a pena.

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E mantenha seu Clube das Desquitadas sempre por perto. Você vai se divertir muito ❤

Não me chame de Guerreira

“Eu queria conseguir dormir 8 horas ininterruptas, escrever 20 páginas de uma vez, ouvir Belchior olhando as nuvens, não ter medo o tempo todo, não ter vontade de chorar quando o pequeno pede atenção, não me sentir um fracasso cada vez que não sei o que fazer. Queria cada coisa na sua caixinha, ter tempo pra tomar aquele café, aquela cachaça, pregar os quadros na parede, molhar as plantas que estão morrendo, pregar aquele botão que já perdi, lembrar daquele insight ótimo que tive há dois dias e não anotei. Queria salvar o mundo, ou pelo menos a mim mesma, queria não sentir tanto ódio, tanto nojo, o estômago revirado o tempo todo, por tanto tempo. Queria que o tempo desse uma trégua, que o dia tivesse 30 horas para que – quem sabe – eu conseguisse apaziguar a máquina produtiva que roda incessante aqui dentro. Queria que alguém dissesse que vai dar tudo certo e que, no fim de tudo, valeu a pena. Um pouquinho de certeza, um beijo de boa noite, que fôssemos felizes, às vezes, um pouco. Queria as palavras certas, essas que nunca encontro, nunca estão lá, nem aqui, que o choro ajudasse e o cinza não durasse tanto tempo.” 

O texto acima foi postado no último ano do meu doutorado, durante o período mais difícil da escrita da tese. Eu já estava devastada e exausta, perdida, infeliz. Mas mesmo assim toquei o barco até a defesa. Ao fim da tese, muito bem recebida por seu conteúdo crítico, não alcancei a sensação de dever cumprido. Meu casamento acabou, meus filhos ainda estão fazendo acompanhamento terapêutico para processar a ausência da mãe e eu me pergunto por que não fiz diferente. Por que não desisti enquanto era tempo. Eu me odiei todos os dias, absolutamente todos os dias enquanto escrevi a tese. Sentia-me uma fraude e não via sentido em tanto trabalho para nada.

Eu me lembrei desse post durante toda a semana da mulher, ao ler incontáveis textos sobre a capacidade feminina de organização, cuidado e superação. Um modelo de feminilidade que reitera que para ser feliz uma mulher precisa ser bonita, desejável,  duplamente competente, magra, vaidosa, jovem. Forte, mas sem ameaçar a masculinidade hegemônica. Sexy sem ser vulgar. Mãe dedicada e abnegada. Inteligente, culta, engraçada, carinhosa. Bem sucedida.

E quem é que cuida dessa mulher exausta? Cansada de tentar se encaixar num padrão irreal e castrador? Pois, se está ocupada demais, não há tempo para pensar em sua própria condição. E se ela faz todo o trabalho (principalmente o afetivo), o outro não precisa fazê-lo, não é?

Escrevi uma tese sobre o fracasso. Sobre como o discurso do sucesso, do pertencimento e da aceitação rouba nossa potência. E como precisamos aprender a fracassar. Cada vez mais tenho visto posts de mulheres expondo o quanto sofrem por tentar se adequar. O sofrimento de não ser digna de amor, de não ter o corpo certo, de não conseguir existir nesse mundo em que só há um jeito de ser mulher. E nunca é o nosso. Precisamos parar de naturalizar o sobretrabalho, a superação como um atributo feminino. Precisamos, com urgência, criar outros jeitos de ser mulher. E aprender a viver com eles. E aceitá-los.

Decidi expor esse texto porque muitas pessoas me admiram e me tratam como se eu tivesse algum tipo de habilidade extraordinária de dar conta das coisas. Não, não tenho. Na maioria dos dias mal consigo levantar da cama de manhã. Todo mundo tem suas batalhas internas. Estou bem, na medida do possível, sendo atendida, acompanhada e amada por pessoas maravilhosas que me aceitam como sou. E me obrigam a aceitar ajuda mesmo quando eu não quero.

Portanto, não me chame de guerreira. ❤

PS: Para quem tem curiosidade sobre a tese, segue o link: https://tede.utp.br/jspui/handle/tede/1219

 

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