Dia dos Pais

Tenho um problema grande com essas datas comemorativas. Não apenas pela comercialização do afeto alimentada pela exploração capitalista, mas pela imposição de comemorar laços afetivos inexistentes.
Quem possui esses laços, sejam familiares ou de amor romântico, se sente especial – parte da casta vencedora.
Quem não possui sofre a inadequação, o não pertencimento, a exclusão por não compartilhar esses códigos de felicidade construída artificialmente.
Por isso, nesse dia dos pais, deixo essa reflexão:
“Toda mãe sozinha é uma mãe SOBRECARREGADA pela AUSÊNCIA de um pai.”

Há inúmeras situações que produzem mães-pais e pais-mães. A viuvez é uma delas, Pais que cuidam sozinhos das crianças – minoria – da mesma forma que crianças criadas por avós. Não são o foco, mas entram na questão por fazerem parte do debate sobre a criação coletiva das crianças.

A esmagadora maioria de “pães” que existem são de mães solteiras ou separadas que arcam sozinhas com toda a imensa responsabilidade de criar as crianças.
Precisamos mesmo parar de romantizar: nossa, que superação, que mulher incrível, que super- mulher e começar a compartilhar essa responsabilidade.

As mulheres vêm dando conta do recado há milênios. Não é essa a questão, mas a necessidade de pensarmos outras formas de criação e educação, compartilhadas, nas quais a responsabilidade não seja única e exclusivamente da mulher.
Maternidade compulsória, falta de planejamento familiar, criminalização do aborto, violência, abandono – a culpa é dela; deu, agora aguente; tivesse fechado as pernas… – e o homem sempre fora da jogada.

Eu não quero só dar os parabéns a todas nós mães solteiras que tivemos que dar conta de criar filhos sozinhas. Quero também pensar em construir uma realidade na qual novas configurações de família sejam possíveis, para que as pessoas (todas as pessoas, né, porque o mundo não é feito de casais hétero) só tenham filhos quando quiserem e possam tê-los sempre que quiserem.
E aí sim sejam excelentes cuidadoras, com muito amor.

Uma mãe possível

13124526_1196496870369293_6080865770726619559_n

08/05/16

Eu ia passar o dia em branco, só curtindo com as crianças, mas sentei agora pra escrever e lembrei dessa foto.
É uma das poucas fotos em que estamos abraçadas de maneira natural. E é um registro de um tempo no qual a nossa convivência ainda não tinha virado uma batalha diária.
Foi bem ali, no ano de 1988, que nossa relação começou a se transformar em outra coisa.
Veja, ao contrário de todo mundo que tá postando relato hoje, eu não tive a melhor mãe do mundo. Tive uma mãe possível. E se reconheço que ela se esforçou absurdamente para ser uma boa mãe, também reconheço que foi falha e humana em todas as suas tentativas.
Ali, aos 13 anos, comecei a desenvolver meus próprios interesses e minha mãe não dava conta de quem eu estava me tornando. Ela não me conhecia, não me entendia e não sabia o que fazer com a frustração de se sentir uma péssima mãe.
Meu mundo não cabia no dela e ela achava que de alguma forma era sua culpa. Foram anos de muita briga e rejeição.
A conciliação só veio quando eu me tornei mãe e ela pôde perceber que, de alguma forma, aquele caminho torto que eu tomei me levou para um lugar que ela conhecia.
Foi na maternidade que nós nos encontramos.

PS: Resolvi escrever porque vejo todos os dias a nossa crítica aos estereótipos, à maternidade compulsória, à nossa condição de mãe. Mas acho que a gente podia avançar bastante se desconstruísse esse ideal de mulheridade e maternidade começando pelas nossas mães.

*************************

13/05/18

Trinta anos depois e ainda estou ressignificando a relação com a minha mãe. A maternidade, esse desafio diário, me aproxima cada vez mais dela. Porque também estou sendo um mãe possível e também não dou conta, na maioria dos dias. Se ela se aproximou de mim no sucesso – quando me tornei uma ótima mãe, eu me aproximo dela no fracasso – quando assumi que sou tão “menas main” quanto.
Da mesma forma, o divórcio também me colocou de frente com situações que ela viveu e as escolhas que fez – que eu nunca entendi ou aceitei. Então, numa “dialética dos afetos”, me encontrei no mesmo lugar de medo, rejeição e falta de amor no qual ela viveu por tantos anos. Estar ali foi muito doloroso, mas pude tomar decisões diferentes e seguir um outro caminho, transformando esse “destino” e compreendendo porque minha mãe conduziu sua vida como fez.
Não foi libertador, não houve “perdão”, mas um outro olhar pra nossa relação e pro meu lugar de mãe. Também me tornei uma mãe possível.

Ps: Continuo achando que precisamos cada vez mais discutir a maternidade, porque esse discurso de perfeição – para nossa mães e para nós – é muito nocivo.

*************************

“Mother, did it need to be so high?”

*************************

12/05/19

*Eu não gosto das grandes datas comemorativas, não só pelo apelo comercial, mas por nos obrigar a condensar um afeto em um único dia. No dia das mães eu sempre estava brigada com a minha e precisava a cumprir aquele rito sem sentido. Sempre odiei o dia das mães.

*Mantenho as comemorações por causa do Tom, mas acho que esse será o último ano. A relação avança e ele entende melhor como funciona o mundo. Não quero que ele também seja obrigado a me amar uma vez por ano.

*O Ian ainda diz que eu sou a melhor mãe do mundo, apesar de já ter entendido o que é ser uma mãe possível. Faço questão de explicar todas as falhas, os erros, e de pedir perdão pelos muitos vacilos. A gente faz o que pode do jeito que dá. Nem sempre funciona, mas é o melhor que podemos fazer. Agora tenho um filho adulto, ainda não sei lidar.

*O Tom ainda acha que eu sou a mãe mais chata do mundo. Mas agora ele já consegue conversar e expressar em palavras o que está pensando e o que está sentindo. Ontem ele pediu desculpas, muito sentido porque viu que fez algo errado e que haveria uma consequência. Esses dias ganhei um beijo espontâneo. Às vezes ele me chama de mamãe.

*Os últimos meses foram muito difíceis. Achei que tinha esgotado a minha cota de sofrimento durante a separação, mal imaginava que ainda haveria tanta dor pra doer. Sem nem piscar virei a mãe-leoa, faça para mim mas não faça para os meus. Sentir seus filhos sob ameaça é terrível. Foi exaustivo e assustador. E solitário. De repente queria um colo de mãe, aquele que nunca tive. Sem colo, sem mãe, fiz como sempre faço: me virei do jeito que deu. A maternidade tem sido a minha maior força, mas também a minha maior fraqueza. Não me define, mas me molda.

*Meu muro continua intransponível, tão alto. Precisava ser tão alto, mãe?

Mamando, parindo, vivendo…

Passado o turbilhão da Marcha, volto a me apropriar de mim e a repensar minhas coisas de maneira mais objetiva. Há uma semana do Mamaço Mundial, em comemoração à Semana Mundial do Aleitamento Materno, me lembrei de um post que comecei a escrever, no blog velho, e que ficou perdido…


Falava sobre a sexualidade da mãe e todos os seus mitos (ou da total ignorância de homens e mulheres…)


Bem, ao revindicar o direito de amamentar em público, me pus a pensar porque será que o ato de amamentar-alimentar um bebê pode causar constrangimento em alguém?


Ao fazer essa pergunta, não estava realmente preocupada com a resposta, afinal tem louco pra tudo, mas sim com o contexto do incômodo.


Primeiro, pensei sobre a exposição do seio, que seria a causa mais óbvia do tal constrangimento. Deixando de lado comentários imbecis como os do pessoal do CQC ou freudianos como os do João Pereira Coutinho, foquei imediatamente na relação corpo-objeto à qual estamos sujeitas atualmente. Nessa linha de raciocínio, um seio exposto obrigatoriamente exige um olhar sexual. A mulher não tem autonomia para expor o seu corpo, construído através do olhar masculino, se não houver a função de seduzir.


É claro que esse pensamento é reforçado socialmente, entre homens e mulheres, pelos padrões de comportamento condicionados e condicionantes à “condição” feminina. Pois ao nos constituirmos objetos, não temos direito de optar por outra relação com o corpo.


Vou desenvolver de outra forma: a mulher possui diferentes formas de prazer físico, que não apenas o sexual e, o que é mais importante, que não apenas o que advém do “olhar” masculino (aqui incluído todas as etapas do jogo de sedução, até o ato sexual em si).


Eu, que tive dois filhos nascidos de parto natural, entendo muito das diferentes sensações de prazer que o meu corpo me permite vivenciar e que não dependem e, o que é mais importante, não têm relação nenhuma com o prazer sexual. Quando se comenta a existência de um parto orgástico os puritanos de plantão já se escandalizam, pois associam a experiência à um orgasmo sexual “comum”…


A questão do tipo de prazer que se pode sentir ao parir um filho de forma plena e natural está diretamente relacionada à força dessa experiência, que no nosso caso (de viventes em uma cultura tecno-industrial), é uma experiência ainda mais forte, pois não faz parte do nosso “background”… Não temos registro histórico coletivo, memória social ou vivência do que seja esse contato supremo com a natureza em toda a sua plenitude. Um parto sem intervenções, realizado com segurança e amor, permite a liberação de uma quantidade imensa de ocitocina. Isso sim é uma experiência orgástica… 


Na mesma linha, a amamentação também gera prazer, pois a liberação da prolactina e da ocitocina inundam o organismo da mãe e do bebê… Mais uma vez, não é um prazer “sexual” no sentido da cópula… É um prazer fisiológico de doação, de amor incondicional.


Difícil é, para homens e mulheres condicionados ao comportamento (sexual e social, por que não?)  regrado, entender e aceitar essa “autonomia” do corpo feminino.


Ah, então o corpo feminino produz prazer sem a atuação masculina, o insuperável falo? Sim, as lésbicas bem o sabem…


Mas o corpo feminino produz prazer intenso, sem conotação sexual? Sim, e basta uma pequena mudança de “paradigma” para se abrir a essa experiência maravilhosa.


A natureza é pródiga e nem deveríamos precisar reafirmar isso constantemente. Mas como deixou de ser uma verdade, deixo registrado aqui. A natureza é pródiga, o corpo humano é perfeito. Basta confiar.


Termino o post com uma pequena provocação: a amamentação é, também, um ato subversivo – anticapitalista. Para alimentar o seu filho e mantê-lo saudável, você não precisa de dinheiro, produtos industrializados, tecnologia, fórmulas mirabolantes. 


Você só precisa de amor,  boa vontade e paciência.


SEMANA MUNDIAL DO ALEITAMENTO MATERNO.