Reescritura

“Escrevi minha vida numa narrativa linear, teleológica, um fio de linha do tempo que me conduziria ao final feliz, ao grande amor, à vida plena e realizada. Vivi tantos finais quanto foi possível, alguns incríveis, outros devastadores, até que só me restou viver começos. Então dei o primeiro passo e mudei o giro da roda da vida, que agora funciona em elipses, espirais e vai-e-vens sem destino. Não acredito mais em destino, mas o acaso é implacável.”

Reescritura é mais um começo, agora no formato de colagens. Cansei de preencher vazios e de seguir uma cronologia que já não faz o menor sentido. Agora adorno folhas e cadernos com fragmentos de letras de música, cartas de amor, fotografias e memórias para que dores e alegrias se transformem em outros desenhos. E o mais importante: abro espaços.

Aqui faço uma enunciação de escrevivência que não pretende nada e nem aponta caminhos. Não precisa ter sentido. Escolho para me acompanharem diferentes artistas, começando com @kintsugi.cwb, que fez os primeiros cadernos onde deposito meus afetos atuais.

O projeto de Tainá Miessa se inspira na técnica japonesa de reparar objetos danificados com uma espécie de cola de ouro, transformando imperfeição em mudança. Nada mais apropriado.

Espere

ESPERE, BABY
espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes

espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre o mistério da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma

espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é

espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim

espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos.

  • CHACAL

Forjando a armadura

Rudolf Steiner

Nego-me a me submeter ao medo
que me tira a alegria de minha liberdade,
que não me deixa arriscar nada,
que me toma pequeno e mesquinho,
que me amarra,
que não me deixa ser direto e franco,
que me persegue,que ocupa negativamente minha imaginação,
que sempre pinta visões sombrias.

No entanto não quero levantar barricadas por medo
do medo. Eu quero viver, e não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro e não
para encobrir meu medo.

E, quando me calo, quero
fazê-lo por amor
e não por temer as
conseqüências de minhas
palavras.

Não quero acreditar em algo
só pelo medo de
não acreditar.
Não quero filosofar por medo
que algo possa
atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só
porque tenho medo
de não ser amável.
Não quero impor algo aos
outros pelo medo
de que possam impor algo a mim;
por medo de errar, não quero
tomar-me inativo.
Não quero fugir de volta para
o velho, o inaceitável,
por medo de não me sentir
seguro no novo.
Não quero fazer-me de
importante porque tenho medo
de que senão poderia ser ignorado.

Por convicção e amor, quero
fazer o que faço e
deixar de fazer o que deixo de fazer.

Do medo quero arrancar o
domínio e dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que
existe em mim.

Criança

1987: Lançamento de ″Asas do Desejo″ | Fatos que marcaram o dia ...

Canção da Infância- Peter Handke

Quando a criança era criança,
andava balançando os braços,
desejava que riacho fosse rio e
que rio fosse torrente e
a poça d’agua, o mar
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo era cheio de vida e
a vida era uma só!
Quando a criança era criança,
não tinha opinião,
não tinha hábitos,
sentava de pernas cruzadas,
saia correndo,
usava um topetinho e
não fazia caretas pra fotografias!
Quando a criança era criança,
era o tempo destas perguntas:
Porque eu sou eu e não você?
Porque estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo, e
onde termina o espaço?
Será que a vida sob o sol
nada mais é que um sonho?
Será que o que vejo, escuto e cheiro
não é mais que uma miragem do mundo
anterior ao mundo?
Será que o mal existe mesmo e
pessoas realmente más?
Como pode? Eu que sou eu,
não existia antes de existir e
que alguma vez eu,
aquele que sou não serei mais quem sou?
Quando a criança era criança,
refugava espinafre, ervilhas,
pudim de arroz e couve-flor.
Agora come tudo e
não só porque precisa.
Quando a criança era criança,
acordou numa cama estranha, e
hoje em dia o faz sempre
muitas pessoas pareciam bonitas outrora.
Hoje muito raramente.
Só com sorte.
Tinha uma visão precisa do paraíso,
agora só pode adivinhar.
Não conseguia imaginar o nada,
hoje treme só de pensar.
Quando a criança era criança,
jogava com entusiasmo.
Agora só se entusiasma
com seu trabalho.
Quando a criança era criança,
vivia de maçãs e pão
era suficiente e ainda é assim.
Quando a criança era criança
as framboesas caíam em suas mãos e
ainda é assim.
Nozes deixavam sua língua áspera, e
ainda o fazem.
Chegando ao topo de cada montanha,
queria outra mais alta.
Em cada cidade
procurava outra maior.
E ainda o faz.
Subia nas árvores para colher cerejas.
Era tímido diante de estranhos, e
ainda o é.
Aguardava a primeira neve e
ainda a aguarda da mesma forma.
Quando a criança era criança,
arremessou uma lança de madeira contra uma árvore.
Ainda balança na árvore até hoje.

Adeus, Amor

Foi num seis de abril, em pleno viaduto, uma cantada barata, um butiquim de quinta, um poema piegas. Eu te queria há tanto, você nem me sabia. Que receita para um filme ruim. Os dias se passaram em álcool e telefones tocando, uma espera que não se realizava até que estivéssemos prontos. Tantos desencontros, tanto amor e tanto ódio. Um pacto de vida. E de morte. Eu morri em sua mediocridade e você morreu em meu excesso. Tenho morrido em cartas de amor que carrego há décadas. Agora é hora de partir. De deixar você partir. Que nossas almas – outrora gêmeas – caminhem livres. De você eu me liberto.

Adeus, Amor.

Não te rendas

“Não te rendas, ainda estás a tempo

De alcançar e começar de novo,

Aceitar as tuas sombras,

Enterrar os teus medos,

Libertar o lastro,

Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

Continuar a viagem

Perseguir os teus sonhos,

Destravar o tempo,

Remover os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se esconda,

E se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma

Ainda há vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo

Porque o quiseste e porque eu te quero

Porque existe o vinho e o amor, é certo.

Porque não há feridas que não cure o tempo.

Abrir as portas,

Tirar os ferrolhos,

Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o repto,

Recuperar o riso,

Ensaiar um canto,

Baixar a guarda e estender as mãos

Abrir as asas

E tentar de novo,

Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor não cedas,

Mesmo que o frio queime,

Mesmo que o medo morda,

Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

Ainda há fogo na tua alma,

Ainda há vida nos teus sonhos

Porque cada dia é um começo novo,

Porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.”

Não te rendas
Mario Benedetti
(tradução: Inês Pedrosa)

Títeres

“E como manejava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntário e consciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como se desfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso conveniência. Também ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício, toda feita de sutilezas e grosserias, de expectativa e oportunidade, de insolência e submissão, de silêncios e rompantes, de anulação e prepotência. Conhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o grosseiro diante do inferior, o arrogante quando o poderoso em nada o podia prejudicar. Sabia desfazer situações equívocas, e armar intrigas das quais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna se ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único, irrecuperável, irreversível, exige um estado de alerta para a sua apropriação”

Samuel Rawnet. O aprendizado.

Quarentena, dia 4

Ontem bati panela e a sensação foi boa, mas me senti muito despreparada enquanto lembrava que na casa tinha caixa de som, megafone, prato de bateria e todo o tipo de instrumento musical que poderia fazer muito barulho. A vida segue em ritmo de fluxo de pensamento, misturando as coisas concretas do dia a dia com as mil ideias que circulam pela cabeça o tempo todo. Sempre foi assim, as pessoas não fazem ideia de tudo o que acontece aqui dentro, só eu sei, mas agora está fluindo como cachoeira, intenso e sem freio. Eu me preparei a vida inteira para esse momento, construí um casa com quintal, pomar, horta, ateliê, estúdio de música, espaço para as pessoas e os bichos, poderia viver meses confinada ali. Mas, então, a vida me passou uma rasteira e aqui estou, cuidando dos filhos e do cachorro trancada em um apartamento sem sacada. Neste perfil lidamos com o real, mesmo que nem sempre demos conta.

Em 20/03/20

Bizarre Love Triangle

Bastou encostar em você para que seu cheiro me impregnasse de novo. Não importa que tantos dias tenham se passado, continuo escrevendo cartas que nunca coloco no papel, pensando naquela conversa que nunca teremos, “waiting for that final moment you’ll say the words that I can’t say”. Bastaram 5 minutos ao seu lado para que tivesse de novo essa vontade insuportável de você, para me sentir íntima e ao mesmo tempo vazia, porque poderíamos ter sido tanto, ter sido tudo, mas nunca seremos, nunca mais seremos.