Amor-Navio

Notas sobre A banda – Carlos Drummond de Andrade

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O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Carlos Drummond de Andrade

Correio da Manhã, 14/10/66

Disponível em: http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_drummond.htm

Light

Sexta-feira é dia de trazer o caçula na terapia. Enquanto espero na salinha ouço a rádio light que toca os sucessos de ontem e de hoje e flano nas redes sociais, tentando encontrar o que há por trás dessas vidas tão perfeitas. Já não choro mais, mas viver ainda é uma batalha incessante. Agora toca Forever Young e penso que, às vésperas de fazer 45, me sinto matusalênica, mesmo ainda estando à espera da era da sabedoria, porque nunca saí da era das dúvidas. Quase meio século de incertezas, esse cansaço infinito, mas hoje é dia de dançar, faz sol lá fora e aqui dentro talvez já dê para abrir a janela e começar a respirar.

Perfeição

Alguém deveria nos contar que as grandes coisas não existem. Que os moinhos de vento estão em todos os lugares e que cada pequeno feito é uma importante vitória.
A megalomania da vida online faz com que cada refeição, cada beijo, cada pôr-do-sol seja uma experiência mágica, única. E seguimos vivendo na saturação de imagens, gostos e experiências – todas únicas, infinitas e publicizadas. Toda a simplicidade das pequenas coisas – as verdadeiras – que ocorrem no silêncio e no vazio da vida se perde nesse grande show pirotécnico do virtual.
Quanto a mim, que sou do século passado, cada vez mais é no pequeno, na minúscula vitória de cada dia, que me realizo e concretizo. A guerra dos últimos tempos tem sido contra a “perfeição”. Tenho perdido várias batalhas, mas são essas derrotas que me permitem continuar.
Hoje, por exemplo, foi dia de costura. Tudo sob controle até chegar nos pontos manuais. Tortos e assimétricos. Como eu sou, como a vida é. O primeiro impulso é desmanchar e começar de novo. Às vezes até faço. Hoje não. Estou me acostumando com o processo e com todas as maravilhosas imperfeições da vida.
Costurar me traz paz, me enche de afeto e me proporciona essas pequenas vitórias. Não é importante pra ninguém.
Só pra mim.

♪♫ This is ground control to major Tom ♪♫

Uma tese de fracasso

O Facebook me lembra que lá se vão dois anos de defesa da tese e ainda não consigo “comemorar”. Nem deixo de me surpreender quando me chamam de “doutora”, tão pouco importante o título é para mim. Quando entrei no doutorado, em 2013, estava no auge da potência revolucionária – mesmo já tendo me desiludido com a “militância” , bem como lidava com um processo intenso de autotransformação que começou com a Marcha das Vadias, em 2011.

Nomear-me vítima-sobrevivente no encontro com o feminismo teve um efeito fulminante na minha vida, nunca mais pude ser a mesma. Mesmo tendo sido positivo e libertador, em inúmeros aspectos, viver a mudança também tem sido extremamente doloroso. Eu sempre pensei minha vida como uma sucessão de fases, muito relacionadas aos lugares onde morei. Com a vida adulta, os filhos e o trabalho, as fases se tornaram muito mais processos internos. E a fase do doutorado está sendo mais longa do que o previsto. Começou antes da entrada no PPG e, passando pela defesa e pelo divórcio, ainda não terminou.

Talvez por isso ainda seja tão difícil.

Sobre a vida, ainda não me recuperei, tudo acontecendo como avalanche nos últimos anos. Mas sei que o pior já passou, porque agora entendi o funcionamento desse novo modo de viver – descontrolado e desgovernado. É terrível, óbvio, mas não deixa de ser uma aventura. E sempre, sempre, tenho pessoas incríveis e amorosas ao meu lado.

Sobre a tese, durante 5 min achei que poderia ser socialmente relevante. Lá pela metade do segundo ano percebi que estava escrevendo uma resposta para a minha mãe (que já morreu), o que diz muito sobre tudo o que está ali e que talvez só faça sentido para mim. Algumas pessoas leram, algumas gostaram, teve até gente que citou (!). Mas isso realmente pouco importa. O que importa é que, por causa da tese, escrevi o texto Não me chame de guerreira e esse sim tem sido relevante. Milhares de pessoas leram (e continuam lendo), o que é um tanto absurdo pra minha realidade, e têm encontrado algum tipo de conforto de saberem que não estão sozinhas nesse processo massacrante e desumano que é a pós-graduação.

Já me dou por satisfeita, percebendo que, enfim, a tese serviu para alguma coisa.

No mais, continuo fracassando e postado memes. Em vista das circunstâncias, tá de bom tamanho.

fracassei (2)

Ps: Ainda ontem descobri que, ao contrário do que pensava, eu não sou uma péssima pesquisadora. Só sou uma mulher que trabalha 60 horas semanais, tem dois filhos e, nos minutos que sobram, faz pesquisa. Ainda vou escrever sobre isso.

Dia dos Pais

Tenho um problema grande com essas datas comemorativas. Não apenas pela comercialização do afeto alimentada pela exploração capitalista, mas pela imposição de comemorar laços afetivos inexistentes.
Quem possui esses laços, sejam familiares ou de amor romântico, se sente especial – parte da casta vencedora.
Quem não possui sofre a inadequação, o não pertencimento, a exclusão por não compartilhar esses códigos de felicidade construída artificialmente.
Por isso, nesse dia dos pais, deixo essa reflexão:
“Toda mãe sozinha é uma mãe SOBRECARREGADA pela AUSÊNCIA de um pai.”

Há inúmeras situações que produzem mães-pais e pais-mães. A viuvez é uma delas, Pais que cuidam sozinhos das crianças – minoria – da mesma forma que crianças criadas por avós. Não são o foco, mas entram na questão por fazerem parte do debate sobre a criação coletiva das crianças.

A esmagadora maioria de “pães” que existem são de mães solteiras ou separadas que arcam sozinhas com toda a imensa responsabilidade de criar as crianças.
Precisamos mesmo parar de romantizar: nossa, que superação, que mulher incrível, que super- mulher e começar a compartilhar essa responsabilidade.

As mulheres vêm dando conta do recado há milênios. Não é essa a questão, mas a necessidade de pensarmos outras formas de criação e educação, compartilhadas, nas quais a responsabilidade não seja única e exclusivamente da mulher.
Maternidade compulsória, falta de planejamento familiar, criminalização do aborto, violência, abandono – a culpa é dela; deu, agora aguente; tivesse fechado as pernas… – e o homem sempre fora da jogada.

Eu não quero só dar os parabéns a todas nós mães solteiras que tivemos que dar conta de criar filhos sozinhas. Quero também pensar em construir uma realidade na qual novas configurações de família sejam possíveis, para que as pessoas (todas as pessoas, né, porque o mundo não é feito de casais hétero) só tenham filhos quando quiserem e possam tê-los sempre que quiserem.
E aí sim sejam excelentes cuidadoras, com muito amor.

Um toque de infidelidade

Na rádio toca With or Without you e penso em Sean Young, maravilhosa e bêbada, dançando. Vejo minha vida em filmes, a espera por esse amor inesperado que haveria de me encontrar em alguma mesa de bar. Amores, foram tantos. Alguns bem vividos, outros bem sentidos, todos bem chorados. Mas não você. Junto fragmentos de felicidade para dar um sentido a esse afeto incompleto. Não há mais lugar para histórias de amor.

Férias

Você está lá, com os sentimentos e neuroses espalhados pelo sofá, misturados com cobertas e farelos de comida e recebe um recado da analista: “voltei de ferias mais cedo, sessão amanhã?A vontade de dizer “não” é grande, mas é preciso ir. Então, você junta um pouco das emoções que estão mais visíveis antes de ir dormir. Ao acordar recolhe mais uma ou duas memórias dolorosas, tanto por achar ainda. Não dá pra ver no edredom estampado, mas você sabe que há cacos de coração partido, nacos de fracassos não superados e alguns generosos pedaços culpa. Já está na hora de sair para o trabalho, não há como reunir as migalhas de frustação cotidiana sem se atrasar. Você toma um gole de café e dá uma sacudina no sofá. Muito cai pelos vãos – um resto de esperança, um tanto de vontade, o que sobrou do que poderia ter sido -, se espalhando pelas frestas. “Que fiquem aí”, você pensa. É o que temos pra hoje.