Uma mãe possível

13124526_1196496870369293_6080865770726619559_n

08/05/16

Eu ia passar o dia em branco, só curtindo com as crianças, mas sentei agora pra escrever e lembrei dessa foto.
É uma das poucas fotos em que estamos abraçadas de maneira natural. E é um registro de um tempo no qual a nossa convivência ainda não tinha virado uma batalha diária.
Foi bem ali, no ano de 1988, que nossa relação começou a se transformar em outra coisa.
Veja, ao contrário de todo mundo que tá postando relato hoje, eu não tive a melhor mãe do mundo. Tive uma mãe possível. E se reconheço que ela se esforçou absurdamente para ser uma boa mãe, também reconheço que foi falha e humana em todas as suas tentativas.
Ali, aos 13 anos, comecei a desenvolver meus próprios interesses e minha mãe não dava conta de quem eu estava me tornando. Ela não me conhecia, não me entendia e não sabia o que fazer com a frustração de se sentir uma péssima mãe.
Meu mundo não cabia no dela e ela achava que de alguma forma era sua culpa. Foram anos de muita briga e rejeição.
A conciliação só veio quando eu me tornei mãe e ela pôde perceber que, de alguma forma, aquele caminho torto que eu tomei me levou para um lugar que ela conhecia.
Foi na maternidade que nós nos encontramos.

PS: Resolvi escrever porque vejo todos os dias a nossa crítica aos estereótipos, à maternidade compulsória, à nossa condição de mãe. Mas acho que a gente podia avançar bastante se desconstruísse esse ideal de mulheridade e maternidade começando pelas nossas mães.

*************************

13/05/18

Trinta anos depois e ainda estou ressignificando a relação com a minha mãe. A maternidade, esse desafio diário, me aproxima cada vez mais dela. Porque também estou sendo um mãe possível e também não dou conta, na maioria dos dias. Se ela se aproximou de mim no sucesso – quando me tornei uma ótima mãe, eu me aproximo dela no fracasso – quando assumi que sou tão “menas main” quanto.
Da mesma forma, o divórcio também me colocou de frente com situações que ela viveu e as escolhas que fez – que eu nunca entendi ou aceitei. Então, numa “dialética dos afetos”, me encontrei no mesmo lugar de medo, rejeição e falta de amor no qual ela viveu por tantos anos. Estar ali foi muito doloroso, mas pude tomar decisões diferentes e seguir um outro caminho, transformando esse “destino” e compreendendo porque minha mãe conduziu sua vida como fez.
Não foi libertador, não houve “perdão”, mas um outro olhar pra nossa relação e pro meu lugar de mãe. Também me tornei uma mãe possível.

Ps: Continuo achando que precisamos cada vez mais discutir a maternidade, porque esse discurso de perfeição – para nossa mães e para nós – é muito nocivo.

*************************

“Mother, did it need to be so high?”

*************************

12/05/19

*Eu não gosto das grandes datas comemorativas, não só pelo apelo comercial, mas por nos obrigar a condensar um afeto em um único dia. No dia das mães eu sempre estava brigada com a minha e precisava a cumprir aquele rito sem sentido. Sempre odiei o dia das mães.

*Mantenho as comemorações por causa do Tom, mas acho que esse será o último ano. A relação avança e ele entende melhor como funciona o mundo. Não quero que ele também seja obrigado a me amar uma vez por ano.

*O Ian ainda diz que eu sou a melhor mãe do mundo, apesar de já ter entendido o que é ser uma mãe possível. Faço questão de explicar todas as falhas, os erros, e de pedir perdão pelos muitos vacilos. A gente faz o que pode do jeito que dá. Nem sempre funciona, mas é o melhor que podemos fazer. Agora tenho um filho adulto, ainda não sei lidar.

*O Tom ainda acha que eu sou a mãe mais chata do mundo. Mas agora ele já consegue conversar e expressar em palavras o que está pensando e o que está sentindo. Ontem ele pediu desculpas, muito sentido porque viu que fez algo errado e que haveria uma consequência. Esses dias ganhei um beijo espontâneo. Às vezes ele me chama de mamãe.

*Os últimos meses foram muito difíceis. Achei que tinha esgotado a minha cota de sofrimento durante a separação, mal imaginava que ainda haveria tanta dor pra doer. Sem nem piscar virei a mãe-leoa, faça para mim mas não faça para os meus. Sentir seus filhos sob ameaça é terrível. Foi exaustivo e assustador. E solitário. De repente queria um colo de mãe, aquele que nunca tive. Sem colo, sem mãe, fiz como sempre faço: me virei do jeito que deu. A maternidade tem sido a minha maior força, mas também a minha maior fraqueza. Não me define, mas me molda.

*Meu muro continua intransponível, tão alto. Precisava ser tão alto, mãe?

Baú

Eu carrego um baú cheio de dores, fragmentos de instantes que poderiam ter sido, pedaços de amores que se foram, sonhos não ousados. Eu carrego um baú sem enxoval, apenas discos quebrados, cartas rasgadas, fotos desbotadas, fragmentos de uma utopia que nunca existiu. Eu carrego um baú pesado, repleto de versões de uma vida improvável, de memórias impossíveis, de saudades inocentes.

Eu carrego um baú vazio.

Oração

Ouço um verso e sou automaticamente transportada praquele outro tempo em que eu acreditava. Quase tudo era possível, mesmo já tendo deixado tanta coisa pelo caminho. Mas eu tinha uma penteadeira e um coração onde cabiam vidas inteiras. Acreditava tanto que desenhei um projeto de vida, um futuro empenhado num voto de amor. Uma tolice, por certo, mas naquele tempo eu acreditava. Obviamente foram-se o amor, o projeto e a penteadeira, não se carrega um voto de futuro sozinha. Vejo fragmentos de uma vida distante, um pic-nic, um passeio de bicicleta, um fogão a lenha, um pé de ameixa, um bebê mexendo na barriga. Mas o filme continua e vejo silêncio, tristeza, distância, mentira. Observo a mim mesma de longe, carregando o mundo nas costas, tanto peso, tanto medo, diagnósticos, contas, cobranças. Impossível acreditar num futuro, num amor – esteja lá ou aqui, num momento mais leve, na possibilidade de – algum dia – essa dor passar. Senti um pouco de saudade de acreditar.

Alguma hora passa

Olho o aparelho e percebo que estou desconectada, uma sensação estranha essa de me imaginar só. Um bom momento para pensar em quando me desconectei e mais, se é possível que me encontre em algum lugar. Há décadas fugindo do vazio, tudo o que consegui foi desaparecer. De mim. Em mim. Esse universo de antimatéria onde tudo é desconhecido. Caminho pelo museu e vejo imagens e palavras. Não consegui salvar minha mãe, nem a mim, segui seus passos mesmo tendo corrido devairadamente deles. Nem foi um caminho, mas uma sina. Lembro-me que ainda é tempo de morangos, que o chapéu côco continua no armário, que o amor deveria me esperar no fim da vida. Que sou um oceano talhado em um rosto devastado. Tanto tempo desejei outra vida, largando essa que me foi concedida. Tantas mortes, de formas diferentes. Penso em você, tão distante, não há mais nada, eu sei, e me entristeço mesmo sabendo que esse era o final possível. Mas eu acredito, às vezes eu acredito. E espero. Recolho-me. Alguma hora passa.

Quebrada

O calendário de rascunhos do WordPress me avisa que eu comecei a escrever esse post lá em agosto de 2018, quando a Suzane Jardim postou no FB sobre a maneira como uma iniciativa de organizar os compromissos a ajudou a realmente conseguir cumpri-los. A dica é importantíssima (incluindo a necessidade de acompanhamento terapêutico) porque, no geral, a gente não tá dando conta mesmo. Vai um tempão e uma energia louca pra conseguir encontrar um jeito de montar um sistema de organização que atenda a nossa demanda (e personalidade). Tem gente que é da lista, gente que é do post-it, gente do digital,  montes de aplicativos para as coisas. Eu tenho agenda, mil caderninhos de notas e um milhão de listas e papeizinhos soltos que incluem coisas urgentes e também que devem ser feitas  um dia. Sempre esqueço alguma coisa, troco os dias e tal. Imagine se não tivesse.

Eu gostei do sistema proposto pela Suzane e resolvi testar. Organizei por cores, para identificar os meus compromissos e os dos meninos, fiz uma estrutura de semanas para visualizar o que tinha data marcada e outra mais livre, para mostrar coisas a serem feitas sem prazo fixo. Peguei uma moldura grande de quadro mesmo, com vidro, que já tinha em casa e fiz as divisões num papel branco. Preguei na parede, bem lindo, me sentindo a deusa do calendário. O Tom prontamente preencheu recados importantes nos seus post-it amarelos, como “comprar presentes do dia das crianças”, e colou orgulhoso no quadro. Durou um tempo, até que uma ventania derrubou o quadro da parede. Reforcei a moldura e preguei de novo. Caiu de novo. Sim, teria que ter mudado de lugar, eu sei, mas agora a moldura estava destruída, apesar do vidro ter ficado intacto.

Então, passei o resto do ano do mesmo jeito que tinha começado: desorganizada. A ideia do “um dia de cada vez” virou meu mantra e fui resolvendo questões urgentes à medida que iam surgindo. Perdi vários rolês legais e compromissos importantes, me atrasei para várias coisas e fui deixando a vontade de organizar a vida pra lá. Eu lido relativamente bem com o caos, muito tempo funcionando desse jeito. Mas não é o ideal, ainda mais quando se está destroçada.

Mas o que me mobilizou mais no texto da Suzane foi a frase ” Eu sou mãe, não posso quebrar.” Esse é o tema dessa conversa. Porque eu quebrei lá atrás e continuei quebrando. Passei um ano inteiro quebrando, dia após dia. Parecia que nunca ia deixar de quebrar. O que uma mãe faz quando quebra? Pede ajuda. E esse foi o meu movimento mais importante, porque meus filhos são minha vida e uma mãe não pode quebrar.

Então fui juntando os pedaços que consegui e levando os dias, toda trabalhada no patchwork. Virei um frankenstein, é óbvio. Física e emocionalmente. Mas fui em todas as sessões de análise, cumpri todos os compromissos profissionais e, quando não consegui, avisei que não conseguiria. Aprendi a dizer não. A dizer não dou conta. A pedir e aceitar ajuda. A conversar com os filhos, tão acostumados a ter uma mãe inteira, que faz tudo. Não é fácil nos apresentarmos humanas e falíveis para quem nos ama. Mas é tão importante.

De tanto quebrar, descobri que havia ali uns pedaços que eu nem sabia (ou lembrava) que existiam. Costurei junto, encaixando onde dava. Olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher ou o que fazer com ela. Muitos pedaços faltando, buracos em que nada cabia. Comecei a sentir o vento passando nas frestas, eu que gosto tanto de espaço. E também a perceber que muito do que deixei para trás realmente não era (mais) importante.

Então, assim fragmentada, percebi que esse quebrar foi um processo significativo na minha caminhada. E que ao me colocar de maneira diferente frente ao mundo, abri espaço para experiências diferentes. Nem todas são positivas, por certo, mas muitas são. Mesmo quando eu achava que não seriam. E aos poucos a ordem veio. Outra ordem, outra forma de organizar a vida e o meu universo interno.

Por isso lembrei desse post não escrito no ano passado. Porque fiz uma lista gigantesca do que precisava ser feito já, daqui a pouco, ou um dia. Consegui fazer a Marie Kondo (ainda não acabei, ok), marcar consultas e exames, levar o carro para a revisão, criar uma rotina com os meninos, finalizar trabalhos atrasados e, inclusive, festar muito (afinal: férias!). Assim como a Suzane, de uma maneira tão diferente, consegui tirar o peso de mim e lidar com a vida. E também a comemorar minhas pequenas vitórias, essas que são fundamentais para me manter viva. Vejo outras amigas fazendo o mesmo: olhando para si, para o seu percurso, para o que ficou pelo caminho e dizendo: eu consegui.

Que bom nos ver vivas!

 

#MariKon*

Como uma pessoa antenada nas últimas tendências de consumo e totalmente pautada pelas demandas das redes sociais (#sqn), comecei a assistir à série da Marie Kondo. Férias pra mim sempre foi tempo de arrumação. Professora-workaholic, mãe e faxina-freak, é no mês de férias que tenho tempo de organizar e limpar a vida para dar conta do novo ano letivo. Também sou da geração X, aquela que tinha uma mãe que abria o armário e jogava no chão todas as roupas emboladas e socadas e dizia: só sai quando terminar de arrumar.

marikon1

Então não foi realmente uma novidade, mas mesmo que eu não use nada do método, acho a ideia interessante (principalmente pra quem não tem método algum). Faço tudo de forma aleatória e ao mesmo tempo, roupas, sapatos, papeis, muitos papeis, milhares de papeis, livros (obviamente ficam todos, mas pelo menos limpos e organizados). Agora não tenho mais garagem, mas estou abrindo espaço no apartamento para poder trazer o que ainda ficou na antiga casa.

marie_kondo_transformation_photo (2)

Enquanto vou organizando o que vai e o que fica, vou pensando no espaço que é preciso abrir para que o vazio finalmente exista. E em tudo o que tenho aprendido nesses últimos tempos. A fazer as coisas de maneira diferente (nem que seja para quebrar a cara de um jeito novo e não do mesmo jeito das últimas 384743 vezes). A dizer NÃO para o que não quero, não tenho vontade – tempo ou interesse, não posso e/ou não devo (muitas vezes ainda me sinto culpada, mas essa é outra fase a trabalhar). A aceitar minhas limitações e, principalmente, a me ouvir e me acolher. A saber que eu fiz o melhor que podia, mesmo não tendo sido o suficiente. E a agradecer.

marikon2

Aliás, tem um monte de coisas que eu não agradeço. Guardo porque fazem parte de sentimentos não elaborados e, na maioria das vezes, não superados. Ainda tenho guardadas todas as minhas agendas e cartas e um dos momentos de arrumação foi olhar para todo esse passado e ver o que é que ainda existe daquela pessoa que se fez no século passado. Além de perceber que eu também fui uma péssima pessoa tantas vezes (nenhuma novidade aí, mas é meio desconcertante quando a coisa grita na sua cara) também senti que, finalmente, é possível reconstruir algumas memórias. Ressignificar algumas dores e reescrever algumas histórias permite que o passado se mantenha como matéria viva, porém sem assombrar ou doer. Essa foi uma vivência muito potente do ano passado e se mantém, agora como um hábito e não mais como uma surpresa. Ao final de tudo, a síntese. Mesmo tendo abandonado a prática dos rituais, há um do qual não abro mão: queimar. Como não podemos tacar fogo em casas ou pessoas, ficamos com a opção de simbolicamente expurgar no fogo o que nos fere. Para mim funciona.

kondo-11

Outro ponto importante que fica óbvio cada vez faço a Marie Kondo, ano após ano, é o fato de que, sim, toda a carga mental da família (mesmo não sendo mais uma família) é minha. Já tenho trabalhado isso na análise há algum tempo, mas é impressionante como o acúmulo de responsabilidades e de trabalho emocional se soma ao fato de que ninguém na casa, além de mim, sabe nem onde estão seus próprios documentos. É exaustivo, óbvio, mas também extremamente debilitante para as pessoas envolvidas, que se tornam incapazes de organizar e gerenciar a sua própria vida. O fato de que a parte que me cabe nesse latifúndio é um sintoma de um fenômeno social não muda nada. Tenho visto minhas amigas num mesmo movimento de sobrecarga e acúmulo de funções, trabalhando, estudando, cuidando dos filhos e da casa. Todas exaustas.

marikon3

Algumas optaram por mudar a estrutura das relações, o que é um movimento que depende também das pessoas envolvidas. It takes two to tango, já sabemos, e dançar sozinha acaba sendo frustrante e nos mantendo no mesmo modus operandi de sempre. Não há como obrigar a outra pessoa a compartilhar as responsabilidades se ela não tem interesse ou vontade. O #porramaridos mostrou bem como é difícil. Outras decidiram (por inúmeros motivos, é claro) que não valia mais a pena permanecer em uma relação na qual não se constrói em conjunto.

marikon4

Não importa qual a vibe, acho que o fundamental é estarmos atentas aos nossos sintomas. É difícil existir no caos completo, mas também uma vida rigidamente regrada se torna uma prisão. Para mim separar, avaliar e ordenar as coisas físicas tem permitido um balanço acerca do ponto em que me encontro. O que me trouxe até aqui? O que ainda é importante que permaneça? O que não serve mais? Há coisas que são constitutivas, como base de fundação mesmo, e que permanecerão provavelmente por muito tempo. No entanto, há tantas outras que deixaram de ter sentido com o passar do tempo, que mudaram de significado ou perderam mesmo, se tornando vazias. Tem sido bem interessante viver esse processo. Recomendo.

 

*Sim, eu sei que a réxitégui é KonMari, mas pelamor MariKon é excelente.

Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

No #tbt de hj retomo um texto sobre a morte de Bowie (e meu momento de glória na Internet, pois foi publicado no Biscate Social Club) pensando que continuamos retrocedendo em um moralismo punitivista que captura os discursos, os corpos e os desejos. Há muito decidi que não quero uma luta que não parta do princípio da agência. Infelizmente, o que mais tem por aqui é um aprisionamento do “eles venceram e o sinal esta fechado pra nós”. Pois olha, eu tenho colado com gente que é só resistência e que tá furando sinal há um tempão. E vou te contar que olhar para as próprias contradições (e se perceber como parte da engrenagem que produz machismo, racismo, elitismo, capacitismo) permite agir de forma muito mais complexa e potente. Enquanto o roteiro do aperte os cintos o piloto sumiu vai dando a tônica da vida pública, aqui no andar de baixo a gente samba, transa e resiste. Tamo aí segurando as mãos enquanto agimos e tocamos o barco, como sempre fizemos. Com glitter, com tudo.

“Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (entenda aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.”