Coostentação

A minha pessoa é tão minha pessoa que escreveu um post de presente de aniversário:

COOSTENTAÇÃO: A INVASÃO

Se você chegou aqui achando que ia ler um post belíssimo da Máira com reflexões poéticas & irônicas, volte duas casas.

Hoje é aniversário (na real, um doS aniversárioS) desse ser de quem eu sou “a pessoa” e escolhi escrever sobre uma prática do nosso cotidiano para homenagear MÁIRA-VILHOSA (novo codinome dessa mulher que é uma deusa, uma louca, uma feiticeira – ela é DEMAIS!).

Inclusive, a concepção do termo MÁIRA-VILHOSA já é um dos exemplos do assunto desse post, fica a dica.


O tema de hoje é a arte de COOSTENTAR “azamigue”.

1. A GALÁXIA: COOSTENTAÇÃO DAS “MÁIRAVILHOSIDADES” (pois blog da máiravilhosa, que é maravilhosa)
Antes mesmo da fundação do Clube das Desquitadas, uma prática recorrente na nossa relação é a coostentação.

Somando todos os nossos problemas e lapsos de autoestima – que oscila entre baixíssima e quase alta – conseguimos achar um ponto de equilíbrio no ato de coostentar uma à outra em todo e qualquer momento.


É aquela coisa: um dia a gente se acha lynda, poderosa e invencível, no outro acreditamos que a merda nunca vai parar de subir. Às vezes, inclusive, é a gente que infla a merda toda e se afoga.

Sim, repetimos conteúdos por motivo de: estar só a Glorinha é uma constante na nossa vida. Tá vendo essa merda? Ela só sobe.


Para qualquer uma dessas situações a coostentação tem seu papel. Nos (vários e incontáveis) dias que você tá na merda, esse alguém joga na sua cara toda sua maravilhosidade.

Isso pode ser feito evidenciando todas as suas conquistas, as facetas mais incríveis da sua personalidade, enaltecendo o tamanho da sua raba ou explicando pra você que sim, você é gostosa, e deveria colocar os peitos pra jogo.


Assim, quando “azamigues” não estão num dia bom, você reafirma toda a potência da pessoa, aplaude, grita e joga glitter. Lembra a pessoa de que ela é UMA GALÁXIA.


Muito simples essa primeira etapa. Pensa comigo: a base de qualquer relacionamento, na minha humilde opinião, é a soma. Você admite na sua vida pessoas que acrescentam alguma coisa, que potencializam ou movem algo em você.

2. A MERDA: COOSTENTAÇÃO DAS TREVAS
No entanto, uma parte interessantíssima da coostentação consiste em ostentar a merda também. Porque, porra, haja bosta – 2020 tá aí pra jogar isso constantemente na nossa cara.


Então nade no mar de bosta da sua pessoa. Cante all by myself com ela no karaokê. Sofra junto, porque tem dias que a gente não quer ouvir que somos maravilhosas, a gente só quer se afogar na merda tomando cachaça e cantando Geni.

Recém separadas, alccolizadas, cantando All by myself. Esse é o fundo do poço.

Enaltecer é incrível, mas se afundar no poço alheio também é necessário. Porque evidenciar as merdas faz parte. Não é só lacração.


Você vê a merda subindo, avisa e, principalmente, ACEITA que a pessoa QUER SE AFUNDAR NA MERDA. Choices né “beninas”!
Essa é a parte mais complexa e super necessária. Aceite as escolhas da sua pessoa.

Tá valendo ficar puta (com razão e com força), mas uma puta conformada. Acolha os argumentos furados e as ideias imbecis da sua pessoa. Não precisa concordar, só aceita que dói menos. Coostente os pequenos momentos de glória daquela pira errada da sua pessoa.


E isso vai desde a bota feia, o crush errado, a festa bosta que você vai pra dar um apoio moral, até a ideia imbecil de 50 dias de comemorações de aniversário. Socorro, só vai.


O negócio é estar ali pra quando “os boletos chegarem”. Tá liberado jogar na cara, mas entenda que sua função – e compromisso – é dividir os boletos, apesar de ter avisado que a conta ia chegar. Isso é imprescindível.


Resumindo, coostente cada escolha da sua pessoa, os dias de luta e os dias de glória – mesmo que as glórias sejam uma ilusão, uma insanidade temporária.


Fica aqui o meu desejo de que a merda dê um tempo, a galáxia brilhe sempre e que a gente continue enaltecendo cada um dos nossos incontáveis fracassos. Porque é LYNDA a forma que compartilhamos e vivemos nossas trevas.
E não, eu ainda não vi Grey’s Anatomy. Sorry.

Te amo, Ana.

PS: eu ia fazer um POEMA de aniversário pra você, mas preguiZzzZZzZzZ

Ps2: Regras do rolê (ou leis absolutas de relacionamento com a Máira):

– Não vamos à feira comer pastel e caldo de cana

– Não falamos eu te amo

– Não declamamos poesia

Bônus: não fazemos amor, trepamos.

Máscara

Segundo os manuais de aviação, se estiver em companhia de uma criança, em caso de despressurização, primeiro coloque a máscara em você e depois em quem estiver te acompanhando. Ouvimos essa recomendação em cada voo, fazemos paródia em filmes e não percebemos que há uma máxima importante: se você não puder respirar, não poderá cuidar de quem está ao seu lado. Primeiro coloque a máscara em você. Tão difícil lembrar dessa urgência quando seu mundo começa a desmoronar. Como salvarei os meus? Como os protegerei? Levo ao médico, cuido da alimentação, fiscalizo o sono, observo, amo.. Faço os sacrifícios necessários, coloco a máscara. Neles. Tenho feito isso há tanto tempo que nem percebo mais. E quando vejo estou sufocando. Foi preciso que eu perdesse tudo, que eu começasse a cair vertiginosamente, que vivesse um apocalipse. Primeiro coloque a máscara em você. Só então comecei a respirar, pude tomar decisões com o cérebro oxigenado, nem sempre as melhores, mas há que se começar de alguma forma. Então, respirando, posso cuidar dos meus, verificar se estão respirando, ajustar suas máscaras. E ajustar a minha, encontrar outros respiros. É preciso respirar para viver. Primeiro coloque a máscara em você.

Navegar

Eu sou uma pessoa da terra, você dirá que é o signo, eu direi que é a dureza da vida. Porque houve um tempo em que quase, quase. Cheguei tão perto. Hoje vejo minha amiga Lena Muniz produzir o seu Manifesto Água Viva* enquanto olha para o Tejo e penso que nessa outra vida, outro século, lá quando quase, naveguei, vi o Tejo, flanei, voei, amei, chorei. We will always have Paris. Quase.

Não havia fronteiras suficientes para me segurar e o saudosismo de hoje nasce dessa desertificação da vida. A boca seca de um real que se esfacela. Então eu olho para os dias melhores que já vieram e penso que posso criar um quase novo, porque eu fui aos bloquinhos de carnaval.

Depois de um tempo eu comecei a navegar em bits e bites, era tudo mato, já contei que trabalhei no instituto de tecnologia? Não sei como nem por que. Mas sei que conheci tanto e naveguei tanto que me tornei uma pessoa melhor. Bem melhor, muito mais dura, mas essa é outra história que nada tem a ver com minhas navegações. Usávamos navegadores que nos conduziam a lugares desconhecidos, a pessoas desconhecidas. E íamos (nos) conhecendo.

Antes da ditadura do algoritmo até no rostolivro podíamos chegar a mares nunca dantes navegados. Hoje virou tudo um grande quintal, às vezes um mato novo, uma erva daninha diferente, mas nada disso faz o menor sentido porque hoje navegamos num mar de ódio, uma bile fétida que nos corrói. Mesmo para quem está acostumada com águas turbulentas é demais.

Então eu penso nessa outra vida, há várias, mas essa é uma das minhas favoritas. Flanando em Paris, passando o verão no campo, vivendo um amor safado com aquele homem lindo que gosta de Joy Division e fala francês no meu ouvido. Tomaríamos café preto conversando na cama sobre folhetins, cantaria Chico porque sou dessas mulheres que só dizem sim, em português. E nossos corpos se entenderiam perfeitamente. Haveria toda aquela arte, toda aquela história, um tanto de poesia e uns carros para queimar, que é a melhor parte dessa outra vida, ser tudo possível.

Aqui, onde o possível mora numa caixa de fósforo, navego nesses mares do que foi e do que poderia ter sido, bem como história e literatura. Navego em letras e sons, cantarolo chorando, choro escrevendo. Quando consigo escrever.

Já contei que a analista está de férias?

The Flâneuse Herself – Writing in the Margins
Flâneuse

Lena Muniz: Artista visual, pesquisadora, ilustradora e ceramista vivendo em Lisboa.

https://www.instagram.com/lenamuniz1/

Romaria

Eu passo muito tempo nas redes sociais, a desculpa há anos é a minha pesquisa, mas o motivo é que preciso preencher o vazio e sobrepor algo às vozes que gritam aqui dentro. Em um cenário de pandemia, isolamento e completo caos, tornou-se uma estratégia de sobrevivência.

Todos os dias muitas tragédias, pequenas e grandes, mas há algo do cotidiano das pessoas que sigo que sempre me alenta. Leio textos maravilhosos em blogs (sim, boomer), poesia postada em montagens fotográficas e ouço lives de quem está produzindo um som que salva.

E me encanto com tantas coisas, as minhas próprias pequenas aventuras domésticas, a arte que chega até mim, e as pequenas coisas. Essas são tão importantes quanto. Provavelmente não fazem sentido para você, mas no meu momento atual são o que permite que eu mantenha um fio que me liga à realidade.

Percebi quando assisti pela décima vez o trecho da live do Porchat com o Boulos, rindo sem parar. O inesperado, a naturalidade dos dois, nada indicando uma condenação daquela nudez e, obviamente, o fato de que seria algo que eu mesma poderia ter feito. O ordinário do acaso num tempo de vigilância e suspensão do real. Uma delícia.

Também quando apareceu a entrevista do Renato Teixeira explicando a história da música Romaria. A primeira música que aprendi a cantar, na escola, lembro da sala das aulas de música, da graça com cai-pira-pira-pira-pora, e o verso “o meu pai foi peão, minha mãe solidão” que até hoje acho um dos mais lindos da música brasileira. E vi ali todo o imaginário da minha infância, Sérgio Reis e o menino da porteira, a rádio AM, a fè cristã, a música caipira, Elis. Um Brasil que desaparece.

E hoje, com o vídeo do Supla em Cubatão nos TTs. A memória de passar de carro pela cidade símbolo da poluição terceiro mundista, que virou referência ecológica. A garota de Berlin, a Japa Girl, a Marta na TV preto e branco falando sobre sexo no TV Mulher, o Suplicy no show do Mano Brown. Eu em Volta Redonda me sentindo em Blade Runner. E o Supla que, vindo de uma família quatrocentona, poderia ser um completo idiota mas é esse cara gente boa aí.

Guardo todos esses frames, os monto e desmonto, aos poucos, dou um sentido só meu. Sobrevivo. Não precisa fazer sentido, só precisa ser.

Quarentena. Dias demais de isolamento.

I can save myself

Desde que comecei a militar na Marcha tenho recebido inúmeros relatos de agressão de amigas e conhecidas. Mulheres que confiaram em mim para contar sobre a violência que viveram na mão de seus companheiros (ex ou atuais). Costumamos dizer que toda a mulher tem uma história de horror para contar e não faltaram hashtags para expor situações de abuso. A última, #exposed, rolou esses dias no Twitter e trouxe uma lista de professores, colegas de classe, da igreja, vizinhos, parentes e amigos das famílias.
Quando paramos para prestar atenção, a cada nova lista, muitos nomes conhecidos. Galera do rolê, caras bacanas que circulam com a gente nos mesmos espaços. Há algum tempo a Clara Averbuck falou sobre o Serasa de Homem e achei a iniciativa fantástica para identificarmos potenciais abusadores. É claro que tem muito cara que é babaca, muita relação que não dá certo, mas que não há violência envolvida. Não é disso que eu estou falando. É do cara ser conhecido como mulherengo (também sou hahaha), embuste, ou sei lá, mas se mostrar um stalker psicopata, como já aconteceu comigo.
Daí comecei a perceber que pra cada história de horror que uma mina tem pra contar, tem um brother envolvido. O nome desses caras desaparece tão rápido quanto surge uma legião de defensores dos pobres caras perseguidos por essas amazonas feministas anti-omi.
Percebam como o discurso da destruição de reputações é acionado a cada nova denúncia e os caras continuam aí, circulando bem de boas, enquanto as mulheres têm suas vidas destruídas, com sequelas físicas e emocionais que muitas vezes não são superadas nunca.
Estamos falando disso há muito tempo e olha que eu sou uma das que acha que os caras têm que ser incluídos no debate, porque são eles o sujeito da agressão e isso não vai mudar sem que eles mudem. Daí fica o meu questionamento: você, querido amigo, já olhou no espelho e viu seu passado te mostrando que você já foi um abusador? Já olhou pros parças que colam em todas com você e viu como eles são violadores? Já pensou em cortar essas pessoas do seu convívio e parar de defender agressor/estuprador?
Porque, meus amigos, a lista é grande e não para de entrar gente. Das artes, da literatura, da universidade, da espiritualidade, , dos bares, da cena, de todas as cenas.
Quando a gente fala de todos os cuidados que precisamos tomar, de não andar sozinha na rua, mandar recado avisando que tá saindo/chegando, ter contato de sos no celular e mais um monte de medidas de segurança que precisamos tomar o tempo todo, quando a gente fala de violência, parece que é sempre de um desconhecido que estamos falando.
Não, não é. É de você e do seu amigo que você defende e protege.
Nós já sabemos disso, e continuamos sendo nós por nós.
Sabemos que ninguém irá nos salvar, mas estamos juntas. E somos muitas.

https://monab1.wordpress.com/2014/07/15/thanks-but-ill-save-myself/amp/

3 meses

Parei de contar os dias na segunda semana, mas sei que no dia 14 dancei pela última vez numa pista, no dia 15 recebi uma notícia dolorosa com a qual tenho que lidar todos os dias e no dia 16 comecei o teletrabalho, nome bonito, parece algo do passado. Tentei fazer um diário, mas na segunda semana desisti, percebendo que não daria conta de narrar em distanciamento o que estava por vir.

Passei pela pulsão de morte, tão presente em toda a minha vida, pela pulsão de vida, primeira vez em que realmente senti vontade de viver, e pela leve indiferença, porque o isolamento em uma pandemia mundial pode ser devastador para quem está em constante busca por algo que dê sentido à sua própria carne.

Aprendi a olhar para o que realmente importa, que é a saúde física e mental dos meus, e a deixar de lado o que não me cabe. O vazio é imenso, porque é tanta coisa que não cabe, não há mais lugar para o que não constrói, fica apenas um espaço, ali, existindo. A vida em suspensão, tudo acontecendo lá fora e aqui dentro um relógio que parou, olhando aquele ponteiro estático, dia após dia.

Fiz inúmeras listas e planejamentos, todos devidamente empilhados num cantinho, tanto por realizar, nada que faça qualquer diferença na urgência do sobreviver. Faria, se conseguisse mover as engrenagens para longe do moinho. Mas não, a roda se movimenta em meio a números, nomes, projeções e o panorama é sempre o pior, porque “aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína.” Há mais de 500 anos.

O corpo padece e se o pulso ainda pulsa é por teimosia mesmo, porque já me desfaço em um definhar de tristeza pela falência da humanidade, eu que nem gosto de gente, mas queria mesmo gostar, porque as que eu gosto são tão especiais. Mas divago, queria um corpo forte para lutar o combate que virá e tenho apenas cabelos ralos, músculos flácidos e dentes que rangem. Coragem, amor, coragem.

Nos dias de semana ensino conteúdos que não fazem o menor sentido quando o poder foi entregue a um facínora, dou risada na minha própria incapacidade de encontrar respostas, onde está o grande plano que iria nos salvar? Aos sábados danço embrulhada nas cobertas e converso sobre um coração partido com desconhecidos.

Não há mais normal, desconfio que não haverá, sinto saudades de um tempo que nem era bom, mas havia um futuro. Por teimosia, danço no fim do mundo. Não espero que me entendam. Apenas agradeço, Clarice, porque ainda é tempo de morangos.

Sabbatical

Depois que me separei emendei um affair após o outro, numa sucessão de fracassos amorosos digna de uma boa comédia pastelão. Depois de (mais) um fora e um surto, decidi entrar em um período sabático para desintoxicar e abrir espaço para algo novo, mais ou menos na metade do ano passado. Foi a noção de que eu não ficava sozinha há uns 20 anos, desde a gravidez do Ian, que me acendeu o alerta. Talvez as trapalhadas afetivas em que estava me metendo sucessivamente fossem um sinal de que estava na hora de parar.

Claro que esse insight foi resultado de um trabalho terapêutico intenso, no qual pude identificar essa minha necessidade patológica de estar envolvida afetivamente com alguém. E também o fato de finalmente começar a bancar quem eu sou, sem pedir desculpas por isso.

Veja você, eu me tornei – de alguma forma – uma pessoa admirada pelos outros. Toda essa minha intensidade irritadiça, essa opinião formada sobre tudo a la Raul, esse mini furacão que incomoda e aciona afetos conflitantes fez com que as pessoas me achassem alguém muito interessante.

O problema é que de perto não é tão atraente assim. Cansa, desestabiliza masculinidades e feminilidades e exige mobilização constante de uma série de sentimentos com os quais as pessoas não querem lidar. “Seje menas”, o mundo me diz todos os dias. Como esse não é o meu caminho, sigo de outra forma. E esse não é um privilégio meu. Ainda hoje conversei com uma mulher maravilhosa – sim, um mulherão da porra – sobre o seu cansaço e solidão de ser too much.

Enfim, passei os primeiros meses aprendendo a finalmente estar só e a aproveitar essa solidão. Nunca tive problema em ficar sozinha, mas há algo que o flerte mobiliza que me mantinha – e mantém, ainda estamos trabalhando nisso – em eterno estado de alerta. Continuei saindo, bebendo, dançando e até recebendo pedidos de beijo*, educadamente rejeitados.

Aí chegou o fim do ano, as tão sonhadas férias, ano novo vida nova, e toda a comemoração de deixar 2019 para trás (sim, nunca mais vamos reclamar de um ano). Pensei que já estava de bom tamanho o resguardo, que já estava bem. Ledo engano, a recaída afetiva é como qualquer abuso de substância: zera toda a contagem.

Então retomei o sabático, empenhada em não me relacionar afetiva/sexualmente de novo durante um longo, longo tempo. Mas veio a pandemia, o isolamento e todos os sentimentos bizarros, apocalípticos, que estão deixando todo mundo bem descompensado. Num primeiro momento, com a impressão de que não duraria tanto tempo, o impulso foi fazer uma lista de bons contatos para acionar assim que acabasse a quarentena.

Depois, com o passar dos dias, dos meses, dos ciclos tpm-ovulação que bagunçam muito o meio de campo, os sentimentos foram se assentando de novo e a paz – no caos – se instalou. A terapia está em dia, avançando finalmente, a urgência de nos manter a salvo faz com que todo o resto se torne secundário.

Estou acompanhando como amigas e amigos estão lidando com a solidão e com a falta de um relacionamento nesse dia dos namorados. É só mais um, mas por toda essa circunstância, parece que o peso está maior. Se esse é o seu caso, lembre-se que vai passar.

Vai passar a solidão, o coração partido, o medo e a incerteza. Está demorando mais do que previmos, mas vai passar. Precisamos canalizar todo esse afeto para o que virá depois. A reconstrução exigirá muito de nós. Mantenha-se firme, e sobreviva <3.

  • Das coisas mais legais que as pessoas estão incorporando é o ato de perguntar: Posso te beijar? Acho digno, respeitoso e muito fofo.

Clube das Desquitadas #2: Carentena

Antes de começar a ler, ligue a trilha sonora oficial dos Carenteners: Love Sounds by Dj Xamã

Quando comecei a escrever esse texto, o Clube das Desquitadas estava se encontrando nos botecos da vida, todo mundo cheio de contatinhos, alguns virando e outros não, vida que segue. Nos despedimos de 2019 com alegria, porque ano passado todo mundo morreu e achávamos que este ia ser o nosso ano, curtimos férias, pré-carnaval, carnaval, bloquinhos, bem trabalhadas no glitter e no corotinho. E aí veio o coronga vírus.

Ficar em quarentena é algo inédito para a maioria das pessoas e mobiliza muitos afetos e pensamentos conflitantes e angustiantes. Eu sei bem, pois estava grávida em 2009 e passei 30 dias em casa por causa do H1N1 (confesso que não me recuperei até hoje). Mas a pandemia atual obrigou geral ao confinamento e está mudando a forma como percebemos o mundo e como nos relacionamos com ele.

De repente nos deparamos com carência, solidão e isolamento não voluntário e, confinadas, temos que lidar com a impossibilidade de que algo concreto aconteça. Então, vivendo como se não houvesse amanhã, nos jogamos nas redes em busca de algo que faça sentido, seja companhia, apoio, amizade ou um affair quarentener.

Independente de qual seja a sua intenção, é importante lembrar que há diferentes formas de estar junto (ou separado, nesse caso), afetiva e/ou sexualmente, e é importante estar atenta (a si e à outra pessoa) para não se meter numa furada ou não bancar o embuste. Há algumas etapas que geralmente estão presentes nas relações e é bom estar atenta aos sinais.

1. Filtro #EleNão #EleNunca

Não é necessariamente uma fase, mas antes de se envolver com alguém é interessante saber o que se quer e, principalmente, com quem se quer. Há uma grande possibilidade de resolver sair pegando geral e estabelecer algum tipo de filtro pode ser uma boa pra não se jogar naquelas ciladas que todo mundo conhece bem.

Podem ser critérios bem básicos (eu particularmente considero obrigatórios), tipo ser maior de idade capaz de ter uma relação consensual e não ser fascista. Podem ser também critérios mais específicos, como ter o mesmo gosto musical, torcer pro mesmo time, gostar de gatos ou não usar óculos espelhados.

O importante é ativar os filtros e não deixar a carência falar mais alto, pois sabemos bem que “a carência é a mãe da roubada.” (AVERBUCK, Clara, 2018).

2. Contatinhes #chegajunto #vemdezap

Uma sábia alma já disse que qualquer contato é um contatinho em potencial. A gente nunca sabe de onde pode surgir aquele certo alguém que vai abalar as estruturas ou acender a chama da paixão. Pode ser alguém que sempre esteve ali, mas você não percebeu, ou alguém que de repente ficou disponível também. Pode ser uma pessoa que você acabou de conhecer no Tinder ou que você acompanha nas redes sociais. Você não tem como saber se aquela curtida significa algo mais, então fique atenta.

3. Crushs

Segundo um importante e sério debate no Twitter, crush é alguém de quem você está a fim. Nem sempre é um sentimento correspondido e descobrir se é recíproco ou não se torna um processo investigativo digno de Sherlock Holmes. Você aciona as redes sociais, amigues em comum e começa a comentar todas as postagens da criatura. Ou faz a egípcia e espera pacientemente que a pessoa note a sua existência e o seu interesse.

Pode ser que a pessoa nem saiba quem você é, não lembre que vocês já conversaram, no rolê e nas redes, diversas vezes e nem tenha noção de que você tem memória de elefante e guardou todos os fatos importantes da vida dessa pobre alma stalkeada.

Pode ser que a pessoa não esteja interessada, goste de outro alguém ou apenas não goste DE VOCÊ. Saber reconhecer os sinais e respeitá-los é importante. Assédio e stalking só é engraçadinho em comédias românticas da sessão da tarde. Na via real é abusivo e invasivo. Não seja essa pessoa.

4. Flerte #NãoSeiFlertar

A arte do flerte é dominada por poucos e, é claro, não por essa que vos escreve. Se você veio até aqui buscando dicas de como ser bem sucedida no flerte está perdendo seu tempo. A única coisa que eu faço é compartilhar com azamigue experiências frustradas, foras, ghostings, orbitings e todos os nomes bonitos que dão agora para o bom e velho pé na bunda. Aguarde o post sobre foras.

PROCURA-SE UM TERMO MELHOR E MAIS MODERNO QUE FLERTE E PAQUERA, PELAMOR

Eu já tive meus bons momentos, colhi alguns frutos, mas também já passei por vários constrangimentos. Toca o barco, é o preço da ousadia. O principal problema é não ter muita noção de como se comportar – ninguém nunca sabe se é pra chegar chegando ou fazer a misteriosa – e também não saber ler os tais sinais.

Há todo um mise-en-scène que precisa ser interpretado, muito preso aos papéis sociais. Quem toma a iniciativa, como responde, até onde pode avançar. Como falar de afeto, desejo, vontade ou até de desinteresse sem parecer exagerada ou insensível demais. Equilíbrio, Daniel San, aquele que não temos.

Na verdade a gente só sabe quando dá certo. Chega a ser um espanto, muitas vezes. Mas um flerte bem sucedido é apenas o começo de uma longa jornada. Como as fases de um videogame, o nível de dificuldade aumenta a cada nova etapa.

5. É tudo somente sexo e amizade #sdds #nemguindaste

O flerte virou, e agora? Decidir se irá partir para a próxima fase depende muito de como você está se sentindo no momento e do quanto a pessoa em questão pode ser confiável ou não. Há uma série de questões envolvidas, como possibilidade de contágio, mixed feelings por causa do isolamento prolongado e o já conhecido “tapar o buraco”. Um sexo ruim a essas horas pode piorar sua saúde mental e aumentar o vazio.

Mas, porém, contudo você pode fazer parte das pessoas escolhidas por Deus que possuem um – BOM – contatinho sexual. Diria para você parar de ler esse texto agora e ir transar, porque olha, o apocalipse chegou, tá todo mundo desgraçado da cabeça e vai demorar uma eternidade para termos algo parecido com possibilidade de contato físico novamente.

ESSE PRINT É BASEADO EM UMA CONVERSA REAL. NÃO MINHA, ÓBVIO.

Mas aí depende da disponibilidade (interesse e vontade) desse alecrim dourado. E, obviamente, do que está em jogo. A pessoa está isolada, alguém é grupo de risco, há possibilidade de contágio? Não é porque estamos no apocalipse que você precisa se jogar na fogueira. E ainda colocar outras pessoas em risco.

6. Responsabilidade afetiva

Esse é um assunto sério que não costumamos falar muito. Responsabilidade afetiva não é sobre a outra pessoa. É sobre você. Estamos afogadas num mar de “toxidade” que retira não apenas a nossa agência, mas a nossa parte nesse rolê afetivo/sexual. Ninguém tá pronto, bem resolvido, em dia com a terapia e já superou ex ficante-crush-amor.

Colocamos muita expectativa na outra pessoa e nos esquecemos que temos nossa própria bagagem, além de não sabermos o que estamos fazendo na maior parte do tempo. Vá com calma, deixe bem claro o que quer, o que não quer e – também – se não tem ideia de nada na sua vida. Converse.

Não tenha medo de expressar seus sentimentos, não sei de onde veio essa premissa de que precisa ser tudo escondido. Sinceridade e escuta fazem milagres, até para saber se a pessoa não é realmente uma furada e é melhor largar mão. Só não precisa despejar todo o seu sofrimento, ainda mais esperando algum tipo de apoio ou resolução.

Você também pode pôr na balança todas essas coisas e decidir ficar só. É difícil, quando temos toda uma pressão social que praticamente nos obriga a estarmos com alguém, se não quisermos entrar no time “all by myself”. Viver só pode ser uma experiência interessante, ainda mais em isolamento, quando você precisa ser a sua melhor companhia. Experimente gostar de você.

E o mais importante:

Tinder sem Fronteiras

Eu já havia comentado que não tenho nenhum talento para sites de relacionamento. Não sei flertar nem ao vivo quanto mais a distância. Primeiro que entendo que deu match já é “oi, vamo” e daí é só trocar algumas informações básicas e partir pro date. Aparentemente não é assim que funciona, tem uma @ com quem tô flertando tem semanas já e nada acotece feijoada. Sim, eu sei.

Veja, não há nenhuma crítica ou moralismo aqui. Acho um modo válido de conhecer pessoas e arrumar uns cruzos, quiçá um cobertor de orelha ou até mesmo um namoro, para quem está procurando o par ideal* (essa sim considerada uma iniciativa séria e bem sucedida) e não um lugar de pegação – credo, que delícia – para gente que não consegue arrumar ninguém como, aparentemente, o Tinder é visto.

Desde a separação já instalei e desinstalei um zilhão de vezes, porque a preguiça e o fracasso constantes me impedem de permanecer no app por muito tempo. Além do que sou uma mulher com filhos, que mora em Curitiba e é professora universitária. Leia cada característica como motivo para desfazer o match, sem falar no óbvio que é a idade – já um importante filtro.

Mas eis que a empresa resolve ser solidária com os corações (e corpos, vamos combinar) confinados e abriu a geolocalização para o mundo todo. Opa, esse é o meu momento, pensei, e até coloquei mais uma foto no perfil (agora tenho DUAS) para ver se adiantava um pouco as coisas pro meu lado.

Dei uma viajada por todos os continentes, começando pelo sul global, e a primeira conclusão óbvia (já falamos disso lá no Clube das Desquitadas) é que não existe homem pra mim no Brasil (nem mulher, mas essa é outra história). Claro que há a minha parcela de culpa no processo todo, pois zero paciência, mas a limitação das pessoas na arte da conversação é algo digno de nota.

Mesmo numa situação em que não há perspectiva de um encontro, pois pandemia mundial, não há como rolar uma amizade (colorida, com benefícios que seja). O que nos conduz a outro ponto bem importante:

Omi cishet é que nem mãe, só muda o endereço. Um festival de oi, linda, linda linda em diferentes idiomas e formatos. Depois de um tempo entendi a dinâmica dos boys porteiros, dos sugar babys, dos caras que só queriam nudes**, dos que se arreganhavam inteiros quando liam BRAZIL.

Fiquei algumas semanas nessa, foi interessante, muitas pessoas muito lindas mesmo, dá até gosto de ficar olhando, vários matches, me senti bem vitoriosa. Dei uma circulada aqui no Brasil também, Belo Horizonte só tem cristão, São Paulo é muito sucesso, fiquei por ali mesmo. Arrumei inclusive alguns contatinhos aqui na república, o que me leva ao último ponto: os caras querem alguém que fure quarentena. Não importa se a conversa flui, se vocês se divertem, se têm várias coisas em comum. A conversa vai morrer assim que o cara perceber que você não vai se pôr em risco por uma transa meia boca com um desconhecido.

Enfim, quando você não tem expetativa nenhuma situações interessantes podem acontecer. Conheci pessoas muito legais e tive a oportunidade de mandar meu vergonhoso inglês macarrônico sem constrangimento algum. Tenho amigues que arrasam em qualquer aplicativo, obviamente não é o meu caso. Tenho crushes de estimação, em alguns casos já rolou e não rola mais, em outros não vai rolar nunca, mas tamos aí.

Flerte pode ser um esporte muito legal, mesmo sendo péssima nele.

*Par Ideal é uma agência de encontros bem tradicional daqui de Curitiba. Pra quer quer um relacionamento sério.

** Não trabalhamos com nudes, apesar de não ter nada contra, inclusive gosto muito, pode mandar. A história todo mundo já conhece: tive um namorado, mandei nudes, tomei um fora. Fim.

Bônus track: você se chama Ana e recebe áudios:

Comidas feias

Minha mãe nunca foi uma boa cozinheira, daquelas de mão cheia, sabe? Aprendeu a cozinhar depois de casada, porque sempre teve quem fizesse a comida na casa da minha avó. Depois de um tempo, já sabia cozinhar e fazia alguns pratos muito gostosos, principalmente os favoritos do meu pai. Aprendeu culinária maranhense e nos ensinou o básico.

Eu sempre gostei de cozinhar e aos 15 anos já conseguia fazer um almoço completo e alguns pratos mais sofisticados que eu via na televisão. Exercitava meus dotes culinários nos almoços de família e, principalmente, para os namorados. Muitas receitas especiais para almoço/janta e também lanche/sobremesa. Salgados e doces, eram comidas lindas e gostosas.

Até casar, ter dois filhos e ter que cozinhar todos os dias. E separar e decidir que nunca mais ia cozinhar pra macho. Aí os primores gastronômicos foram substituídos por arroz/feijão/mistura. Que é a base da nossa alimentação até hoje, mesmo sendo vegetariana há anos. Para a comida do dia-a-dia não há tempo para firulas. Há muita invenção no manejo de 4 a 6 panelas e mais alguma coisa no forno. Queima, fica esquisito, cru, passa do ponto. Fica feio.

Com o tempo fui desaprendendo de fazer comidas bonitas porque o mais importante era alimentar e não perder a hora. As comidas são gostosas e nutritivas, saudáveis, feitas com bons ingredientes. Alimento. Mas são comidas feias.

Os doces, então, desaprendi muito. Suja tudo, acaba rápido, não tenho paciência. Mal como, porque prefiro mil vezes comida salgada. Mas os meninos adoram, lógico. Então faço. Queima, fica esquisito, cru, passa do ponto. Fica feio.

Ás vezes acerto e aí parece que o universo se encaixa e tudo passa a fazer sentido. Sim, amor é trabalho não pago, maternidade e alimentação têm uma carga imensa psicanalítica, há arquétipo, construção social, carga emocional, trabalho afetivo e compulsoriedade no ato de cozinhar para os filhos.

Mas passei por anos terríveis de alienação parental com o Tom e esse é um caminho possível de aproximação. Na reconstrução do nosso relacionamento, a comida tem ocupado um lugar importante. Ele se esforça para gostar de novos sabores, eu me esforço para entender que precisa ser gostoso.

E assim, seguimos, isolados e confinados, cozinhando e comendo. E esses dias vivemos um momento mágico. Fizemos um bolo perfeito. Bolo de pacote, baratinho, de churros. Ele colocou todos os ingredientes no liquidificador, untei a forma nova enquanto a massa batia, colocamos no forno e cuidamos do tempo.

Parecia bolo dos programas de culinária que assistimos juntos (sim, a comida é central em tudo isso) e que eu sempre comento: meus bolos nunca ficam assim. Esse ficou. Lisinho, úmido, macio, nem coloquei cobertura. Foi uma festa! Tirei foto na hora, mostrei para os dois, servi os pedaços quentes ainda e estava maravilhoso. O bolo mais gostoso/lindo que fiz na vida.

O Tom narrou a peripécia para os amigos do jogo online: MINHA MÃE ACABOU DE FAZER UM BOLO DE CHURROS PERFEITO! Algum tempo depois a Andrea, mãe de um dos amigos, manda um recado:

Eu gargalhei alto! Amiga, comprei a massa pronta no atacadista, mas comprei só uma porque era tão barata que achei que fosse ser horrível. Terei que voltar lá só pra comprar um estoque do bolo.

E assim surgiu o melhor bolo do mundo. E, sim, eu sei que parte da feiura das minhas comidas vem do fato de que sou uma péssima fotógrafa com uma péssima câmera de celular. Mas isso faz parte da graça da coisa toda.