Carta 5

Meu Amor,

Olho para as nuvens e penso que talvez, só um pouquinho, eu possa sonhar em voar de novo enquanto estremeço de alegria e medo. Eu sou assim, árida, esquecida há tanto tempo de que é possível ousar querer. Obrigada por me receber, na sua casa e em seu coração, oferecendo o seu amor em uma xícara de café quente recém-passado. Pouco importa o barulho lá fora, aqui dentro é tudo paz e riso e desejo. Ser feliz é assim, eu acho, quando todos os pedaços se encaixam no caos. Eu nos percebo tateando em um leve desconforto de temor que se dissolve numa praça cheia de aplausos a um palhaço corajoso. Quanta surpresa. São tantos pequenos acertos, tão sutis, que os dias e meses se passam enquanto me assombro com a vastidão desse afeto.

“Não trabalhamos com amor”, você sabe. Mas eu amo você, mesmo de forma tão assustada. Vivemos dias difíceis, mas nossa força nos trouxe até aqui. Afinal, somos sobreviventes. E agora seguimos juntos, orgulhosos, de mãos dadas. Você não percebe, mas eu choro silenciosamente de felicidade ao seu lado. E espero a sua vinda.

Beijo,

M.

Amar em tempos de cólera*

Haja amor.

É preciso cultivar afetos. Dissidentes, desobedientes, potentes. Manter a cabeça erguida e a coluna ereta, o peito aberto para enfrentar o que vem pela frente. Há uma história forte que nos precedeu e que nos forjou, de um jeito ou de outro, para o que enfrentaremos a partir de agora.

Se há algo que aprendemos com as pessoas que lutaram antes de nós, é que precisamos manter nossos afetos livres e utópicos. Eles têm medo. Dos nossos corpos desejantes, da nossa audácia desavergonhada.

Têm medo da ousadia que luta, que dança, que transa, que ajuda, que abraça e protege. Do glitter, do glamour, da festa, da solidariedade, do riso. De quem sobrevive à revelia da própria sorte.

Quanto mais livres somos, mais incomodamos quem vive do recalque e da repressão do desejo. O ódio se sustenta nesse medo e vai produzindo uma moralidade tosca que procura, a partir do controle de corpos, corações e mentes, dominar e eliminar o outro. Esse outro subalternizado que sempre fomos.

A estrutura patriarcal, racista, homotransfóbica, colonial, nunca deixou de existir. Nós temos avançado tão pouco, mas mesmo assim ameaçamos a ordem social criada pra nos subjugar. Mas não nos entregamos. E somos uma multidão.

É tempo de nos protegermos, de nos unirmos e nos acolhermos. Fugir da prisão desse medo que nos controla e submete. E nos mantermos vivas. Quando tudo mais desaba ao nosso redor, são nossos afetos que nos mantém de pé.

Que o amor seja nossa maior arma e que estejamos próximas. Nossas redes já foram costuradas, só precisamos deixá-las agir. A gente se encontra no inbox, no bar, no café, na rua.

Continuamos juntas. Sempre.

 

*Licença poética. Obrigada, Gabo, pelo melhor título ever.

Carta 4

Meu Amor,

O cinza dos dias permanece em chuva e solidão. Enquanto o mundo se despedaça e o cansaço se instala sigo como autômata realizando tarefas banais. Cada dia é uma pequena vitória compartilhada contigo. Quero dizer o quanto te amo, mas minha inaptidão com as palavras produz apenas silêncio. Escuto tua voz e é como se estivesse deitada ao teu lado, tua risada preenchendo meu quarto e meu coração de pedra. Nem precisei dizer do medo que sinto, porque para ti sou transparente como água cristalina. Eu carrego esse fardo que é um baú de memórias e dores repleto do meu vazio. E nessa aridez floresço em ti. Quero cantar esse amor em versos ridículos como as cartas de Pessoa enquanto te olho nos olhos. E aguardo aquele dia em que tudo parecerá possível, fácil e leve novamente. Agora apenas coleciono os instantes que divido contigo. E te espero.

Beijo,

M.

Não existe o pós-colonial*

As caravelas continuam chegando carregadas de quinquilharias neoliberais que nos empurram goela abaixo enquanto observamos, em desespero, as chamas que consomem a falácia da civilização. Nós, que somos apenas mais uma engrenagem na máquina de moer gente, choramos sobre as cinzas de uma história que nunca mais será contada. Enquanto a ferida da colônia sangra, olhamos com incredulidade o fogo do capitalismo triunfante que nos destrói e nos impede de sonhar. Eles venceram, e continuam vencendo a cada instante. O projeto de destruição segue seu curso, incólume. Mas continuamos lutando sob o cansaço de uma luta vã, perdida de antemão. O fracasso de nossa existência se empilha sobre o pó de Luiza, desaparecemos junto com as línguas indígenas e os artefatos de nossa história. Desaparece um futuro que poderia ser o nosso passado, carregamos os restos de nossa utopia tentando salvar do fogo algo que nos dê um sentido. Dos escombros nada surgirá, que fiquem ali, nos lembrando que, para eles, não somos nada.40670105_2300509476631724_8036067953243848704_n

 

*Não existe o pós-colonial- Jota Mombaça

http://www.goethe.de/ins/br/lp/prj/eps/sob/pt16117914.htm

Entremeios

Olho para a parede e vejo os quadros meio tortos, na estante os livros meio empilhados, a foto no porta-retrato meio desbotada. Lembro que sempre fui só meio feliz, mesmo jovem. Alguns momentos apenas de felicidade abundante, esfuziante, transbordante. Essa meia vida que me habita não é nova, está aqui há muito tempo. Fui sendo meio inteligente, meio bonita, meio esquisita, meio diferente durante tanto tempo, que sinto que agora ser meio velha e meio ranzinha é só uma parte do percurso.

Olho a carteira de cigarro meio vazia, o copo de whisky meio cheio, os sentimentos meio usados e penso que essa condição de transitar pelo meio da existência nunca foi um fardo. Estar em meio a mim mesma, sem nunca me definir por nada, me permitiu ser um pouco de tudo o que quis. Meio no limite, meio no vazio, muitas brechas por onde pude me esgueirar até chegar em mim. Esse peito meio cheio de um afeto meio quente, meio desejante de algo que ainda está por vir.

Em meio a. No meio de.

Imensa

“Olhei-me no espelho e vi Bilquis* sendo engolida pela rotina, pelo descaso, pela pressão. Senti caírem todos os pedaços que cortei na carne para me adaptar a um espaço tão pequeno: liberdade, audácia, talento, vontade, gozo. Tudo me foi sendo tirado lentamente, nem notei. Só me enxerguei quando saí dessa redoma apertada. Abri os olhos e percebi que já não cabia no desejo estéril, na presença muda, no abraço distante, na suave reprovação. Cresci silenciosamente e deixei que meus membros livres retomassem sua imensidão. É um tanto assustador ser enorme. Não me encaixo nos espaços, vou esbarrando em pessoas e coisas, me acostumando a ser imensa. Ser assim descomunal assusta quem me enxerga. E dói, muito tempo essa amplitude contida e represada. Olho para o lado e vejo outras mulheres se agigantando, esticando o corpo ereto. Altivas, caminhamos juntas, excessivamente espaçosas. Não há mais o que nos contenha.”

*Bilquis: Rainha de Sabá, representada no livro e na série American Gods, de Neil Gaiman.

 

 

08102017

 

 

 

 

 

Só por hoje

Não é a primeira vez que te escrevo. Há muitos e muitos dias ando em meio a palavras. Um novo hábito se sedimenta com leveza nas horas de distância. Colho versos e letras que dizem “você chegou de repente e, sem avisar, fez morada”. Há uma impossibilidade que paira no horizonte sussurrando que é preciso cautela. E um calor que aquece meu corpo a cada promessa de um novo amanhã. Porém, só existe o hoje. E é nesse imediato presente que nos movemos, cultivando um amor que se esgota em si. O contato preenche todo o vazio, como numa aquarela em que uma gota se espalha por entre as tramas da tela. Estamos completos em nosso vazio, nessa não existência de tudo o que não somos. Pois não precisamos ser nada, apenas amor.