Carta 4

Meu Amor,

O cinza dos dias permanece em chuva e solidão. Enquanto o mundo se despedaça e o cansaço se instala sigo como autômata realizando tarefas banais. Cada dia é uma pequena vitória compartilhada contigo. Quero dizer o quanto te amo, mas minha inaptidão com as palavras produz apenas silêncio. Escuto tua voz e é como se estivesse deitada ao teu lado, tua risada preenchendo meu quarto e meu coração de pedra. Nem precisei dizer do medo que sinto, porque para ti sou transparente como água cristalina. Eu carrego esse fardo que é um baú de memórias e dores repleto do meu vazio. E nessa aridez floresço em ti. Quero cantar esse amor em versos ridículos como as cartas de Pessoa enquanto te olho nos olhos. E aguardo aquele dia em que tudo parecerá possível, fácil e leve novamente. Agora apenas coleciono os instantes que divido contigo. E te espero.

Beijo,

M.

Não existe o pós-colonial*

As caravelas continuam chegando carregadas de quinquilharias neoliberais que nos empurram goela abaixo enquanto observamos, em desespero, as chamas que consomem a falácia da civilização. Nós, que somos apenas mais uma engrenagem na máquina de moer gente, choramos sobre as cinzas de uma história que nunca mais será contada. Enquanto a ferida da colônia sangra, olhamos com incredulidade o fogo do capitalismo triunfante que nos destrói e nos impede de sonhar. Eles venceram, e continuam vencendo a cada instante. O projeto de destruição segue seu curso, incólume. Mas continuamos lutando sob o cansaço de uma luta vã, perdida de antemão. O fracasso de nossa existência se empilha sobre o pó de Luiza, desaparecemos junto com as línguas indígenas e os artefatos de nossa história. Desaparece um futuro que poderia ser o nosso passado, carregamos os restos de nossa utopia tentando salvar do fogo algo que nos dê um sentido. Dos escombros nada surgirá, que fiquem ali, nos lembrando que, para eles, não somos nada.40670105_2300509476631724_8036067953243848704_n

 

*Não existe o pós-colonial- Jota Mombaça

http://www.goethe.de/ins/br/lp/prj/eps/sob/pt16117914.htm

Entremeios

Olho para a parede e vejo os quadros meio tortos, na estante os livros meio empilhados, a foto no porta-retrato meio desbotada. Lembro que sempre fui só meio feliz, mesmo jovem. Alguns momentos apenas de felicidade abundante, esfuziante, transbordante. Essa meia vida que me habita não é nova, está aqui há muito tempo. Fui sendo meio inteligente, meio bonita, meio esquisita, meio diferente durante tanto tempo, que sinto que agora ser meio velha e meio ranzinha é só uma parte do percurso.

Olho a carteira de cigarro meio vazia, o copo de whisky meio cheio, os sentimentos meio usados e penso que essa condição de transitar pelo meio da existência nunca foi um fardo. Estar em meio a mim mesma, sem nunca me definir por nada, me permitiu ser um pouco de tudo o que quis. Meio no limite, meio no vazio, muitas brechas por onde pude me esgueirar até chegar em mim. Esse peito meio cheio de um afeto meio quente, meio desejante de algo que ainda está por vir.

Em meio a. No meio de.

Imensa

“Olhei-me no espelho e vi Bilquis* sendo engolida pela rotina, pelo descaso, pela pressão. Senti caírem todos os pedaços que cortei na carne para me adaptar a um espaço tão pequeno: liberdade, audácia, talento, vontade, gozo. Tudo me foi sendo tirado lentamente, nem notei. Só me enxerguei quando saí dessa redoma apertada. Abri os olhos e percebi que já não cabia no desejo estéril, na presença muda, no abraço distante, na suave reprovação. Cresci silenciosamente e deixei que meus membros livres retomassem sua imensidão. É um tanto assustador ser enorme. Não me encaixo nos espaços, vou esbarrando em pessoas e coisas, me acostumando a ser imensa. Ser assim descomunal assusta quem me enxerga. E dói, muito tempo essa amplitude contida e represada. Olho para o lado e vejo outras mulheres se agigantando, esticando o corpo ereto. Altivas, caminhamos juntas, excessivamente espaçosas. Não há mais o que nos contenha.”

*Bilquis: Rainha de Sabá, representada no livro e na série American Gods, de Neil Gaiman.

 

 

08102017

 

 

 

 

 

Só por hoje

Não é a primeira vez que te escrevo. Há muitos e muitos dias ando em meio a palavras. Um novo hábito se sedimenta com leveza nas horas de distância. Colho versos e letras que dizem “você chegou de repente e, sem avisar, fez morada”. Há uma impossibilidade que paira no horizonte sussurrando que é preciso cautela. E um calor que aquece meu corpo a cada promessa de um novo amanhã. Porém, só existe o hoje. E é nesse imediato presente que nos movemos, cultivando um amor que se esgota em si. O contato preenche todo o vazio, como numa aquarela em que uma gota se espalha por entre as tramas da tela. Estamos completos em nosso vazio, nessa não existência de tudo o que não somos. Pois não precisamos ser nada, apenas amor.

Carta 3

Bom dia, Meu Amor,

Te escrevo para contar que minha orquídea finalmente floresceu. Tão guerreira ela, que sobreviveu a todas as intempéries possíveis, desde a mudança de casa até a total falta de cuidado. Já te contei que não sei cuidar de plantas. Na verdade, eu não sei cuidar. Mas tenho me esforçado tanto. Principalmente para cuidar de mim. E de nós. Nem sempre dá certo, é obvio. Mas esse esforço tem garantido a minha (e a nossa) sobrevivência.

Foram dias difíceis depois da sua partida, cheguei a adoecer de saudades. Mas agora estou bem, cuidando. E continuo aqui, te esperando.

Beijo,

M.

Carta 2

Meu Amor,

Acordei chorando e decidi te escrever. É tão fácil te amar e tão difícil viver esse amor. Os dias contados na espera de um futuro que nunca virá. Uma alegria vivida em quartos de hotel, em beijos mensais num colchão muito mole. Uma tristeza que se despede no aeroporto sem saber do dia de amanhã. “O nosso amor a gente inventa”, dissemos. E seguimos encontrando brechas de presença e intimidade. Nos dias bons rimos em conversas digitais, preocupados com a política e com a falta de esperança, mas repletos de afeto. Nos dias ruins nos afastamos em comiseração, animais acuados que lambem a ferida e rejeitam qualquer proximidade.

É tão fácil te amar e tão difícil viver esse amor. Não há espaço para um desejo que ultrapasse o dia de hoje. Não há lugar para a fantasia de uma vida em comum. Eu te peço desculpas pela aspereza do meu coração de pedra. Enquanto penso em tudo o que poderíamos ser, me resigno com tudo o que não somos. Mas saiba que te escrevo com amor, mesmo que você não leia as minhas palavras e não perceba meus anseios. E continuo aqui, te esperando.

Beijos,

M.