Férias

Você está lá, com os sentimentos e neuroses espalhados pelo sofá, misturados com cobertas e farelos de comida e recebe um recado da analista: “voltei de ferias mais cedo, sessão amanhã?A vontade de dizer “não” é grande, mas é preciso ir. Então, você junta um pouco das emoções que estão mais visíveis antes de ir dormir. Ao acordar recolhe mais uma ou duas memórias dolorosas, tanto por achar ainda. Não dá pra ver no edredom estampado, mas você sabe que há cacos de coração partido, nacos de fracassos não superados e alguns generosos pedaços culpa. Já está na hora de sair para o trabalho, não há como reunir as migalhas de frustação cotidiana sem se atrasar. Você toma um gole de café e dá uma sacudina no sofá. Muito cai pelos vãos – um resto de esperança, um tanto de vontade, o que sobrou do que poderia ter sido -, se espalhando pelas frestas. “Que fiquem aí”, você pensa. É o que temos pra hoje.

Maria das Dores

Nasceu de teimosa, antes do tempo, apressada que era. Quase não vingou, raquítica, aquela “coisinha”. Sua breve jornada era uma sucessão de acidentes. E dores. Começou com uma dor de Macabéa, dessas de existir, tratada com remédio, criança não devia sentir dor, mas viver pode ser uma devastação. Tomava uma aspirina infantil, rosinha e docinha, todos os dias, essa dor que não passa nunca.

Com a cabeça pesada e ocupada – acordava doendo, dormia doendo – não pensava muito na sua própria miséria. Apenas sentia. E assim, sentindo, foi achando que um amor lhe curaria as dores. Ah, coitada, mal sabia o infinito do doer, e do amar. Doente de amor. Virou uma dor de Marguerite, uma vida inteira pela frente, ninguém deveria morrer de amor, mas morre-se, viver pode ser um abismo. Amou tanto, doeu tanto. Seguiu doente, é óbvio.

Com o passar dos anos o estômago começou a arder, um vulcão em erupção movido a raiva e medo. Aquela lava de fel fervilhando dentro de si. Virou uma dor de Bandeira, a vida inteira que podia ter sido e que não foi, suores noturnos indicando que o pulso ainda pulsa. Ninguém deveria viver de ódio, mas vive-se, viver pode ser uma batalha.

Aguarda o próximo diagnóstico enquanto ouve um tango argentino.

Amanhã

eu tenho feito acordos comigo, todos devidamente quebrados. de que não vou sucumbir, nem me entregar. combinei que me salvaria, mesmo quando decidi que cortar os pulsos era uma forma de salvação.

eu tenho feito esse pacto de sobreviver todos os dias, de que vou acordar amanhã, não importa o que aconteça, mesmo quando decidi que tomar uma garrafa de whisky era também uma forma de sobrevivência.

eu tenho decidido que o apocalipse é agora, que não há mais nada a fazer a não ser seguir, mesmo quando o desespero me impede de levantar do sofá.

eu tenho feito esse combinado de que não irei desistir, pois o mundo é maior do que minha reles existência e resistir é só o que resta, mesmo quando nada mais faz sentido.

eu tenho acreditado que amanhã vai ser outro dia, mesmo quando continuo presa no ontem, porque o amanhã sempre vem.

Chico

Tem muito Chico Buarque por aqui esses dias, tem Camões e tem quem não está entendendo nada. Tem muita gente preocupada com a minha saúde, logo agora que estou finalmente cuidando. Talvez seja assim mesmo, saúde demais faz mal. Enquanto isso, recolhida, aproveito a companhia do Chico que me diz

“Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar”

Eu, que queria tanto que você ficasse, estou partindo. O descuido não aconteceu, nem a poesia, então deixo essa história sem um fim. É uma tristeza, eu sei.

Chico me faz chorar.

Uma mãe possível

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08/05/16

Eu ia passar o dia em branco, só curtindo com as crianças, mas sentei agora pra escrever e lembrei dessa foto.
É uma das poucas fotos em que estamos abraçadas de maneira natural. E é um registro de um tempo no qual a nossa convivência ainda não tinha virado uma batalha diária.
Foi bem ali, no ano de 1988, que nossa relação começou a se transformar em outra coisa.
Veja, ao contrário de todo mundo que tá postando relato hoje, eu não tive a melhor mãe do mundo. Tive uma mãe possível. E se reconheço que ela se esforçou absurdamente para ser uma boa mãe, também reconheço que foi falha e humana em todas as suas tentativas.
Ali, aos 13 anos, comecei a desenvolver meus próprios interesses e minha mãe não dava conta de quem eu estava me tornando. Ela não me conhecia, não me entendia e não sabia o que fazer com a frustração de se sentir uma péssima mãe.
Meu mundo não cabia no dela e ela achava que de alguma forma era sua culpa. Foram anos de muita briga e rejeição.
A conciliação só veio quando eu me tornei mãe e ela pôde perceber que, de alguma forma, aquele caminho torto que eu tomei me levou para um lugar que ela conhecia.
Foi na maternidade que nós nos encontramos.

PS: Resolvi escrever porque vejo todos os dias a nossa crítica aos estereótipos, à maternidade compulsória, à nossa condição de mãe. Mas acho que a gente podia avançar bastante se desconstruísse esse ideal de mulheridade e maternidade começando pelas nossas mães.

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13/05/18

Trinta anos depois e ainda estou ressignificando a relação com a minha mãe. A maternidade, esse desafio diário, me aproxima cada vez mais dela. Porque também estou sendo um mãe possível e também não dou conta, na maioria dos dias. Se ela se aproximou de mim no sucesso – quando me tornei uma ótima mãe, eu me aproximo dela no fracasso – quando assumi que sou tão “menas main” quanto.
Da mesma forma, o divórcio também me colocou de frente com situações que ela viveu e as escolhas que fez – que eu nunca entendi ou aceitei. Então, numa “dialética dos afetos”, me encontrei no mesmo lugar de medo, rejeição e falta de amor no qual ela viveu por tantos anos. Estar ali foi muito doloroso, mas pude tomar decisões diferentes e seguir um outro caminho, transformando esse “destino” e compreendendo porque minha mãe conduziu sua vida como fez.
Não foi libertador, não houve “perdão”, mas um outro olhar pra nossa relação e pro meu lugar de mãe. Também me tornei uma mãe possível.

Ps: Continuo achando que precisamos cada vez mais discutir a maternidade, porque esse discurso de perfeição – para nossa mães e para nós – é muito nocivo.

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“Mother, did it need to be so high?”

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12/05/19

*Eu não gosto das grandes datas comemorativas, não só pelo apelo comercial, mas por nos obrigar a condensar um afeto em um único dia. No dia das mães eu sempre estava brigada com a minha e precisava a cumprir aquele rito sem sentido. Sempre odiei o dia das mães.

*Mantenho as comemorações por causa do Tom, mas acho que esse será o último ano. A relação avança e ele entende melhor como funciona o mundo. Não quero que ele também seja obrigado a me amar uma vez por ano.

*O Ian ainda diz que eu sou a melhor mãe do mundo, apesar de já ter entendido o que é ser uma mãe possível. Faço questão de explicar todas as falhas, os erros, e de pedir perdão pelos muitos vacilos. A gente faz o que pode do jeito que dá. Nem sempre funciona, mas é o melhor que podemos fazer. Agora tenho um filho adulto, ainda não sei lidar.

*O Tom ainda acha que eu sou a mãe mais chata do mundo. Mas agora ele já consegue conversar e expressar em palavras o que está pensando e o que está sentindo. Ontem ele pediu desculpas, muito sentido porque viu que fez algo errado e que haveria uma consequência. Esses dias ganhei um beijo espontâneo. Às vezes ele me chama de mamãe.

*Os últimos meses foram muito difíceis. Achei que tinha esgotado a minha cota de sofrimento durante a separação, mal imaginava que ainda haveria tanta dor pra doer. Sem nem piscar virei a mãe-leoa, faça para mim mas não faça para os meus. Sentir seus filhos sob ameaça é terrível. Foi exaustivo e assustador. E solitário. De repente queria um colo de mãe, aquele que nunca tive. Sem colo, sem mãe, fiz como sempre faço: me virei do jeito que deu. A maternidade tem sido a minha maior força, mas também a minha maior fraqueza. Não me define, mas me molda.

*Meu muro continua intransponível, tão alto. Precisava ser tão alto, mãe?

Morre-se um pouco a cada dia

“Eu escrevi uma tese sobre resistência. Queria escrever sobre revolução, mas como ela não veio – e nunca vem – me obriguei a começar tudo de novo. Para falar sobre resistências que fracassam em se concretizar como sucesso, fui além da teoria. Fui investigar as pessoas que resistem. Descobri , então, que a primeira forma de resistir é existir. Ao insistir em preservar uma existência livre, divergente, dissonante e dissidente, resiste-se. A segunda forma é sobreviver, não se entregar, não desistir. Não pular da ponte, não puxar a corda, não fechar os olhos. NÃO IRÃO ME MATAR. Ainda que me matem um pouco a cada dia. A terceira forma é pelo afeto. Ao afetar-se, permite-se que fluam as potências do afeto. Nos afetamos com a dor e com ódio, mas principalmente com os encontros e amores. Resistimos juntes, sentindo e vibrando.”

*Anotação encontrada em um caderno.

Baú

Eu carrego um baú cheio de dores, fragmentos de instantes que poderiam ter sido, pedaços de amores que se foram, sonhos não ousados. Eu carrego um baú sem enxoval, apenas discos quebrados, cartas rasgadas, fotos desbotadas, fragmentos de uma utopia que nunca existiu. Eu carrego um baú pesado, repleto de versões de uma vida improvável, de memórias impossíveis, de saudades inocentes.

Eu carrego um baú vazio.