Alguma hora passa

Olho o aparelho e percebo que estou desconectada, uma sensação estranha essa de me imaginar só. Um bom momento para pensar em quando me desconectei e mais, se é possível que me encontre em algum lugar. Há décadas fugindo do vazio, tudo o que consegui foi desaparecer. De mim. Em mim. Esse universo de antimatéria onde tudo é desconhecido. Caminho pelo museu e vejo imagens e palavras. Não consegui salvar minha mãe, nem a mim, segui seus passos mesmo tendo corrido devairadamente deles. Nem foi um caminho, mas uma sina. Lembro-me que ainda é tempo de morangos, que o chapéu côco continua no armário, que o amor deveria me esperar no fim da vida. Que sou um oceano talhado em um rosto devastado. Tanto tempo desejei outra vida, largando essa que me foi concedida. Tantas mortes, de formas diferentes. Penso em você, tão distante, não há mais nada, eu sei, e me entristeço mesmo sabendo que esse era final possível. Mas eu acredito, às vezes eu acredito. E espero. Recolho-me. Alguma hora passa.

Quebrada

O calendário de rascunhos do WordPress me avisa que eu comecei a escrever esse post lá em agosto de 2018, quando a Suzane Jardim postou no FB sobre a maneira como uma iniciativa de organizar os compromissos a ajudou a realmente conseguir cumpri-los. A dica é importantíssima (incluindo a necessidade de acompanhamento terapêutico) porque, no geral, a gente não tá dando conta mesmo. Vai um tempão e uma energia louca pra conseguir encontrar um jeito de montar um sistema de organização que atenda a nossa demanda (e personalidade). Tem gente que é da lista, gente que é do post-it, gente do digital,  montes de aplicativos para as coisas. Eu tenho agenda, mil caderninhos de notas e um milhão de listas e papeizinhos soltos que incluem coisas urgentes e também que devem ser feitas  um dia. Sempre esqueço alguma coisa, troco os dias e tal. Imagine se não tivesse.

Eu gostei do sistema proposto pela Suzane e resolvi testar. Organizei por cores, para identificar os meus compromissos e os dos meninos, fiz uma estrutura de semanas para visualizar o que tinha data marcada e outra mais livre, para mostrar coisas a serem feitas sem prazo fixo. Peguei uma moldura grande de quadro mesmo, com vidro, que já tinha em casa e fiz as divisões num papel branco. Preguei na parede, bem lindo, me sentindo a deusa do calendário. O Tom prontamente preencheu recados importantes nos seus post-it amarelos, como “comprar presentes do dia das crianças”, e colou orgulhoso no quadro. Durou um tempo, até que uma ventania derrubou o quadro da parede. Reforcei a moldura e preguei de novo. Caiu de novo. Sim, teria que ter mudado de lugar, eu sei, mas agora a moldura estava destruída, apesar do vidro ter ficado intacto.

Então, passei o resto do ano do mesmo jeito que tinha começado: desorganizada. A ideia do “um dia de cada vez” virou meu mantra e fui resolvendo questões urgentes à medida que iam surgindo. Perdi vários rolês legais e compromissos importantes, me atrasei para várias coisas e fui deixando a vontade de organizar a vida pra lá. Eu lido relativamente bem com o caos, muito tempo funcionando desse jeito. Mas não é o ideal, ainda mais quando se está destroçada.

Mas o que me mobilizou mais no texto da Suzane foi a frase ” Eu sou mãe, não posso quebrar.” Esse é o tema dessa conversa. Porque eu quebrei lá atrás e continuei quebrando. Passei um ano inteiro quebrando, dia após dia. Parecia que nunca ia deixar de quebrar. O que uma mãe faz quando quebra? Pede ajuda. E esse foi o meu movimento mais importante, porque meus filhos são minha vida e uma mãe não pode quebrar.

Então fui juntando os pedaços que consegui e levando os dias, toda trabalhada no patchwork. Virei um frankenstein, é óbvio. Física e emocionalmente. Mas fui em todas as sessões de análise, cumpri todos os compromissos profissionais e, quando não consegui, avisei que não conseguiria. Aprendi a dizer não. A dizer não dou conta. A pedir e aceitar ajuda. A conversar com os filhos, tão acostumados a ter uma mãe inteira, que faz tudo. Não é fácil nos apresentarmos humanas e falíveis para quem nos ama. Mas é tão importante.

De tanto quebrar, descobri que havia ali uns pedaços que eu nem sabia (ou lembrava) que existiam. Costurei junto, encaixando onde dava. Olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher ou o que fazer com ela. Muitos pedaços faltando, buracos em que nada cabia. Comecei a sentir o vento passando nas frestas, eu que gosto tanto de espaço. E também a perceber que muito do que deixei para trás realmente não era (mais) importante.

Então, assim fragmentada, percebi que esse quebrar foi um processo significativo na minha caminhada. E que ao me colocar de maneira diferente frente ao mundo, abri espaço para experiências diferentes. Nem todas são positivas, por certo, mas muitas são. Mesmo quando eu achava que não seriam. E aos poucos a ordem veio. Outra ordem, outra forma de organizar a vida e o meu universo interno.

Por isso lembrei desse post não escrito no ano passado. Porque fiz uma lista gigantesca do que precisava ser feito já, daqui a pouco, ou um dia. Consegui fazer a Marie Kondo (ainda não acabei, ok), marcar consultas e exames, levar o carro para a revisão, criar uma rotina com os meninos, finalizar trabalhos atrasados e, inclusive, festar muito (afinal: férias!). Assim como a Suzane, de uma maneira tão diferente, consegui tirar o peso de mim e lidar com a vida. E também a comemorar minhas pequenas vitórias, essas que são fundamentais para me manter viva. Vejo outras amigas fazendo o mesmo: olhando para si, para o seu percurso, para o que ficou pelo caminho e dizendo: eu consegui.

Que bom nos ver vivas!

 

#MariKon*

Como uma pessoa antenada nas últimas tendências de consumo e totalmente pautada pelas demandas das redes sociais (#sqn), comecei a assistir à série da Marie Kondo. Férias pra mim sempre foi tempo de arrumação. Professora-workaholic, mãe e faxina-freak, é no mês de férias que tenho tempo de organizar e limpar a vida para dar conta do novo ano letivo. Também sou da geração X, aquela que tinha uma mãe que abria o armário e jogava no chão todas as roupas emboladas e socadas e dizia: só sai quando terminar de arrumar.

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Então não foi realmente uma novidade, mas mesmo que eu não use nada do método, acho a ideia interessante (principalmente pra quem não tem método algum). Faço tudo de forma aleatória e ao mesmo tempo, roupas, sapatos, papeis, muitos papeis, milhares de papeis, livros (obviamente ficam todos, mas pelo menos limpos e organizados). Agora não tenho mais garagem, mas estou abrindo espaço no apartamento para poder trazer o que ainda ficou na antiga casa.

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Enquanto vou organizando o que vai e o que fica, vou pensando no espaço que é preciso abrir para que o vazio finalmente exista. E em tudo o que tenho aprendido nesses últimos tempos. A fazer as coisas de maneira diferente (nem que seja para quebrar a cara de um jeito novo e não do mesmo jeito das últimas 384743 vezes). A dizer NÃO para o que não quero, não tenho vontade – tempo ou interesse, não posso e/ou não devo (muitas vezes ainda me sinto culpada, mas essa é outra fase a trabalhar). A aceitar minhas limitações e, principalmente, a me ouvir e me acolher. A saber que eu fiz o melhor que podia, mesmo não tendo sido o suficiente. E a agradecer.

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Aliás, tem um monte de coisas que eu não agradeço. Guardo porque fazem parte de sentimentos não elaborados e, na maioria das vezes, não superados. Ainda tenho guardadas todas as minhas agendas e cartas e um dos momentos de arrumação foi olhar para todo esse passado e ver o que é que ainda existe daquela pessoa que se fez no século passado. Além de perceber que eu também fui uma péssima pessoa tantas vezes (nenhuma novidade aí, mas é meio desconcertante quando a coisa grita na sua cara) também senti que, finalmente, é possível reconstruir algumas memórias. Ressignificar algumas dores e reescrever algumas histórias permite que o passado se mantenha como matéria viva, porém sem assombrar ou doer. Essa foi uma vivência muito potente do ano passado e se mantém, agora como um hábito e não mais como uma surpresa. Ao final de tudo, a síntese. Mesmo tendo abandonado a prática dos rituais, há um do qual não abro mão: queimar. Como não podemos tacar fogo em casas ou pessoas, ficamos com a opção de simbolicamente expurgar no fogo o que nos fere. Para mim funciona.

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Outro ponto importante que fica óbvio cada vez faço a Marie Kondo, ano após ano, é o fato de que, sim, toda a carga mental da família (mesmo não sendo mais uma família) é minha. Já tenho trabalhado isso na análise há algum tempo, mas é impressionante como o acúmulo de responsabilidades e de trabalho emocional se soma ao fato de que ninguém na casa, além de mim, sabe nem onde estão seus próprios documentos. É exaustivo, óbvio, mas também extremamente debilitante para as pessoas envolvidas, que se tornam incapazes de organizar e gerenciar a sua própria vida. O fato de que a parte que me cabe nesse latifúndio é um sintoma de um fenômeno social não muda nada. Tenho visto minhas amigas num mesmo movimento de sobrecarga e acúmulo de funções, trabalhando, estudando, cuidando dos filhos e da casa. Todas exaustas.

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Algumas optaram por mudar a estrutura das relações, o que é um movimento que depende também das pessoas envolvidas. It takes two to tango, já sabemos, e dançar sozinha acaba sendo frustrante e nos mantendo no mesmo modus operandi de sempre. Não há como obrigar a outra pessoa a compartilhar as responsabilidades se ela não tem interesse ou vontade. O #porramaridos mostrou bem como é difícil. Outras decidiram (por inúmeros motivos, é claro) que não valia mais a pena permanecer em uma relação na qual não se constrói em conjunto.

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Não importa qual a vibe, acho que o fundamental é estarmos atentas aos nossos sintomas. É difícil existir no caos completo, mas também uma vida rigidamente regrada se torna uma prisão. Para mim separar, avaliar e ordenar as coisas físicas tem permitido um balanço acerca do ponto em que me encontro. O que me trouxe até aqui? O que ainda é importante que permaneça? O que não serve mais? Há coisas que são constitutivas, como base de fundação mesmo, e que permanecerão provavelmente por muito tempo. No entanto, há tantas outras que deixaram de ter sentido com o passar do tempo, que mudaram de significado ou perderam mesmo, se tornando vazias. Tem sido bem interessante viver esse processo. Recomendo.

 

*Sim, eu sei que a réxitégui é KonMari, mas pelamor MariKon é excelente.

Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

No #tbt de hj retomo um texto sobre a morte de Bowie (e meu momento de glória na Internet, pois foi publicado no Biscate Social Club) pensando que continuamos retrocedendo em um moralismo punitivista que captura os discursos, os corpos e os desejos. Há muito decidi que não quero uma luta que não parta do princípio da agência. Infelizmente, o que mais tem por aqui é um aprisionamento do “eles venceram e o sinal esta fechado pra nós”. Pois olha, eu tenho colado com gente que é só resistência e que tá furando sinal há um tempão. E vou te contar que olhar para as próprias contradições (e se perceber como parte da engrenagem que produz machismo, racismo, elitismo, capacitismo) permite agir de forma muito mais complexa e potente. Enquanto o roteiro do aperte os cintos o piloto sumiu vai dando a tônica da vida pública, aqui no andar de baixo a gente samba, transa e resiste. Tamo aí segurando as mãos enquanto agimos e tocamos o barco, como sempre fizemos. Com glitter, com tudo.

“Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (entenda aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.”

Uma resposta para Simone

Eu gosto muito daquele texto (que não é do Drummond) que fala sobre fatiar o tempo, dividir em doze meses um ano como forma de não sucumbir nem entregar os pontos. Gosto da ideia de uma esperança industrial que, em cadeia produtiva, vem se renovando e movendo o ciclo da vida, criando espaço para um respiro que seja, um moto-contínuo que permite alimentar a coragem de existir. É como um pacto que faço com a vida, esse de não desistir e de seguir tocando o barco, buscando ser mais e melhor, ou buscando apenas ser, o que já é mais do que suficiente, porque é a mudança que alimenta o viver, aquele primeiro passo que preciso dar para me colocar em movimento, mesmo sem saber qual rumo tomar.

Durante anos fiz listas de metas, todas aquelas conquistas que precisava para me completar, como se o vazio pudesse ser preenchido com a matrícula na academia, um novo corte de cabelo, um novo emprego ou um novo amor. Essa esperança industrial carregando um produtivismo exaustivo, porque pôr-me em movimento incluiu cumprir um script que me foi dado pela capa da revista afirmando que se não cumprisse a meta – ou dobrasse a meta – não seria feliz. E assim, nesse tempo fatiado, fui acumulando listas de coisas que não fiz, que não conquistei, que não consegui, desistindo de um pouco de cada sonho, metas não cumpridas se acumulando no cantinho de uma vida não vivida. Aquele sucesso que está a um passo de ser atingido, mas nunca é, nem nunca foi, porque não foi desenhado para ser. E nem percebi, empenhada que estava em seguir esse roteiro que não escrevi, nem era meu, queria tantas outras coisas, a maioria delas ficou pelo caminho, já nem lembro mais.

Mas se continuo girando em torno do sol foi porque viver não cabe na capa da revista, nenhuma história contada ali é a minha história e tenho tantas, tão lindas, muitas tão tristes, sempre verdadeiras mesmo quando achava que não. Cumprir o script foi só uma etapa do percurso, trabalho, família, cachorro, gato, galinha, tantas conquistas que valeram tanto e continuam valendo, parte constituinte de quem sou.

Em 2018 não houve script, nada que pudesse servir como guia (mesmo que péssimo) para o existir. Segui dia após dia carregando um coração dilacerado, sangrando, o mundo em minha volta ruindo, uma dor aguda latejando a cada passo. Foi tão doloroso que achei que não fosse aguentar, deixando uns pedaços pelo caminho, me esvaindo, aquela mão apertando o peito, quase sufocando, nem a boa e velha esperança industrial para me confortar. Como Clarice, tenho caminhado no deserto há muito tempo, acostumada com a sede de quem já bebeu a última gota de água. Embrulhei, inclusive, meus melhores sentimentos em papel de presente colorido, um cartão transbordando amor escrito à mão. Não foi suficiente, nunca é.

Então, Simone, eu queria te contar que nesse ano escabroso eu descobri o meu super poder, esse mesmo que me trouxe até aqui. Minha resiliência me manteve alive and kicking, vivendo uma vida linda e inesperada. Pois de repente eu me vi cantando que a felicidade é uma arma quente, pude dizer não para o que me fazia mal e abraçar uma existência sem roteiro. Enquanto meu presente permaneceu fechado e embrulhado, um destinatário não encontrado, eu recebi tantos outros. Alguns vieram em pacote de pão, como aquela garrafa de bebida que se intenta esconder, sem enganar ninguém. Outros vieram na sacola do mercado, com o preço pendurado. Uns tantos vieram sem pacote mesmo, um post-it dizendo “pensei em você”. Continham poesia, abraço, afeto, presença, música, silêncio, festa, beijos, amizade, amor. Descobri que estou cercada por pessoas maravilhosas, todas lutando suas próprias batalhas, sobrevivendo como eu. E que é possível trocar, mesmo achando que não tenho nada a oferecer. E eu recebi tanto.

Somos todas sobreviventes, Simone, e o que temos feito é nos mantermos vivas. Acho que está de bom tamanho, porque vivendo descobrimos que (quase) sempre podemos mais.

Minha Pessoa

Eu sempre fui uma pessoa de poucos amigos. E mais ainda, de pouquíssimas amigas. Mas as amizades que consegui criar e manter na vida foram profundas e intensas. Até o dia em que conheci a minha pessoa.

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Você não assiste Grey’s Anatomy, mas entendeu a referência e incorporou ao nosso relacionamento. E por isso nos tornamos o melhor casal. Juntas rebolamos até o chão, fazemos cospobre, passamos por todos os fracassos possíveis e imagináveis.

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Mesmo não sendo pessoas de abraços, nos abraçamos e nos dizemos que vai dar tudo certo. Nos encontramos no ódio e na falta de paciência com o mundo, na amargura de quem tá lá segurando um forninho por dia.

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Nos amamos em memes e dates furados; nos coostentamos porque só nós sabemos da beleza que tem nesse mundo das trevas em que vivemos.

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Eu não teria sobrevivido a esse ano sem você que me arrancou da cama, aguentou o choro, a tristeza, os boy lixo, a crise com os filhos, com o ex, com o atual, com o novo ex, com o trabalho, com o mundo.

Foi pro bar, pro show, pra balada, pra rua, pra academia. Se tornou parte da minha nova família.

Te amo, Amiga, nunca deixe que ninguém diga que você não é Lymda, Dyva, Plena, Maravilhosa, Inteligente e a melhor amiga que alguém pode ter.

Clube das Desquitadas

Nos últimos anos várias amigas e amigos se separaram. Sempre conversamos sobre como é o processo de luto (e suas fases: negação-raiva-barganha-depressão-aceitação) e superação. A ideia para esse post surgiu quando abri minha pasta de memes e percebi que todas as fases da minha separação estavam representadas ali.

Então hoje vamos falar sobre as “Fases do Clube das Desquitadas”. Se você ainda não faz parte de um, se prepare e salve esse post. Porque todo mundo leva um pé um dia na vida (ou vários, em sequência, como foi o meu caso) e precisa de um apoio moral pra sair da lama.

1. A primeira regra do Clube das Desquitadas é: você fala sobre o Clube das Desquitadas.

#reclama #sofre #chora #clubedalutaéfichinha

Toda pessoa adulta já teve o coração partido alguma vez na vida e tem uma história triste pra contar. É claro que se você é como eu, alguém que odeia gente, fica difícil reunir um Clube das Desquitadas. Mas faça um esforcinho.

tenor

Passar por todo esse processo sozinha piora muito o quadro de infelicidade, então reúna sua galera e abra seu coração. Talvez você precise de ajuda profissional e vamos combinar que processos terapêuticos são fundamentais para manter a sanidade em qualquer fase da vida. Mas, de qualquer jeito, falar ajuda muito e nessa hora vale tudo: chorar, gritar, se jogar no chão, rezar, jogar tarô, búzios, beber, correr, ficar deitada em posição fetal. Qualquer coisa que te permita extravasar e processar o que está sentindo.

Você vai acabar falando, de um jeito ou de outro. Seja para o porteiro que te deseja bom dia ou para as pessoas que chegam no inbox perguntando: Oi, tô vendo teus posts, tá tudo bem?

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2. Separei, e agora?

#Fudeu #Socorro #OlhaessaMerda #Meumundocaiu

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Daí você tá lá, felizona na sua vida adulta, nem sempre tá bom, mas também não tá ruim, paga uns boletos, faz planos, assume prestações a perder de vista. Fechada para o “mercado”, nem olha pro lado, pensando: nossa, nunca vou me separar porque dá um trabalho do cão conhecer alguém, toda uma vida de date ruim. Tá bom assim, né? Tem sexo de qualidade (nem sempre, mas quando a gente tá solteira também não tem e nem de qualidade é), tem netflix, cobertor de orelha, o pacote completo. Nunca vou me separar.

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Separar é sempre horrível. Não importa o motivo ou quanto tempo durou, é sempre doloroso. A gente se sente um lixo, acha que devia ter feito diferente e fica, em looping eterno, perguntando o que fez de errado. Mesmo quando a decisão é sua, porque viu que não havia mais nada naquela relação.

A autoestima desaparece por completo e você só quer morrer. Afundada na merda, como a Glorinha.

 

3. A Bad

#Morta #ChoroInfinito #Álcool #PlaylistdaBad

Não há como fugir, toda separação tem uma fase da bad. Ou muitas. Você vai chorar, vai beber, vai chorar de novo. Em casa, no banho, no trabalho, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Eu quase chorei na aula.

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É bom avisar algumas pessoas do trabalho, porque terá que lidar com coisas da vida adulta como quem vai morar onde, quem fica com os filhos ou os gatos, os livros, os discos, quem paga os boletos. O preço do divórcio. Peça ajuda, sempre que possível, não adianta bancar a superior que não está nem aí pra nada.

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Organize a sua playlist porque serão muitas noites all by myself, se sentindo miserável. E é assim mesmo, tem que viver o luto para poder superar. Uns duram mais, outros menos, mas vai ter uma longa etapa de dor e sofrimento. Prepare-se. Faça uma escala com amigues do Clube das Desquitadas, principalmente em datas especiais como aniversário de casamento, dia dos namorados, ou quando sentir que a barra tá pesada demais.

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Quem já passou por isso conhece todas as fases e sabe que, algum dia, as coisas vão melhorar. Não agora. Vai demorar. Vai ter luto, vai ter tristeza, vai ter recaída (sempre rola um revival), vai ter raiva e quebra pau.

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Você vai se enfiar em várias roubadas, mas com alguém pra te dar suporte e segurar o rolo de papel higiênico enquanto você chora e o nariz escorre, ou segurar o cabelo enquanto você vomita porque bebeu demais, fica muito mais fácil. Se a sua BFF também se separou (como aconteceu comigo), serão duas lokas se revezando no choro. É ruim, mas com alguém do lado sempre melhora, principalmente na hora da vontade de mandar mensagem bêbada na madruga.

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4. Dating

#TindãodaDepressão #+bad #bad² #faixaetária #queria★morta #nuncamaisvoutreparnavida

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Daí você acorda um dia e pensa: sexo. Preciso de sexo. Não tenho nem autoestima pra aparecer em público, estou sem comer e sem dormir direito há meses, mas uma boa trepada vai resolver todos os meus problemas nesse momento.

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Reza a lenda que depois da separação o ideal é acionar os contatinhos que você já pegou alguma vez na vida. O problema é que você passou anos numa relação e há zero @s na sua lista. E as pessoas estão todas casadas. Ou namorando sério. Ou morando no Canadá (as melhores @s moram no Canadá).

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Nenhuma perspectiva de sexo em vista, você faz o quê? Entra no Tinder. Escolhe as fotos menos piores, aquelas que não dá pra ver direito, faz uma descrição honesta, tipo “Pra ser sincera sou bem chata”, pra não enganar ninguém e manda ver. Ok, perfil pronto. Você olha as fotos que vão aparecendo e quer morrer. Sozinha, óbvio, com a certeza de que nunca mais vai transar na vida.

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Sem contatinhos e sem sexo você vai tocando a vida. Parece que todas as pessoas a sua volta estão felizes e vivendo vida de contos de fadas. Todo mundo tem um grande amor, come bem, viaja o mundo e você enchendo a cara, de roupão, abraçada com os gatos escutando a playlist da bad. Barranco abaixo. Mas, como não há desgraça que dure para sempre, um dia aparece uma criatura interessante. Pode vir de inbox, dirigir o uber, te encarar no bar ou comentar o preço do tomate na feira do sábado de manhã. Você não sabe o que fazer e muito menos o que falar.

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Até se acostumar com a rotina do flerte, você vai perder várias oportunidades. Como não temos em mãos um cartão escrito “Eu daria pra você”, temos que manter a civilidade e seguir as regras de convívio social: conversa, flerte, date, sexo.

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Aí você vai colecionando matches, curtidas, cutucadas e até um sexting aleatório. No começo você vai se sentir ridícula, mas aos poucos pega o jeito. Conseguir manter uma conversa digna, encarar sem babar o drink  e não falar algo tosco já de cara é uma arte a ser cultivada.

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Para quem é um meme ambulante como eu, leva algum tempo. Não há tutorial de flerte que funcione, não caia nessa. O esquema é se sentir minimamente segura para interagir com outra pessoa e aprender a ler os sinais. Nem sempre chegar chegando dá certo, precisa de um certo tempo (e uma paciência de Jó) e muito feeling.

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Eventualmente vai rolar. Vai ser estranho, você pode ter vontade de sair correndo, ficar com medo de chorar no meio da transa, cair da cama (se estiver muito bêbada), ter uma super expectativa que não se concretiza.

 

Sua performance também pode não ser lá essas coisas, leva tempo pra acostumar. Você terá alguns dates bons, conhecerá pessoas legais, fará novas amizades na balada. Terá também dates péssimos, com pessoas esquisitas. Se você se relaciona com homens cishet a chance é maior de dar ruim. Mas né? C’est la vie. Faz parte do jogo. Manter baixas as expectativas também ajuda a não se sentir uma fracassada a cada date furado. E eles vão acontecer. Pelo menos depois de um tempo você terá histórias engraçadas para compartilhar na mesa do bar. Eu, que coleciono dates fracassados há uns 30 anos, tenho várias.

4.1 Embustes

#Fuja #CorraLoko #BoyLixo

Abrimos um parênteses aqui para um aviso importante. Não importa qual a sua orientação sexual, fuja de relacionamentos tóxicos. Você já está fragilizada e vulnerável, a possibilidade de se envolver com alguém lixo é grande. Essa foi a primeira coisa que eu descobri após a separação: as pessoas escrotas continuam sendo escrotas, não importa se têm 30, 40 ou 50 anos.

Então, deixo aqui uma lista com o perfil de 10 tipos de embuste. Eu acho que existem bem mais, e acrescentaria pelo menos o Embuste Combo: aquele que reúne várias características em uma só criatura. Conheci um 9/10- quase um bingo. Não recomendo.

5. Aceitação

#Vaidartudocerto #Seguraesseforninho

Quando terminamos uma relação deixamos uma parte de nós para trás. Esse vazio fica ali por um bom tempo. Até que começamos a nos enxergar de novo, a nos descobrir. Encontre algo que você gosta muito e se dedique a isso. Faça algo novo, descubra quais são os seus sonhos.

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Vivemos tempos difíceis e é preciso muito autocuidado para dar conta de tudo. Nem sempre vai estar bom, mas logo já não estará mais tão ruim. Talvez você se relacione de novo, ou não, não importa. Se você chegou até aqui é porque sobreviveu a 100% dos seus piores dias. Parabéns, Guerreira, você é uma musa maravilhosa. E vai descobrir isso aos poucos. Recuperar a autoestima dá trabalho, mas vale a pena.

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E mantenha seu Clube das Desquitadas sempre por perto. Você vai se divertir muito ❤