Dia 16: O que pode um coração partido?

Já me perdi na conta das horas, dos cigarros, das doses de cachaça.

Não há poesia no fim do amor. Os dias correm como água e levam o que de bom ficou. Sobra vazio e comiseração. Há algo de mesquinho nesse sentimento, cultivo cada pedaço de dor. Dedicada, rego um pouco a cada dia.

Um novo amor bate à porta, trazendo fantasias e promessas. Um desejo que nasce no asfalto seco, como erva daninha que insiste em crescer onde não é chamada. Mas não há nada ali. Apenas uma imagem digitada por dedos ansiosos.

Depois de ter pedaços estilhaçados no peito, tantas e inúmeras vezes, como ousar querer?

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Dia 5: à deriva

Sabrina + Audrey Hepburn + sailboat 2

A linguagem é algo poderoso.

Palavras constroem nossa realidade.

Quando te nomeei “meu porto seguro”, ancorei em ti.

Agarrei-me com força à segurança do teu abraço.

Desde que estivesse contigo, tudo ficaria bem.

No nosso balanço, nem percebi quando os nós se afrouxaram e a corda se soltou.

Quando notei já estava longe, tão longe que não havia mais para onde voltar.

Agora estou aqui, em pleno mar revolto, engolida pelas ondas.

 

 

Dia 1: Pedaços

Cansada, sento no chão e olho as pilhas de livros que ainda precisam ser colocados na estante. Mesmo tendo feito tantas mudanças, é a primeira vez que deixo a minha casa.

A casa dos sonhos, a vida dos sonhos. Tudo aquilo que eu achava que não estava reservado para mim. Esteve, mas acabou.

Queria uma imagem bonita, mas só consigo pensar na Merryl Streep deixando Jack Nicholson ao som de Carly Simon.

 

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A máquina da vida continua pulsando em toda a sua potência. Junto os pedaços aqui e ali e vou seguindo, deixando minhas melhores partes para trás.

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Entro no Tinder: óculos de sol, carro, academia, carro, família, óculos de sol, polícia, foto péssima, carro, polícia na academia, família, polícia no carro, academia, polícia de óculos de sol, academia, foto péssima, aluno.

Saio do Tinder.

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É tempo de luto. Mas aprendi com Scarlett que amanhã será um novo dia.

Linha do tempo

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Fazendo a coleta de dados para a tese voltei para a minha linha do tempo no FB, a partir de 2011.

É engraçado ver o começo de tudo, o primeiro mamaço, as primeiras discussões do grupo de pesquisa Antimainstream, os preparativos para a primeira marcha das vadias. A maioria das coisas que está ali eu lembro. Lembro dos textos, dos debates, das notícias. Lembro até das datas.

Mas algumas coisas me chamaram a atenção. Primeiro, os comentários. Pessoas do meu convívio social, seja do trabalho ou da família, que estavam ali acompanhando as minhas decisões e minha proto-militância. Conversavam, concordavam, perguntavam, argumentavam. Um monte de gente com quem eu já desfiz a amizade. Desfiz porque não tenho mais condições de manter contato com quem relativiza agressão, com quem defende discurso opressor, com quem não revê seus próprios privilégios. Ou também pessoas que se afastaram porque não aguentam mais a monotemática da violência de gênero. Gente que está de boa, levando sua vida, e não quer se incomodar com problemas da existência coletiva.

Até aí, nenhuma novidade.

Porém o que realmente me espantou foi a minha esperança na coisa toda. Uma empolgação, uma alegria, diria até um otimismo que nunca foram meus. Mas naquela hora estavam em mim. Eu sempre fui mal humorada, azeda, arisca. Sempre fui intensamente pessimista e uma das minhas grandes decepções na vida adolescente foi a descoberta de que as coisas não iriam mudar.

Só que em 2011 a revolução estava logo ali. E lendo meus posts me vejo ingenuamente feliz, defendendo a sororidade, a luta coletiva. Mal sabia eu o que estava por vir e, mesmo já tenho lido Foucault, não vislumbrei a disputa de poder que mina todo e qualquer movimento social. Não ali, não naquela hora.

Também não sabia que a tomada de consciência das minhas próprias violências sofridas seria tão a avassaladora.

Tive uma professora que dizia que devemos prever o passado.

Foi isso o que fiz hoje, olhando minha linha do tempo.

E eu, que acho pessoas otimistas bem irritantes, confesso que até senti saudades de mim.

PS: Duro também é perceber que participei de várias daquelas correntes malucas de conscientização sobre o câncer de mama, em que postávamos nome de bebida, cor do sutiã, vou morar 9 meses em Las Vegas… Sem comentários.

20 anos

Se olharam, mas não havia mais nada a ser dito.

Tudo o que restou foi culpa e arrependimento.

Houve um tempo em que poderia ter sido.

Ele disse me espere. Ela esperou.

Mas havia uma mulher e muitos homens entre eles.

Um sexo apressado, um abraço apertado.

Um adeus.

Aos 20, tudo é agora.

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A armadilha da autoestima ou “eu não quero ser bonita”.

Quando eu era criança se alguém me perguntasse: “o que você quer ser quando crescer?” minha resposta certamente seria: “eu quero ser linda”. Hoje acho isso bem triste, além de meio assustador. Eu tive uma mãe linda, o que já explica muita coisa, mas também vivi sob um discurso de que, de alguma forma, eu “precisava” ser bonita para poder ser alvo/sujeito de afeto. Ninguém me amaria se eu não fosse linda. Naquela época, lá nos anos 80, começava a aparecer o termo autoestima em alguns textos em revistas femininas e matérias em programas de TV. A tal autoajuda, possível desdobramento da autoestima, só surgiria com força nos anos 90. Essa autoestima comercial e comercializada começou a nos ensinar que, para ser feliz, você precisa se amar e se aceitar (eu incluiria um “se perdoar” aí, mas no geral ninguém fala disso). A ideia é bem boa e até empoderadora, mas o resultado tem sido muito uma determinada padronização estética do existir. Então, essa autoestima aí, esse amor que só vale se for dentro do padrão, é uma armadilha muito bem construída. Só há um jeito de amar a si:esforçar-se para estar no padrão. As mulheres (todas) têm que ser magras, mas gostosas. Têm que ser brancas, têm que ser femininas, têm que ser jovens. As mulheres gordas têm que emagrecer. As mulheres negras têm que embranquecer; as mulheres trans têm que se hiperfeminilizar; as mulheres velhas que têm rejuvenescer. Você TEM que se amar, TEM que se cuidar. Todas lutam para manter essa autoestima em dia, para se amar, mas sempre dentro do que é socialmente aceito. Ter autoestima é manter-se bonita, é manter-se no padrão, é manter-se consumindo. Dá-lhe roupa nova, sapato da moda, xampu que tira o frizz, creme que hidrata os cabelos com química, micropeeling, batom com filtro solar, manicure semanal, perfume francês, retoque na tintura de 20 em 20 dias, alongamento, pilates, redutor de apetite, massagem modeladora. Aí você olha no espelho e diz: eu me amo, eu me cuido. E cai na armadilha do consumo. salao Há saídas? Sempre. Mas também há um custo social. Toda a mulher que foge do estereótipo paga um preço. É olhada com desprezo porque está gorda, não tem força de vontade, coitada. Podia dar um jeito nessa barriga, né? Falta de tempo não é desculpa, quem quer vai lá e faz. Uma tinturinha naquele cabelo, por favor! Por que não alisa, ia ficar tão linda? Passa um batomzinho pra ficar mais feminina. Hoje, sim, tá vestida de mulher! A autoestima pode fazer muito pela gente. Pode nos ajudar a encontrarmos segurança, autonomia, a nos respeitarmos e aceitarmos mais. Mas temos que estar atentas e fortes, pra não cairmos na armadilha do consumo. Na armadilha do “você precisa melhorar para ser feliz” ou de achar que só há um jeito de se amar, de se achar bonita, de ser. * Lá pelas tantas, cheguei a ser bonita. Alcancei aquele lugar no topo do Olimpo das pessoas desejáveis. No que isso resultou? Tive algumas poucas relações verdadeiras, conheci montes de homens cretinos, sofri assédio, abuso, violência. Virei uma propriedade do outro. Um enfeite. Pra mim, o preço pago pela aceitação social e pelo capital afetivo decorrentes da beleza foi bem alto. De repente, comecei a mudar. Emagreci, deixei de ser gostosa. Cortei o cabelo, deixei de ser feminina. Parei de usar roupas bacanas, deixei de ser estilosa. Parei de usar lentes de contato, deixei de ser bonita. Parei de pintar o cabelo, deixei de ser jovem. E comecei a incomodar. Muito. As pessoas que me conheciam antes, linda, se incomodam por eu estar “largada”, muito magra, com cara de doente, pouco elegante, envelhecida. As pessoas que me conhecem agora acham que sempre fui assim, feia e desleixada: feminista, né? Ia ficar mais bonita se deixasse o cabelo crescer, se pintasse de ruivo, se tirasse os óculos, se usasse maquiagem, se colocasse um vestido. Se entrasse no padrão, se fizesse o que se espera de mim. Aí sim eu seria bonita. Não, Miga, hoje eu não quero ser bonita. Hoje eu quero ser livre.

Violência Obstétrica

No dia Internacional de Luta pelo Fim da Violência contra  a Mulher, vamos falar sobre a Violência Obstétrica:
Entender que o direito ao parto, com respeito e autonomia, é fundamental para a mulher grávida é um primeiro passo no combate à violência obstétrica.
O trauma do parto/cesárea mal conduzido deixa marcas físicas e emocionais que transformam o momento maravilhoso do nascimento de um filho em uma sequela insuperável.
É necessário construir um movimento forte que inclua não só as gestantes, mas o poder público e profissionais de saúde, para que esse tipo de violência deixe de existir.

Não deixe de ver o vídeo. Os depoimentos são fortes e emocionantes, mas é preciso dar voz a essas mulheres.


VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA – A voz das brasileiras