Sobre Tristezas

“A tristeza é inconveniente, chega sempre na hora errada. Acaba com a conversa, com o riso despretensioso. Com a falsa felicidade que insistimos em performar. Escancara que a vida é dura, que somos seres frágeis e imperfeitos. A tristeza incomoda, como uma ferida mal cicatrizada. Esfrega em nossas caras que os amores acabam, que as batalhas são perdidas, que não há salvação. Ninguém gosta de uma pessoa triste. Ela se torna espelho de nossa própria derrota. Chega a ser insuportável ter que encarar que a felicidade é uma quimera que nunca chega a se materializar. Mas por que tão triste? Põe um sorriso nesse rosto lindo. Não! Eu não quero sorriso, não quero segurar o choro. Quero meu direito de ser triste. Amanhã vai ser outro dia, eu sei. Mas hoje dói.”

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Dia 55: Sísifo encontra Narciso

Durante toda a minha vida os meus amores terminaram com textos poéticos, filosóficos e com letras de música. Agora, nos tempos tecnológicos, terminam com um “Boa Noite”.

Ou então assim:

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Livrarias, assim como bibliotecas, são meus lugares favoritos. Como a Tiffany’s de Bonequinha de Luxo, nada de mal pode acontecer ali. Estou de ressaca, óculos escuros para me proteger de uma claridade intensa que entra por todos os lados.

Estou quase feliz, como se pudesse esticar os dedos e tocar esse sentimento que há muito não me habita.

Curiosa, folheio um livro de André Dahmer. “Só conheço as tirinhas”, penso.

Abro no primeiro poema:

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Choro ali mesmo.

 

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No primeiro mês descobri que é possível machucar os olhos de tanto chorar.

Agora, três meses de insônia depois, percebo que é possível ter duas camadas diferentes de olheiras.

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Ignorei todos os sinais. Os avisos constantes, os alertas, as regras do jogo, os fatos e a intuição.

Quando percebi estava desarmada e entregue.

Nunca te vi, sempre te amei.

Mas Narciso acha feio o que não é espelho.

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E assim termina a história do grande amor de dois perdidos numa noite suja.

Não me chame de Guerreira

“Eu queria conseguir dormir 8 horas ininterruptas, escrever 20 páginas de uma vez, ouvir Belchior olhando as nuvens, não ter medo o tempo todo, não ter vontade de chorar quando o pequeno pede atenção, não me sentir um fracasso cada vez que não sei o que fazer. Queria cada coisa na sua caixinha, ter tempo pra tomar aquele café, aquela cachaça, pregar os quadros na parede, molhar as plantas que estão morrendo, pregar aquele botão que já perdi, lembrar daquele insight ótimo que tive há dois dias e não anotei. Queria salvar o mundo, ou pelo menos a mim mesma, queria não sentir tanto ódio, tanto nojo, o estômago revirado o tempo todo, por tanto tempo. Queria que o tempo desse uma trégua, que o dia tivesse 30 horas para que – quem sabe – eu conseguisse apaziguar a máquina produtiva que roda incessante aqui dentro. Queria que alguém dissesse que vai dar tudo certo e que, no fim de tudo, valeu a pena. Um pouquinho de certeza, um beijo de boa noite, que fôssemos felizes, às vezes, um pouco. Queria as palavras certas, essas que nunca encontro, nunca estão lá, nem aqui, que o choro ajudasse e o cinza não durasse tanto tempo.” 

O texto acima foi postado no último ano do meu doutorado, durante o período mais difícil da escrita da tese. Eu já estava devastada e exausta, perdida, infeliz. Mas mesmo assim toquei o barco até a defesa. Ao fim da tese, muito bem recebida por seu conteúdo crítico, não alcancei a sensação de dever cumprido. Meu casamento acabou, meus filhos ainda estão fazendo acompanhamento terapêutico para processar a ausência da mãe e eu me pergunto por que não fiz diferente. Por que não desisti enquanto era tempo. Eu me odiei todos os dias, absolutamente todos os dias enquanto escrevi a tese. Sentia-me uma fraude e não via sentido em tanto trabalho para nada.

Eu me lembrei desse post durante toda a semana da mulher, ao ler incontáveis textos sobre a capacidade feminina de organização, cuidado e superação. Um modelo de feminilidade que reitera que para ser feliz uma mulher precisa ser bonita, desejável,  duplamente competente, magra, vaidosa, jovem. Forte, mas sem ameaçar a masculinidade hegemônica. Sexy sem ser vulgar. Mãe dedicada e abnegada. Inteligente, culta, engraçada, carinhosa. Bem sucedida.

E quem é que cuida dessa mulher exausta? Cansada de tentar se encaixar num padrão irreal e castrador? Pois, se está ocupada demais, não há tempo para pensar em sua própria condição. E se ela faz todo o trabalho (principalmente o afetivo), o outro não precisa fazê-lo, não é?

Escrevi uma tese sobre o fracasso. Sobre como o discurso do sucesso, do pertencimento e da aceitação rouba nossa potência. E como precisamos aprender a fracassar. Cada vez mais tenho visto posts de mulheres expondo o quanto sofrem por tentar se adequar. O sofrimento de não ser digna de amor, de não ter o corpo certo, de não conseguir existir nesse mundo em que só há um jeito de ser mulher. E nunca é o nosso. Precisamos parar de naturalizar o sobretrabalho, a superação como um atributo feminino. Precisamos, com urgência, criar outros jeitos de ser mulher. E aprender a viver com eles. E aceitá-los.

Decidi expor esse texto porque muita pessoas me admiram e me tratam como se eu tivesse algum tipo de habilidade extraordinária de dar conta das coisas. Não, não tenho. Na maioria dos dias mal consigo levantar da cama de manhã. Todo mundo tem suas batalhas internas. Estou bem, na medida do possível, sendo atendida, acompanhada e amada por pessoas maravilhosas que me aceitam como sou. E me obrigam a aceitar ajuda mesmo quando eu não quero.

Portanto, não me chame de guerreira. ❤28378560_1909027732745780_8022536248714469982_n (1)

Dia 16: O que pode um coração partido?

Já me perdi na conta das horas, dos cigarros, das doses de cachaça.

Não há poesia no fim do amor. Os dias correm como água e levam o que de bom ficou. Sobra vazio e comiseração. Há algo de mesquinho nesse sentimento, cultivo cada pedaço de dor. Dedicada, rego um pouco a cada dia.

Um novo amor bate à porta, trazendo fantasias e promessas. Um desejo que nasce no asfalto seco, como erva daninha que insiste em crescer onde não é chamada. Mas não há nada ali. Apenas uma imagem digitada por dedos ansiosos.

Depois de ter pedaços estilhaçados no peito, tantas e inúmeras vezes, como ousar querer?

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Dia 5: à deriva

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A linguagem é algo poderoso.

Palavras constroem nossa realidade.

Quando te nomeei “meu porto seguro”, ancorei em ti.

Agarrei-me com força à segurança do teu abraço.

Desde que estivesse contigo, tudo ficaria bem.

No nosso balanço, nem percebi quando os nós se afrouxaram e a corda se soltou.

Quando notei já estava longe, tão longe que não havia mais para onde voltar.

Agora estou aqui, em pleno mar revolto, engolida pelas ondas.

 

 

Dia 1: Pedaços

Cansada, sento no chão e olho as pilhas de livros que ainda precisam ser colocados na estante. Mesmo tendo feito tantas mudanças, é a primeira vez que deixo a minha casa.

A casa dos sonhos, a vida dos sonhos. Tudo aquilo que eu achava que não estava reservado para mim. Esteve, mas acabou.

Queria uma imagem bonita, mas só consigo pensar na Merryl Streep deixando Jack Nicholson ao som de Carly Simon.

 

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A máquina da vida continua pulsando em toda a sua potência. Junto os pedaços aqui e ali e vou seguindo, deixando minhas melhores partes para trás.

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Entro no Tinder: óculos de sol, carro, academia, carro, família, óculos de sol, polícia, foto péssima, carro, polícia na academia, família, polícia no carro, academia, polícia de óculos de sol, academia, foto péssima, aluno.

Saio do Tinder.

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É tempo de luto. Mas aprendi com Scarlett que amanhã será um novo dia.

Linha do tempo

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Fazendo a coleta de dados para a tese voltei para a minha linha do tempo no FB, a partir de 2011.

É engraçado ver o começo de tudo, o primeiro mamaço, as primeiras discussões do grupo de pesquisa Antimainstream, os preparativos para a primeira marcha das vadias. A maioria das coisas que está ali eu lembro. Lembro dos textos, dos debates, das notícias. Lembro até das datas.

Mas algumas coisas me chamaram a atenção. Primeiro, os comentários. Pessoas do meu convívio social, seja do trabalho ou da família, que estavam ali acompanhando as minhas decisões e minha proto-militância. Conversavam, concordavam, perguntavam, argumentavam. Um monte de gente com quem eu já desfiz a amizade. Desfiz porque não tenho mais condições de manter contato com quem relativiza agressão, com quem defende discurso opressor, com quem não revê seus próprios privilégios. Ou também pessoas que se afastaram porque não aguentam mais a monotemática da violência de gênero. Gente que está de boa, levando sua vida, e não quer se incomodar com problemas da existência coletiva.

Até aí, nenhuma novidade.

Porém o que realmente me espantou foi a minha esperança na coisa toda. Uma empolgação, uma alegria, diria até um otimismo que nunca foram meus. Mas naquela hora estavam em mim. Eu sempre fui mal humorada, azeda, arisca. Sempre fui intensamente pessimista e uma das minhas grandes decepções na vida adolescente foi a descoberta de que as coisas não iriam mudar.

Só que em 2011 a revolução estava logo ali. E lendo meus posts me vejo ingenuamente feliz, defendendo a sororidade, a luta coletiva. Mal sabia eu o que estava por vir e, mesmo já tenho lido Foucault, não vislumbrei a disputa de poder que mina todo e qualquer movimento social. Não ali, não naquela hora.

Também não sabia que a tomada de consciência das minhas próprias violências sofridas seria tão a avassaladora.

Tive uma professora que dizia que devemos prever o passado.

Foi isso o que fiz hoje, olhando minha linha do tempo.

E eu, que acho pessoas otimistas bem irritantes, confesso que até senti saudades de mim.

PS: Duro também é perceber que participei de várias daquelas correntes malucas de conscientização sobre o câncer de mama, em que postávamos nome de bebida, cor do sutiã, vou morar 9 meses em Las Vegas… Sem comentários.