Clube das Desquitadas #3: Retrospectiva

Passaram os dias, passaram os meses, a paciência, a fé na humanidade, os votos de ano novo, feliz páscoa, feliz aniversário, feliz natal. Ninguém esperava ter que ficar em isolamento por tanto tempo, e o que é pior, sem nenhuma perspectiva de mudança no cenário pandêmico. A segunda onda vem chegando sem nem mesmo termos saído da primeira, não há vacina nem pacto coletivo para a contenção da doença.

Nós aqui no Clube das Desquitadas já passamos por todas as fases possíveis e imagináveis: raiva, negação, desgraçamento, pé na jaca, remorso, posição fetal, lei de Murphy, tristeza, solidão. Para dar conta, procuramos formas de existir e resistir. Há quem dance, quem beba, quem fume, quem faça yoga, quem chore, quem trabalhe, quem faça crochê e quem faça um pouco de cada coisa. Chutando o balde, um pouco a cada dia.

Depois que a nossa sócia fundadora se rendeu ao Tinder, nada mais me espanta. Até quem não queria nada com coisa alguma acabou se entregando aos apelos do app. Ninguém aguenta mais solidão, tédio, vazio, carência e falta de sexo. Ou de carinho, afeto, companhia, cada qual com sua falta, não é?

Falando em falta, pouca gente está conseguindo manter a terapia, principalmente por falta de grana. Ou porque a terapeuta não acredita em tratamento online. Força para quem está despirocando por aí, sem assistência ou alguém pra dizer: hummm nos vemos na próxima semana.

Já falamos sobre o Tinder aqui e continuaremos falando por motivos de: onde mais encontrar companhia? Lives no Instagram? Festas nos Zoom? Grupos de Whatsapp? Sabemos que, bem usado, qualquer app pode ser um app de relacionamento. Mas também sabemos que temos zero talento pra flerte, o que não ajuda nada o cenário de conseguir contatinhes em plena pandemia mundial. A possibilidade de manter a conversa e o flerte virar um webnamoro é quase como ganhar na megasena, ainda mais quando não há perspectiva de encontro real oficial.

Mas como somos brasileiras e não desistimos nunca, passamos esses meses todos na pista e o rolê aconteceu assim:

Março: vai dar tudo certo, estou pronta pro apocalipse.

Abril: Tinder sem fronteira, ousando nos 5 continentes.

Maio: surge a figura da @ da semana: a @ vem, a @ vai.

Junho: dia dos namorados, todes miseráveis all by myself.

Julho: sem perspectiva de acabar a pandemia, perdemos um pouco o controle.

Agosto: esqueça aparência, titulação e até a trilha sonora. As melhores @ são sempre as mais engraçadas.

Setembro: a @ da semana dá lugar ao webnamoro.

Outubro: geral flexibilizando e você lá, firme e forte no isolamento. SÓ VOCÊ.

Novembro: Tinder já ficou até obsoleto, flertamos no zoom.

Dezembro: você decide marcar o date exatamente quando começa a 2ª onda. Volte duas casas.

Menção honrosa: junto com o passar dos dias e meses temos a variação dos ciclos menstruais. É aí que o patriarcado vence. Mas vence de lavada. E quando você e sua BFF têm os ciclos sincronizados, vence duplamente.

– Amiga, tô ovulando, marcando o date com o boy, me ajuda.

– Mana, tô ovulando também, só vai, foda-se.

Então, chegamos ao fim de ano vivas, a agenda cheia de contates, a pasta de nudes com um acervo invejável. Relacionamentos virtuais podem ser bem interessantes e permitir novas formas de trocar afeto e desejo. Sempre com responsabilidade afetiva, lógico.

E não se esqueça, se a @ não te trata como uma galáxia, não te merece.

E que venha a vacina para que a gente possa concretizar todos esses dates.

Torre

Há 3 anos eu começava meu processo de separação, já estava destruída e nem imaginava que o pior ainda estava por vir. Foi uma longa jornada até aqui, sobrevivida um dia de cada vez. A primeira coisa que fiz foi sair da casa, ninguém entendeu. Insuportável pensar que esse sonho alimentado durante tantos anos pudesse ter acabado em descaso e desamor. Não conseguia respirar, muito menos continuar morando  nesse lugar. Da noite para o dia nada mais fazia sentido: a torre negra, conhecida no condomínio como “a casa preta da mulher tatuada”; a vista, as árvores, as plantas, o espaço, tanto espaço e eu sufocada. Fui embora. Fui me reconstruir em outro lugar.

E então veio o isolamento e a necessidade de espaço, a volta e a obrigatoriedade de criar um novo sentido para esse não-lugar. Nada mais é meu aqui  a não ser meus filhos e meus livros. Mas foi nesse estranhamento, nesse vazio, que pude existir em plenitude. Segura, na minha torre negra, vivi felicidades inimagináveis. Voltei a sonhar, literalmente, pois consegui dormir depois de séculos de insônia. Sonhos  potentes, tanta vida se tornou viável. Um corpo vibrante e nutrido, bem alimentado, desejante. Ao parar de fugir me apaixonei, veja só, por mim. Continuo encabulada com esse amor, mas amo. Meus caminhos sempre me levaram para outros lugares, mas também me trouxeram de volta quando foi preciso. Então, aqui fico, aqui finco raízes, para que logo mais possa partir novamente.

Coostentação

A minha pessoa é tão minha pessoa que escreveu um post de presente de aniversário:

COOSTENTAÇÃO: A INVASÃO

Se você chegou aqui achando que ia ler um post belíssimo da Máira com reflexões poéticas & irônicas, volte duas casas.

Hoje é aniversário (na real, um doS aniversárioS) desse ser de quem eu sou “a pessoa” e escolhi escrever sobre uma prática do nosso cotidiano para homenagear MÁIRA-VILHOSA (novo codinome dessa mulher que é uma deusa, uma louca, uma feiticeira – ela é DEMAIS!).

Inclusive, a concepção do termo MÁIRA-VILHOSA já é um dos exemplos do assunto desse post, fica a dica.


O tema de hoje é a arte de COOSTENTAR “azamigue”.

1. A GALÁXIA: COOSTENTAÇÃO DAS “MÁIRAVILHOSIDADES” (pois blog da máiravilhosa, que é maravilhosa)
Antes mesmo da fundação do Clube das Desquitadas, uma prática recorrente na nossa relação é a coostentação.

Somando todos os nossos problemas e lapsos de autoestima – que oscila entre baixíssima e quase alta – conseguimos achar um ponto de equilíbrio no ato de coostentar uma à outra em todo e qualquer momento.


É aquela coisa: um dia a gente se acha lynda, poderosa e invencível, no outro acreditamos que a merda nunca vai parar de subir. Às vezes, inclusive, é a gente que infla a merda toda e se afoga.

Sim, repetimos conteúdos por motivo de: estar só a Glorinha é uma constante na nossa vida. Tá vendo essa merda? Ela só sobe.


Para qualquer uma dessas situações a coostentação tem seu papel. Nos (vários e incontáveis) dias que você tá na merda, esse alguém joga na sua cara toda sua maravilhosidade.

Isso pode ser feito evidenciando todas as suas conquistas, as facetas mais incríveis da sua personalidade, enaltecendo o tamanho da sua raba ou explicando pra você que sim, você é gostosa, e deveria colocar os peitos pra jogo.


Assim, quando “azamigues” não estão num dia bom, você reafirma toda a potência da pessoa, aplaude, grita e joga glitter. Lembra a pessoa de que ela é UMA GALÁXIA.


Muito simples essa primeira etapa. Pensa comigo: a base de qualquer relacionamento, na minha humilde opinião, é a soma. Você admite na sua vida pessoas que acrescentam alguma coisa, que potencializam ou movem algo em você.

2. A MERDA: COOSTENTAÇÃO DAS TREVAS
No entanto, uma parte interessantíssima da coostentação consiste em ostentar a merda também. Porque, porra, haja bosta – 2020 tá aí pra jogar isso constantemente na nossa cara.


Então nade no mar de bosta da sua pessoa. Cante all by myself com ela no karaokê. Sofra junto, porque tem dias que a gente não quer ouvir que somos maravilhosas, a gente só quer se afogar na merda tomando cachaça e cantando Geni.

Recém separadas, alccolizadas, cantando All by myself. Esse é o fundo do poço.

Enaltecer é incrível, mas se afundar no poço alheio também é necessário. Porque evidenciar as merdas faz parte. Não é só lacração.


Você vê a merda subindo, avisa e, principalmente, ACEITA que a pessoa QUER SE AFUNDAR NA MERDA. Choices né “beninas”!
Essa é a parte mais complexa e super necessária. Aceite as escolhas da sua pessoa.

Tá valendo ficar puta (com razão e com força), mas uma puta conformada. Acolha os argumentos furados e as ideias imbecis da sua pessoa. Não precisa concordar, só aceita que dói menos. Coostente os pequenos momentos de glória daquela pira errada da sua pessoa.


E isso vai desde a bota feia, o crush errado, a festa bosta que você vai pra dar um apoio moral, até a ideia imbecil de 50 dias de comemorações de aniversário. Socorro, só vai.


O negócio é estar ali pra quando “os boletos chegarem”. Tá liberado jogar na cara, mas entenda que sua função – e compromisso – é dividir os boletos, apesar de ter avisado que a conta ia chegar. Isso é imprescindível.


Resumindo, coostente cada escolha da sua pessoa, os dias de luta e os dias de glória – mesmo que as glórias sejam uma ilusão, uma insanidade temporária.


Fica aqui o meu desejo de que a merda dê um tempo, a galáxia brilhe sempre e que a gente continue enaltecendo cada um dos nossos incontáveis fracassos. Porque é LYNDA a forma que compartilhamos e vivemos nossas trevas.
E não, eu ainda não vi Grey’s Anatomy. Sorry.

Te amo, Ana.

PS: eu ia fazer um POEMA de aniversário pra você, mas preguiZzzZZzZzZ

Ps2: Regras do rolê (ou leis absolutas de relacionamento com a Máira):

– Não vamos à feira comer pastel e caldo de cana

– Não falamos eu te amo

– Não declamamos poesia

Bônus: não fazemos amor, trepamos.

Máscara

Segundo os manuais de aviação, se estiver em companhia de uma criança, em caso de despressurização, primeiro coloque a máscara em você e depois em quem estiver te acompanhando. Ouvimos essa recomendação em cada voo, fazemos paródia em filmes e não percebemos que há uma máxima importante: se você não puder respirar, não poderá cuidar de quem está ao seu lado. Primeiro coloque a máscara em você. Tão difícil lembrar dessa urgência quando seu mundo começa a desmoronar. Como salvarei os meus? Como os protegerei? Levo ao médico, cuido da alimentação, fiscalizo o sono, observo, amo.. Faço os sacrifícios necessários, coloco a máscara. Neles. Tenho feito isso há tanto tempo que nem percebo mais. E quando vejo estou sufocando. Foi preciso que eu perdesse tudo, que eu começasse a cair vertiginosamente, que vivesse um apocalipse. Primeiro coloque a máscara em você. Só então comecei a respirar, pude tomar decisões com o cérebro oxigenado, nem sempre as melhores, mas há que se começar de alguma forma. Então, respirando, posso cuidar dos meus, verificar se estão respirando, ajustar suas máscaras. E ajustar a minha, encontrar outros respiros. É preciso respirar para viver. Primeiro coloque a máscara em você.

Navegar

Eu sou uma pessoa da terra, você dirá que é o signo, eu direi que é a dureza da vida. Porque houve um tempo em que quase, quase. Cheguei tão perto. Hoje vejo minha amiga Lena Muniz produzir o seu Manifesto Água Viva* enquanto olha para o Tejo e penso que nessa outra vida, outro século, lá quando quase, naveguei, vi o Tejo, flanei, voei, amei, chorei. We will always have Paris. Quase.

Não havia fronteiras suficientes para me segurar e o saudosismo de hoje nasce dessa desertificação da vida. A boca seca de um real que se esfacela. Então eu olho para os dias melhores que já vieram e penso que posso criar um quase novo, porque eu fui aos bloquinhos de carnaval.

Depois de um tempo eu comecei a navegar em bits e bites, era tudo mato, já contei que trabalhei no instituto de tecnologia? Não sei como nem por que. Mas sei que conheci tanto e naveguei tanto que me tornei uma pessoa melhor. Bem melhor, muito mais dura, mas essa é outra história que nada tem a ver com minhas navegações. Usávamos navegadores que nos conduziam a lugares desconhecidos, a pessoas desconhecidas. E íamos (nos) conhecendo.

Antes da ditadura do algoritmo até no rostolivro podíamos chegar a mares nunca dantes navegados. Hoje virou tudo um grande quintal, às vezes um mato novo, uma erva daninha diferente, mas nada disso faz o menor sentido porque hoje navegamos num mar de ódio, uma bile fétida que nos corrói. Mesmo para quem está acostumada com águas turbulentas é demais.

Então eu penso nessa outra vida, há várias, mas essa é uma das minhas favoritas. Flanando em Paris, passando o verão no campo, vivendo um amor safado com aquele homem lindo que gosta de Joy Division e fala francês no meu ouvido. Tomaríamos café preto conversando na cama sobre folhetins, cantaria Chico, porque sou dessas mulheres que só dizem sim, em português. E nossos corpos se entenderiam perfeitamente. Haveria toda aquela arte, toda aquela história, um tanto de poesia e uns carros para queimar, que é a melhor parte dessa outra vida, ser tudo possível.

Aqui, onde o possível mora numa caixa de fósforo, navego nesses mares do que foi e do que poderia ter sido, bem como história e literatura. Navego em letras e sons, cantarolo chorando, choro escrevendo. Quando consigo escrever.

Já contei que a analista está de férias?

The Flâneuse Herself – Writing in the Margins
Flâneuse

Lena Muniz: Artista visual, pesquisadora, ilustradora e ceramista vivendo em Lisboa.

https://www.instagram.com/lenamuniz1/

Romaria

Eu passo muito tempo nas redes sociais, a desculpa há anos é a minha pesquisa, mas o motivo é que preciso preencher o vazio e sobrepor algo às vozes que gritam aqui dentro. Em um cenário de pandemia, isolamento e completo caos, tornou-se uma estratégia de sobrevivência.

Todos os dias muitas tragédias, pequenas e grandes, mas há algo do cotidiano das pessoas que sigo que sempre me alenta. Leio textos maravilhosos em blogs (sim, boomer), poesia postada em montagens fotográficas e ouço lives de quem está produzindo um som que salva.

E me encanto com tantas coisas, as minhas próprias pequenas aventuras domésticas, a arte que chega até mim, e as pequenas coisas. Essas são tão importantes quanto. Provavelmente não fazem sentido para você, mas no meu momento atual são o que permite que eu mantenha um fio que me liga à realidade.

Percebi quando assisti pela décima vez o trecho da live do Porchat com o Boulos, rindo sem parar. O inesperado, a naturalidade dos dois, nada indicando uma condenação daquela nudez e, obviamente, o fato de que seria algo que eu mesma poderia ter feito. O ordinário do acaso num tempo de vigilância e suspensão do real. Uma delícia.

Também quando apareceu a entrevista do Renato Teixeira explicando a história da música Romaria. A primeira música que aprendi a cantar, na escola, lembro da sala das aulas de música, da graça com cai-pira-pira-pira-pora, e o verso “o meu pai foi peão, minha mãe solidão” que até hoje acho um dos mais lindos da música brasileira. E vi ali todo o imaginário da minha infância, Sérgio Reis e o menino da porteira, a rádio AM, a fè cristã, a música caipira, Elis. Um Brasil que desaparece.

E hoje, com o vídeo do Supla em Cubatão nos TTs. A memória de passar de carro pela cidade símbolo da poluição terceiro mundista, que virou referência ecológica. A garota de Berlin, a Japa Girl, a Marta na TV preto e branco falando sobre sexo no TV Mulher, o Suplicy no show do Mano Brown. Eu em Volta Redonda me sentindo em Blade Runner. E o Supla que, vindo de uma família quatrocentona, poderia ser um completo idiota mas é esse cara gente boa aí.

Guardo todos esses frames, os monto e desmonto, aos poucos, dou um sentido só meu. Sobrevivo. Não precisa fazer sentido, só precisa ser.

Quarentena. Dias demais de isolamento.

Por enquanto

Acordo com teus versos e a promessa do teu corpo quente. Enquanto te leio imagino a embriaguez tomando nosso desejo num dia ensolarado, a suave volúpia de teus dedos percorrendo a gravura de minhas costas enquanto nossas línguas se molham em uma dança lenta. Passo instantes em devaneios, esperando o quando. Enquanto enfrentamos a suspensão do tempo alimentamos vontades e insinuamos a promessa de uma noite e um despertar. Aguardo.

I can save myself

Desde que comecei a militar na Marcha tenho recebido inúmeros relatos de agressão de amigas e conhecidas. Mulheres que confiaram em mim para contar sobre a violência que viveram na mão de seus companheiros (ex ou atuais). Costumamos dizer que toda a mulher tem uma história de horror para contar e não faltaram hashtags para expor situações de abuso. A última, #exposed, rolou esses dias no Twitter e trouxe uma lista de professores, colegas de classe, da igreja, vizinhos, parentes e amigos das famílias.
Quando paramos para prestar atenção, a cada nova lista, muitos nomes conhecidos. Galera do rolê, caras bacanas que circulam com a gente nos mesmos espaços. Há algum tempo a Clara Averbuck falou sobre o Serasa de Homem e achei a iniciativa fantástica para identificarmos potenciais abusadores. É claro que tem muito cara que é babaca, muita relação que não dá certo, mas que não há violência envolvida. Não é disso que eu estou falando. É do cara ser conhecido como mulherengo (também sou hahaha), embuste, ou sei lá, mas se mostrar um stalker psicopata, como já aconteceu comigo.
Daí comecei a perceber que pra cada história de horror que uma mina tem pra contar, tem um brother envolvido. O nome desses caras desaparece tão rápido quanto surge uma legião de defensores dos pobres caras perseguidos por essas amazonas feministas anti-omi.
Percebam como o discurso da destruição de reputações é acionado a cada nova denúncia e os caras continuam aí, circulando bem de boas, enquanto as mulheres têm suas vidas destruídas, com sequelas físicas e emocionais que muitas vezes não são superadas nunca.
Estamos falando disso há muito tempo e olha que eu sou uma das que acha que os caras têm que ser incluídos no debate, porque são eles o sujeito da agressão e isso não vai mudar sem que eles mudem. Daí fica o meu questionamento: você, querido amigo, já olhou no espelho e viu seu passado te mostrando que você já foi um abusador? Já olhou pros parças que colam em todas com você e viu como eles são violadores? Já pensou em cortar essas pessoas do seu convívio e parar de defender agressor/estuprador?
Porque, meus amigos, a lista é grande e não para de entrar gente. Das artes, da literatura, da universidade, da espiritualidade, , dos bares, da cena, de todas as cenas.
Quando a gente fala de todos os cuidados que precisamos tomar, de não andar sozinha na rua, mandar recado avisando que tá saindo/chegando, ter contato de sos no celular e mais um monte de medidas de segurança que precisamos tomar o tempo todo, quando a gente fala de violência, parece que é sempre de um desconhecido que estamos falando.
Não, não é. É de você e do seu amigo que você defende e protege.
Nós já sabemos disso, e continuamos sendo nós por nós.
Sabemos que ninguém irá nos salvar, mas estamos juntas. E somos muitas.

https://monab1.wordpress.com/2014/07/15/thanks-but-ill-save-myself/amp/

3 meses

Parei de contar os dias na segunda semana, mas sei que no dia 14 dancei pela última vez numa pista, no dia 15 recebi uma notícia dolorosa com a qual tenho que lidar todos os dias e no dia 16 comecei o teletrabalho, nome bonito, parece algo do passado. Tentei fazer um diário, mas na segunda semana desisti, percebendo que não daria conta de narrar em distanciamento o que estava por vir.

Passei pela pulsão de morte, tão presente em toda a minha vida, pela pulsão de vida, primeira vez em que realmente senti vontade de viver, e pela leve indiferença, porque o isolamento em uma pandemia mundial pode ser devastador para quem está em constante busca por algo que dê sentido à sua própria carne.

Aprendi a olhar para o que realmente importa, que é a saúde física e mental dos meus, e a deixar de lado o que não me cabe. O vazio é imenso, porque é tanta coisa que não cabe, não há mais lugar para o que não constrói, fica apenas um espaço, ali, existindo. A vida em suspensão, tudo acontecendo lá fora e aqui dentro um relógio que parou, olhando aquele ponteiro estático, dia após dia.

Fiz inúmeras listas e planejamentos, todos devidamente empilhados num cantinho, tanto por realizar, nada que faça qualquer diferença na urgência do sobreviver. Faria, se conseguisse mover as engrenagens para longe do moinho. Mas não, a roda se movimenta em meio a números, nomes, projeções e o panorama é sempre o pior, porque “aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína.” Há mais de 500 anos.

O corpo padece e se o pulso ainda pulsa é por teimosia mesmo, porque já me desfaço em um definhar de tristeza pela falência da humanidade, eu que nem gosto de gente, mas queria mesmo gostar, porque as que eu gosto são tão especiais. Mas divago, queria um corpo forte para lutar o combate que virá e tenho apenas cabelos ralos, músculos flácidos e dentes que rangem. Coragem, amor, coragem.

Nos dias de semana ensino conteúdos que não fazem o menor sentido quando o poder foi entregue a um facínora, dou risada na minha própria incapacidade de encontrar respostas, onde está o grande plano que iria nos salvar? Aos sábados danço embrulhada nas cobertas e converso sobre um coração partido com desconhecidos.

Não há mais normal, desconfio que não haverá, sinto saudades de um tempo que nem era bom, mas havia um futuro. Por teimosia, danço no fim do mundo. Não espero que me entendam. Apenas agradeço, Clarice, porque ainda é tempo de morangos.

Sabbatical

Depois que me separei emendei um affair após o outro, numa sucessão de fracassos amorosos digna de uma boa comédia pastelão. Depois de (mais) um fora e um surto, decidi entrar em um período sabático para desintoxicar e abrir espaço para algo novo, mais ou menos na metade do ano passado. Foi a noção de que eu não ficava sozinha há uns 20 anos, desde a gravidez do Ian, que me acendeu o alerta. Talvez as trapalhadas afetivas em que estava me metendo sucessivamente fossem um sinal de que estava na hora de parar.

Claro que esse insight foi resultado de um trabalho terapêutico intenso, no qual pude identificar essa minha necessidade patológica de estar envolvida afetivamente com alguém. E também o fato de finalmente começar a bancar quem eu sou, sem pedir desculpas por isso.

Veja você, eu me tornei – de alguma forma – uma pessoa admirada pelos outros. Toda essa minha intensidade irritadiça, essa opinião formada sobre tudo a la Raul, esse mini furacão que incomoda e aciona afetos conflitantes fez com que as pessoas me achassem alguém muito interessante.

O problema é que de perto não é tão atraente assim. Cansa, desestabiliza masculinidades e feminilidades e exige mobilização constante de uma série de sentimentos com os quais as pessoas não querem lidar. “Seje menas”, o mundo me diz todos os dias. Como esse não é o meu caminho, sigo de outra forma. E esse não é um privilégio meu. Ainda hoje conversei com uma mulher maravilhosa – sim, um mulherão da porra – sobre o seu cansaço e solidão de ser too much.

Enfim, passei os primeiros meses aprendendo a finalmente estar só e a aproveitar essa solidão. Nunca tive problema em ficar sozinha, mas há algo que o flerte mobiliza que me mantinha – e mantém, ainda estamos trabalhando nisso – em eterno estado de alerta. Continuei saindo, bebendo, dançando e até recebendo pedidos de beijo*, educadamente rejeitados.

Aí chegou o fim do ano, as tão sonhadas férias, ano novo vida nova, e toda a comemoração de deixar 2019 para trás (sim, nunca mais vamos reclamar de um ano). Pensei que já estava de bom tamanho o resguardo, que já estava bem. Ledo engano, a recaída afetiva é como qualquer abuso de substância: zera toda a contagem.

Então retomei o sabático, empenhada em não me relacionar afetiva/sexualmente de novo durante um longo, longo tempo. Mas veio a pandemia, o isolamento e todos os sentimentos bizarros, apocalípticos, que estão deixando todo mundo bem descompensado. Num primeiro momento, com a impressão de que não duraria tanto tempo, o impulso foi fazer uma lista de bons contatos para acionar assim que acabasse a quarentena.

Depois, com o passar dos dias, dos meses, dos ciclos tpm-ovulação que bagunçam muito o meio de campo, os sentimentos foram se assentando de novo e a paz – no caos – se instalou. A terapia está em dia, avançando finalmente, a urgência de nos manter a salvo faz com que todo o resto se torne secundário.

Estou acompanhando como amigas e amigos estão lidando com a solidão e com a falta de um relacionamento nesse dia dos namorados. É só mais um, mas por toda essa circunstância, parece que o peso está maior. Se esse é o seu caso, lembre-se que vai passar.

Vai passar a solidão, o coração partido, o medo e a incerteza. Está demorando mais do que previmos, mas vai passar. Precisamos canalizar todo esse afeto para o que virá depois. A reconstrução exigirá muito de nós. Mantenha-se firme, e sobreviva <3.

  • Das coisas mais legais que as pessoas estão incorporando é o ato de perguntar: Posso te beijar? Acho digno, respeitoso e muito fofo.