Maria das Dores

Nasceu de teimosa, antes do tempo, apressada que era. Quase não vingou, raquítica, aquela “coisinha”. Sua breve jornada era uma sucessão de acidentes. E dores. Começou com uma dor de Macabéa, dessas de existir, tratada com remédio, criança não devia sentir dor, mas viver pode ser uma devastação. Tomava uma aspirina infantil, rosinha e docinha, todos os dias, essa dor que não passa nunca.

Com a cabeça pesada e ocupada – acordava doendo, dormia doendo – não pensava muito na sua própria miséria. Apenas sentia. E assim, sentindo, foi achando que um amor lhe curaria as dores. Ah, coitada, mal sabia o infinito do doer, e do amar. Doente de amor. Virou uma dor de Marguerite, uma vida inteira pela frente, ninguém deveria morrer de amor, mas morre-se, viver pode ser um abismo. Amou tanto, doeu tanto. Seguiu doente, é óbvio.

Com o passar dos anos o estômago começou a arder, um vulcão em erupção movido a raiva e medo. Aquela lava de fel fervilhando dentro de si. Virou uma dor de Bandeira, a vida inteira que podia ter sido e que não foi, suores noturnos indicando que o pulso ainda pulsa. Ninguém deveria viver de ódio, mas vive-se, viver pode ser uma batalha.

Aguarda o próximo diagnóstico enquanto ouve um tango argentino.

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