Essa é a história do meu divórcio.
Ela começa lá na infância, crescendo numa família disfuncional, aprendendo que eu só teria valor se fosse o objeto de desejo de alguém. Hoje entendo que nunca tive uma chance, pois já cresci quebrada, damaged como se diz no inglês. Já vim estragada para a vida e para as relações.
Uma adolescência marcada pela violência sexual e psicológica resultou na forte crença de que não era digna do amor, de ser amada e respeitada por alguém. Achava que amar era me doar inteira, o mundo me dizia que quem não ama demais não ama o suficiente. E assim fui morrendo de amor – uma, duas, três vezes.
A violência me tirou pedaços importantes, de autonomia. de autocuidado, de acreditar em mim. Ser uma sobrevivente significou passar a vida me sentindo menos, aceitando menos, ou quase nada. Agradecendo por migalhas de afeto, trocando sexo pela sensação equivocada de aceitação, buscando desesperadamente ser inteira de novo. Achando que todo horror era culpa minha.
Eu não queria casar, mas a perspectiva de restaurar tudo o que me foi tirado falou mais alto. Assim, criei minha própria fantasia de família feliz e fui vivendo meu conto de falhas, uma crônica de erros do começo ao fim.
It takes two to tango, vivi 15 anos em uma dança solitária, vazia, muda, uma fantasia que existia apenas em mim. Uma prole de 2, um mestrado, um doutorado, uma casa, eu construí uma existência toda sozinha, na ilusão de que compartilhava uma história, um futuro, uma vontade.
É muito triste viver num deserto afetivo, fugir de uma armadilha e cair em outra. Ali eu repeti a sina do abandono e solidão da minha mãe, foi só quando enxerguei esse espelho que entendi que estava na hora de ir. Uma dor dilacerante essa de se saber não amada, de ter trocado o seu todo por um nada.
Toda família tem uma história de um antepassado que perdeu tudo na jogatina. Na minha família as mulheres perderam tudo no amor. Saí de casa levando as crias, os livros e os pedacinhos do meu coração partido. Dilacerada, fui encarando o que ficou pelo caminho: uma carreira promissora, a casa dos sonhos, o fruto do meu trabalho de Sísifo. Achei que não havia sobrado nada.
Foram as amigas, amigos e amigues que juntaram e carregaram aquele plasma despedaçado. Ali eu aprendi a lição mais importante: parar de hierarquizar afetos e achar que relações romântico-sexuais são mais importantes que relações de amizade. Que só um grande amor poderia me preencher, me dar um sentido.
Aprendi que não há o que preencher, vive-se de vazios, de faltas, de perdas. Perdi tudo, menos a mim.
Foram precisos anos para finalizar esse ciclo, uma pandemia mundial, a precariedade financeira, a falta de perspectiva de viver no capitalismo tardio. Uma depressão profunda. Foi ali, no isolamento, que me encontrei. A iminência da morte fazendo surgir uma imensa vontade de viver, as pazes com o meu passado e a minha história, os pedaços todos costurados numa colcha de retalhos existencial, virei meu próprio Frankestein.
Ser uma sobrevivente, de repente, se tornou a certeza de que não preciso mais apenas sobreviver ao que me acontece. Posso viver um novo destino. Meu próprio fim do mundo numa pedagogia do fracasso para encontrar um outro jeito de ser e estar. É o que venho construindo, nos últimos anos, tijolinho por tijolinho. Uma vida ordinária marcada por outros códigos que não os que eu recebi. Sem mapa, sem projeto, sem caminho trilhado.
Eu sonho com o dia em que meninas e mulheres não precisem mais viver ciclos de violência para se tornarem quem são. Mas essa é a minha história, dela tiro tudo o que sou hoje.
Piegas orgulhosa, vou cantando “começar de novo e contar comigo” enquanto me despeço do casamento, sem olhar para trás.

Que texto mais bonito (e doído também). Eu tô mto feliz que vc não se se perdeu de vc, minha amiga.
”vive-se de vazios, de falhas e perdas”
vive-se.
❤️
bjo,
anderson
Obrigada pelo carinho, querido ❤️