Wandinha

Fim de férias, resolvi escrever sobre assuntos que me mobilizaram no último mês. A série Wandinha, por motivos óbvios, foi uma delas.
Não é fácil sobreviver ao crivo do tempo, mas a interpretação de Raúl Juliá e Anjelica Huston, o casal-delícia Gomez e Mortícia, arrasa no desejo e admiração, numa relação pautada pelo respeito. Essas características se mantêm na série e podem ser também um dos motivos do desenvolvimento intelectual de Wandinha. Mesmo sendo diferentona e tendo passado por várias escolas, sua inteligência e paixão pela escrita não foi abalada.
Wandinha se destaca em diferentes áreas, seja na ciência ou na música, e pretende desbancar Mary Shelley, que publicou Frankenstein aos 19 anos e é considerada precursora da literatura de ficção científica. Aos 16 anos, Wandinha é disciplinada e decidida e aparenta não se importar com o fato de continuar sendo excluída entre os excluídos, esquisita e sem relações de amizade.
Na vida real, as coisas não funcionam bem assim. Garotas são sobrecarregadas desde a infância com o peso do trabalho doméstico, além de criarem muito cedo a percepção de que meninos são mais inteligentes e têm maior destaque nos estudos. O viés de gênero (assim como o de classe e raça) é determinante na forma como as meninas percebem seu lugar no mundo e as possibilidades de atuação na sociedade.
Apesar de serem a maioria nos bancos escolares, a presença feminina nos campos da ciência, da arte e da literatura ainda é pequena. até chegarem à adolescência, meninas já enfrentaram toda a sorte de preconceitos e abusos.
Na idade adulta, soma-se o obstáculo da síndrome da impostora, que faz com que mulheres coloquem suas capacidades intelectuais constantemente em dúvida e se sintam incapazes, uma fraude a ser descoberta a qualquer momento.
Fico feliz de ver produtos com mensagens positivas para meninas, que cresçam com um repertório de possibilidades sobre ser inteligente e ser diferente, fugindo das amarras da beleza como único destino.

O novo sempre vem

Eu gosto dos dias, dos calendários, das cronologias, dos rituais de mudança. Gosto de ter a sensação de que o mal ficou para trás, de carregar benesses e felicidades outras. Gosto do novo, da transformação, da limpeza, do vazio, dos espaços que surgem inesperadamente.

Depois de um período de tanta dor, é bonito ver a esperança vicejando, mesmo que efêmera. Um pouco de paz, sossego e tranquilidade como uma tarde aprazível balançando na rede. A beleza da simplicidade, da calma, do ordinário.

É bonito acreditar de novo. Amar de novo, ser feliz de novo, sonhar de novo.

Que o novo venha.

Luc

Hoje a Ana Paula me perguntou sobre a morte de Luc e instantaneamente me vi imersa em um turbilhão de emoções.

Luc foi um amigo muito querido com quem eu compartilhei tanto, em questões tão profundas. São poucas as pessoas com quem eu tenho essa mesma conexão, talvez Alisson e Rafael, apenas. O fato de serem todos homens me chamou a atenção, pode não haver nenhuma relação de causalidade aí, mas acho digno de nota.

É um tipo de sofrimento muito específico que nada tem a ver com diagnósticos. Os deles, lógico, porque eu pretendo não buscar um cid enquanto for possível. Tem a ver com essa dor que é única e, portanto tão difícil de ser compartilhada.

Continuo fazendo o possível, mesmo sabendo que nunca será o suficiente.

Pas des deux

Durante muito tempo vivi o amor como um caminho a ser trilhado junto, paripassu, numa coreografia muito bem ensaiada em que todo percurso seria atravessado ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, na mesma cadência. Nesse trajeto,  amar seria equalizar frequências, fixar o afeto num único modo de ser estar, para caber nesse caminhar a dois.
Atualmente tenho vivido o amar como um caminho ao encontro do outro, percorrido ao seu tempo e em seu passo,  uma travessia de afeto na qual cada corpo se movimenta no seu próprio ritmo, frente a frente, em eterna descoberta de quem se é em relação ao outro. Deixar-se afetar por outros gestos, outras cadências e inúmeras possibilidades de ser quem se é.
Um tango se dança junto, um pas de deux se dança com.

AFP

Lendo novamente sobre o divórcio de Amanda e Neil e sentindo tanto, por eles e por mim, que ainda não me livrei da dor de minhas próprias perdas e péssimas escolhas. Soma-se a tristeza à imagem colocada à venda para uma campanha de apoio ao aborto em Nebraska e eu pensando cá com os meus botões como não posso nem contribuir com políticas pró-aborto porque elas sequer existem e só o que me resta é preparar uma boa aula e bem isso tenho feito muito bem. Comecar tudo do zero, todos os dias, não aguento mais. Hoje deposito a culpa toda na nova ordem mundial, Helena, mas bem sabemos que é só tristeza mesmo.

Ando devagar

Ah, Helena, eu me preparei para viajar mais leve, mas não mais devagar. Ou mal sair do lugar, que é o usual por esses dias. Quase meio século de vida, ao mesmo tempo em que me sinto uma adolescente ainda tentando descobrir o que deve ser feito me sinto como Raul nascida há milênios e já meio farta de tanta gente horrível. A semana passada poderia ter sido tão feliz e esperançosa, nessa vibração de derrota do fascismo, mas não derrotamos nada, o estrago está feito e o ódio cresce como mato. Esses dias lembrei que fui a uma rave perto do aeroporto, pode ter sido também um sonho ou só uma projeção. Quase meio século de uma vida meio vivida e meio inventada, quem precisa de ficção com uma vida tão inverossímil assim. O rosto devastado, Helena, chega a ser romântico, mas esse corpo alquebrado não tem nada de bom.

Espera

São tantos dias, tantas horas, tantos anos, incontáveis segundos de espera. Dias melhores que nunca chegam, são momentos demais de tristeza e ódio. Hoje a espera acaba e se transforma em luta. Que possamos continuar lutando, Helena, sempre juntas. Eu quero meu país de novo, mesmo que seja apenas essa ficção do que nunca fomos.