Poesia

Entre luzes, livros e quadros, uma tela transmite, como ponte, essa bela história de como a sua estante ficou igual à minha. Surpreende apenas os desavisados e parece até um pouco óbvio que nos vejamos como espelho. Falamos sobre coisas que não gostamos e quando menos espero estou procurando uma poesia que eu gosto para lhe mostrar. Às duas horas da manhã. Sabendo que essa urgência é só minha, desconcertada porque não posso embrulhar meu afeto para presente. Perco o sono e escuto seu nome numa canção que toca no rádio, a distância da falta de jeito é tão grande quanto os quilômetros que nos separam, mas estranho mesmo é me sentir tão confortável em sua risada. Amantes que não se tocam, compartilhamos pequeníssimos afetos, como um beijo de boa noite e um movimento encabulado de se mostrar um pouco mais. Talvez só o que precisemos mesmo seja dormirmos abraçados.

Palavras desenhadas

Acordo chorando, mais uma vez, e desisto de colocar a culpa nos hormônios, pois sei que são dias demais em quarentena e agora tudo vem em cachoeiras. O isolamento apenas impediu que levasse meu confinamento para passear, pois sigo presa em mim mesma há 1138 dias, também não posso mais culpar a pandemia mundial pelo o fato de que não sei o que fazer de mim. Foi uma ótima desculpa, mas um ano já se passou e agora é preciso tomar uma providência. Desde sempre eu desenho palavras, houve um tempo em que até achei que podia fazer uns versos, parei (ainda bem), mas mantive firme a tentativa de ordenar em palavras tudo o que carrego aqui dentro. Ou deixar fluir essa quantidade imensa de água-sentimento que jorra em mim. Quando não consigo, faço rascunhos facilmente apagáveis, invento palavras sem nexo em meus pensamentos, ou empresto palavras. Fal fala sobre “o peito borbulhando de dor” e lembro que aqui tudo sempre foi caos e destruição, se fizesse meu léxico de palavras entre posts e memes seria algo como: dor, fracasso, abismo, flerte ruim. E variações sobre o mesmo tema.

Mas ontem eu também acordei chorando e fiz um treino duplo de ballet, porque essa cachoeira de emoções represadas que não passeiam precisam escapar por todos os poros, em suor e ácido lático, transformadas em algo que se assemelhe a dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina, não dá pra ser feliz confinada eternamente em si, as princesas disney que me perdoem. Também fiz uma torta de maçã, pois o mundo continua acabando todos os dias e não há dieta restritiva que dê conta de um corpo saudável quando se morre de tristeza um pouco a cada dia. Então, aquela torta sovada entre lágrimas e suspiros se transformou na comida mais gostosa do ano, no doce favorito da vida toda, na top 3 das delícias gastronômicas maternas. São 1138 dias construindo esses pequenos momentos, esses mínimos detalhes onde habita a maravilha de dividir a vida com meus filhos. A maternidade sempre me foi um lugar de conforto, mesmo nesse universo de devastação que sou. Então olho para a foto de fundo de tela do meu celular novo, me assusto por 2segs com aquela velha de olheiras profundas que aparece ali e lembro que ganhei um abraço e um “mãe, tira uma foto nossa pra por no seu celular” e tudo faz sentido novamente. Meu propósito é uma promessa de vida, o privilégio de poder me manter isolada com meus filhos enquanto o fim do mundo acontece lá fora.

Antes de ontem também acordei chorando, são muitos dias de choro, pois tudo borbulha aqui dentro, e eu fiz uma playlist com músicas de amor, mal percebendo que toda a minha vida é uma longa narrativa sobre corações partidos, o meu e o dos outros, e por isso estar apaixonada é esse assombro e salto no escuro e já a expectativa do fim. Eu não sei dançar tão devagar, Marina, não sei dançar juntinho, mal consigo dançar sozinha. Encontrar um ritmo e compasso que possa ser compartilhado é algo que me gera ansiedade, pois além de abismo sou terremoto e sonho com tornados devastadores. Coloco meus sentimentos todos em capsulas de contenção, torcendo que para que ninguém – além de mim – se machuque no processo. Eu queria um amor que se desdobrasse em frestas, mas acordo chorando e me lembro que o carnaval já passou, o ano começa amanhã e preciso – de novo – pregar os quadros nas paredes e arrumar a estante de livros.

Quem é que ainda lê livros nos dias de hoje, afinal?

Gostar

Essa coisa de gostar de si é estranha, de repente você para de pedir desculpas por ser e começa a achar, inclusive, que outras pessoas também podem se interessar por você. Então começa a se mostrar mais um pouquinho, ainda lembrando de quando não se gostava, de quando não lhe gostavam. Mostra algumas partes boas, “olha como posso também ser engraçada”, porque você acha que a graça é das melhores qualidades que uma pessoa pode ter. Mesmo que seja apenas a habilidade de rir da própria miséria existencial, não dá pra confiar em quem se leva muito a sério e se tem em alta consideração. Mostra também algumas partes não tão interessantes, porque carregar em si um abismo é deveras assustador e bem sabemos que a maioria dos seres viventes não aguenta quando o abismo olha de volta. Então, mostramos só um pouquinho mesmo, porque se gostar é também se proteger e não há coragem maior do que se manter a salvo quando você é alguém que ama se arriscar. Querer que outra pessoa lhe goste é também permitir que alguém expresse seu afeto, mesmo que você queira dizer “não me ame tanto”, porque aqui morremos de amor e isso não é recomendável para nenhuma das partes envolvidas. Gostar de si pode ser, como qualquer amor, uma aventura muito linda, com borboletas no estômago e declarações de amor em plena madrugada. Pode até fazer com que você queira dividir esse afeto. Mesmo quando você nem sabe quais os jeitos de gostar, quais os jeitos de ser feliz.

Ano 1

2020 foi um ano horrível, para muita gente foi o pior ano da vida. A perda de pessoas queridas, o projeto genocida necropolítico, a falta de perspectiva, de apoio, de dinheiro. A precariedade, o horror, o ódio. Ver, estampado na cara, o quanto as pessoas são horríveis: mesquinhas, egoístas, burras. O ocaso da humanidade, dos projetos coletivos e pessoais. Não saímos melhores, não aprendemos nada, levará uma geração inteira para reverter o dano causado pelo combo pandemia-governo.

Sobreviver tem exigido da gente uma série de habilidades e competências que se tornam cada vez mais imensas e intensas. Saúde mental entrou definitivamente para a ordem do dia e até quem estava ok com a terapia, já fazendo tratamento, teve que dar conta de um existir sufocante e absurdo. A falta de expectativa, o medo da doença, a desesperança, passaram a exigir de nós muito mais do que coragem. óbvio que aqui estou falando da maior parte da minha bolha, que pôde fazer homeoffice e, mesmo com diferentes questões geradas pela necessidade de garantir a subsistência sem sair de casa, teve condições de se proteger minimamente.

Então, nesse primeiro ano de pandemia achamos que a quarentena seria apenas o tempo de 40 dias ou até as férias de julho, aprendemos a fazer pão, a meditar, cuidar das plantas, fazer pequenos reparos domésticos, flertamos e acreditamos que seria um aprendizado para a humanidade. Lá por julho percebemos que nada disso fazia sentido, que as pessoas estavam morrendo e que não melhoramos em nada. Eu, vivendo essas flutuações todas, tive uma série de transformações tão profundas que ainda não consigo mensurar. Parei de fumar, consegui dormir, me relacionar com meus filhos e decidi que queria viver. Pela primeira vez eu não apenas não queria morrer, mas realmente queria viver. Foi o que eu fiz.

Fui aprender a viver uma nova vida. Muitas coisas fiz do mesmo jeito que sabia, mas vi que o resultado não era o que eu esperava. Então fui arriscar fazer diferente. Fui buscar outras formas de existir, de conhecer, de aprender, de amar, de ser. Tudo era possível na segurança do meu quarto. A análise foi fundamental nesse processo todo, nada disso teria sido possível se não houvesse acompanhamento terapêutico e uma intensa vivência de autoconhecimento. Olhar meus demônios e piores fantasmas, deixar que viessem a tona para que pudessem ir embora ou se transformar em outra coisa. Há muito tempo quero viajar mais leve e continuo carregando toneladas de passados. Dores, frustrações, violências, traumas, medos. Tenho morrido há tanto tempo que quando o mundo começou a morrer eu pude, finalmente, viver.

Meus últimos anos foram de dor e sofrimento intensos, a morte que todo mundo viveu nesse ano de 2020 eu já estava vivendo há anos, já tinha morrido em 2018 e em 2019. E por isso soube o que precisava fazer para viver nesse primeiro ano de pandemia (sim, porque continuaremos nessa por algum tempo). Mandar embora a pulsão de morte foi o primeiro passo, colocar a mim e aos meus filhos como prioridade, o segundo. Deixar o passado para trás, encontrar o que me alegra, me dá prazer, me faz feliz permitiu que eu me descobrisse, me desvendasse. Não há fórmula nem mágica. Sobreviver requer esforço, viver requer coragem.

Conhecer o caminho, trilhar o caminho. Cultivar subversiva alegria, mesmo quando o mundo se desmancha a sua volta. Vencer a pulsão de morte, seja ela sua ou de quem te governa. Vencer a pulsão de morte. Para que então possamos reconstruir esse mundo, ou criar um novo. Haja força, haja alegria, haja amor.

Clube das Desquitadas #3: Retrospectiva

Passaram os dias, passaram os meses, a paciência, a fé na humanidade, os votos de ano novo, feliz páscoa, feliz aniversário, feliz natal. Ninguém esperava ter que ficar em isolamento por tanto tempo, e o que é pior, sem nenhuma perspectiva de mudança no cenário pandêmico. A segunda onda vem chegando sem nem mesmo termos saído da primeira, não há vacina nem pacto coletivo para a contenção da doença.

Nós aqui no Clube das Desquitadas já passamos por todas as fases possíveis e imagináveis: raiva, negação, desgraçamento, pé na jaca, remorso, posição fetal, lei de Murphy, tristeza, solidão. Para dar conta, procuramos formas de existir e resistir. Há quem dance, quem beba, quem fume, quem faça yoga, quem chore, quem trabalhe, quem faça crochê e quem faça um pouco de cada coisa. Chutando o balde, um pouco a cada dia.

Depois que a nossa sócia fundadora se rendeu ao Tinder, nada mais me espanta. Até quem não queria nada com coisa alguma acabou se entregando aos apelos do app. Ninguém aguenta mais solidão, tédio, vazio, carência e falta de sexo. Ou de carinho, afeto, companhia, cada qual com sua falta, não é?

Falando em falta, pouca gente está conseguindo manter a terapia, principalmente por falta de grana. Ou porque a terapeuta não acredita em tratamento online. Força para quem está despirocando por aí, sem assistência ou alguém pra dizer: hummm nos vemos na próxima semana.

Já falamos sobre o Tinder aqui e continuaremos falando por motivos de: onde mais encontrar companhia? Lives no Instagram? Festas nos Zoom? Grupos de Whatsapp? Sabemos que, bem usado, qualquer app pode ser um app de relacionamento. Mas também sabemos que temos zero talento pra flerte, o que não ajuda nada o cenário de conseguir contatinhes em plena pandemia mundial. A possibilidade de manter a conversa e o flerte virar um webnamoro é quase como ganhar na megasena, ainda mais quando não há perspectiva de encontro real oficial.

Mas como somos brasileiras e não desistimos nunca, passamos esses meses todos na pista e o rolê aconteceu assim:

Março: vai dar tudo certo, estou pronta pro apocalipse.

Abril: Tinder sem fronteira, ousando nos 5 continentes.

Maio: surge a figura da @ da semana: a @ vem, a @ vai.

Junho: dia dos namorados, todes miseráveis all by myself.

Julho: sem perspectiva de acabar a pandemia, perdemos um pouco o controle.

Agosto: esqueça aparência, titulação e até a trilha sonora. As melhores @ são sempre as mais engraçadas.

Setembro: a @ da semana dá lugar ao webnamoro.

Outubro: geral flexibilizando e você lá, firme e forte no isolamento. SÓ VOCÊ.

Novembro: Tinder já ficou até obsoleto, flertamos no zoom.

Dezembro: você decide marcar o date exatamente quando começa a 2ª onda. Volte duas casas.

Menção honrosa: junto com o passar dos dias e meses temos a variação dos ciclos menstruais. É aí que o patriarcado vence. Mas vence de lavada. E quando você e sua BFF têm os ciclos sincronizados, vence duplamente.

– Amiga, tô ovulando, marcando o date com o boy, me ajuda.

– Mana, tô ovulando também, só vai, foda-se.

Então, chegamos ao fim de ano vivas, a agenda cheia de contates, a pasta de nudes com um acervo invejável. Relacionamentos virtuais podem ser bem interessantes e permitir novas formas de trocar afeto e desejo. Sempre com responsabilidade afetiva, lógico.

E não se esqueça, se a @ não te trata como uma galáxia, não te merece.

E que venha a vacina para que a gente possa concretizar todos esses dates.

Torre

Há 3 anos eu começava meu processo de separação, já estava destruída e nem imaginava que o pior ainda estava por vir. Foi uma longa jornada até aqui, sobrevivida um dia de cada vez. A primeira coisa que fiz foi sair da casa, ninguém entendeu. Insuportável pensar que esse sonho alimentado durante tantos anos pudesse ter acabado em descaso e desamor. Não conseguia respirar, muito menos continuar morando  nesse lugar. Da noite para o dia nada mais fazia sentido: a torre negra, conhecida no condomínio como “a casa preta da mulher tatuada”; a vista, as árvores, as plantas, o espaço, tanto espaço e eu sufocada. Fui embora. Fui me reconstruir em outro lugar.

E então veio o isolamento e a necessidade de espaço, a volta e a obrigatoriedade de criar um novo sentido para esse não-lugar. Nada mais é meu aqui  a não ser meus filhos e meus livros. Mas foi nesse estranhamento, nesse vazio, que pude existir em plenitude. Segura, na minha torre negra, vivi felicidades inimagináveis. Voltei a sonhar, literalmente, pois consegui dormir depois de séculos de insônia. Sonhos  potentes, tanta vida se tornou viável. Um corpo vibrante e nutrido, bem alimentado, desejante. Ao parar de fugir me apaixonei, veja só, por mim. Continuo encabulada com esse amor, mas amo. Meus caminhos sempre me levaram para outros lugares, mas também me trouxeram de volta quando foi preciso. Então, aqui fico, aqui finco raízes, para que logo mais possa partir novamente.

Coostentação

A minha pessoa é tão minha pessoa que escreveu um post de presente de aniversário:

COOSTENTAÇÃO: A INVASÃO

Se você chegou aqui achando que ia ler um post belíssimo da Máira com reflexões poéticas & irônicas, volte duas casas.

Hoje é aniversário (na real, um doS aniversárioS) desse ser de quem eu sou “a pessoa” e escolhi escrever sobre uma prática do nosso cotidiano para homenagear MÁIRA-VILHOSA (novo codinome dessa mulher que é uma deusa, uma louca, uma feiticeira – ela é DEMAIS!).

Inclusive, a concepção do termo MÁIRA-VILHOSA já é um dos exemplos do assunto desse post, fica a dica.


O tema de hoje é a arte de COOSTENTAR “azamigue”.

1. A GALÁXIA: COOSTENTAÇÃO DAS “MÁIRAVILHOSIDADES” (pois blog da máiravilhosa, que é maravilhosa)
Antes mesmo da fundação do Clube das Desquitadas, uma prática recorrente na nossa relação é a coostentação.

Somando todos os nossos problemas e lapsos de autoestima – que oscila entre baixíssima e quase alta – conseguimos achar um ponto de equilíbrio no ato de coostentar uma à outra em todo e qualquer momento.


É aquela coisa: um dia a gente se acha lynda, poderosa e invencível, no outro acreditamos que a merda nunca vai parar de subir. Às vezes, inclusive, é a gente que infla a merda toda e se afoga.

Sim, repetimos conteúdos por motivo de: estar só a Glorinha é uma constante na nossa vida. Tá vendo essa merda? Ela só sobe.


Para qualquer uma dessas situações a coostentação tem seu papel. Nos (vários e incontáveis) dias que você tá na merda, esse alguém joga na sua cara toda sua maravilhosidade.

Isso pode ser feito evidenciando todas as suas conquistas, as facetas mais incríveis da sua personalidade, enaltecendo o tamanho da sua raba ou explicando pra você que sim, você é gostosa, e deveria colocar os peitos pra jogo.


Assim, quando “azamigues” não estão num dia bom, você reafirma toda a potência da pessoa, aplaude, grita e joga glitter. Lembra a pessoa de que ela é UMA GALÁXIA.


Muito simples essa primeira etapa. Pensa comigo: a base de qualquer relacionamento, na minha humilde opinião, é a soma. Você admite na sua vida pessoas que acrescentam alguma coisa, que potencializam ou movem algo em você.

2. A MERDA: COOSTENTAÇÃO DAS TREVAS
No entanto, uma parte interessantíssima da coostentação consiste em ostentar a merda também. Porque, porra, haja bosta – 2020 tá aí pra jogar isso constantemente na nossa cara.


Então nade no mar de bosta da sua pessoa. Cante all by myself com ela no karaokê. Sofra junto, porque tem dias que a gente não quer ouvir que somos maravilhosas, a gente só quer se afogar na merda tomando cachaça e cantando Geni.

Recém separadas, alccolizadas, cantando All by myself. Esse é o fundo do poço.

Enaltecer é incrível, mas se afundar no poço alheio também é necessário. Porque evidenciar as merdas faz parte. Não é só lacração.


Você vê a merda subindo, avisa e, principalmente, ACEITA que a pessoa QUER SE AFUNDAR NA MERDA. Choices né “beninas”!
Essa é a parte mais complexa e super necessária. Aceite as escolhas da sua pessoa.

Tá valendo ficar puta (com razão e com força), mas uma puta conformada. Acolha os argumentos furados e as ideias imbecis da sua pessoa. Não precisa concordar, só aceita que dói menos. Coostente os pequenos momentos de glória daquela pira errada da sua pessoa.


E isso vai desde a bota feia, o crush errado, a festa bosta que você vai pra dar um apoio moral, até a ideia imbecil de 50 dias de comemorações de aniversário. Socorro, só vai.


O negócio é estar ali pra quando “os boletos chegarem”. Tá liberado jogar na cara, mas entenda que sua função – e compromisso – é dividir os boletos, apesar de ter avisado que a conta ia chegar. Isso é imprescindível.


Resumindo, coostente cada escolha da sua pessoa, os dias de luta e os dias de glória – mesmo que as glórias sejam uma ilusão, uma insanidade temporária.


Fica aqui o meu desejo de que a merda dê um tempo, a galáxia brilhe sempre e que a gente continue enaltecendo cada um dos nossos incontáveis fracassos. Porque é LYNDA a forma que compartilhamos e vivemos nossas trevas.
E não, eu ainda não vi Grey’s Anatomy. Sorry.

Te amo, Ana.

PS: eu ia fazer um POEMA de aniversário pra você, mas preguiZzzZZzZzZ

Ps2: Regras do rolê (ou leis absolutas de relacionamento com a Máira):

– Não vamos à feira comer pastel e caldo de cana

– Não falamos eu te amo

– Não declamamos poesia

Bônus: não fazemos amor, trepamos.

Máscara

Segundo os manuais de aviação, se estiver em companhia de uma criança, em caso de despressurização, primeiro coloque a máscara em você e depois em quem estiver te acompanhando. Ouvimos essa recomendação em cada voo, fazemos paródia em filmes e não percebemos que há uma máxima importante: se você não puder respirar, não poderá cuidar de quem está ao seu lado. Primeiro coloque a máscara em você. Tão difícil lembrar dessa urgência quando seu mundo começa a desmoronar. Como salvarei os meus? Como os protegerei? Levo ao médico, cuido da alimentação, fiscalizo o sono, observo, amo.. Faço os sacrifícios necessários, coloco a máscara. Neles. Tenho feito isso há tanto tempo que nem percebo mais. E quando vejo estou sufocando. Foi preciso que eu perdesse tudo, que eu começasse a cair vertiginosamente, que vivesse um apocalipse. Primeiro coloque a máscara em você. Só então comecei a respirar, pude tomar decisões com o cérebro oxigenado, nem sempre as melhores, mas há que se começar de alguma forma. Então, respirando, posso cuidar dos meus, verificar se estão respirando, ajustar suas máscaras. E ajustar a minha, encontrar outros respiros. É preciso respirar para viver. Primeiro coloque a máscara em você.

Navegar

Eu sou uma pessoa da terra, você dirá que é o signo, eu direi que é a dureza da vida. Porque houve um tempo em que quase, quase. Cheguei tão perto. Hoje vejo minha amiga Lena Muniz produzir o seu Manifesto Água Viva* enquanto olha para o Tejo e penso que nessa outra vida, outro século, lá quando quase, naveguei, vi o Tejo, flanei, voei, amei, chorei. We will always have Paris. Quase.

Não havia fronteiras suficientes para me segurar e o saudosismo de hoje nasce dessa desertificação da vida. A boca seca de um real que se esfacela. Então eu olho para os dias melhores que já vieram e penso que posso criar um quase novo, porque eu fui aos bloquinhos de carnaval.

Depois de um tempo eu comecei a navegar em bits e bites, era tudo mato, já contei que trabalhei no instituto de tecnologia? Não sei como nem por que. Mas sei que conheci tanto e naveguei tanto que me tornei uma pessoa melhor. Bem melhor, muito mais dura, mas essa é outra história que nada tem a ver com minhas navegações. Usávamos navegadores que nos conduziam a lugares desconhecidos, a pessoas desconhecidas. E íamos (nos) conhecendo.

Antes da ditadura do algoritmo até no rostolivro podíamos chegar a mares nunca dantes navegados. Hoje virou tudo um grande quintal, às vezes um mato novo, uma erva daninha diferente, mas nada disso faz o menor sentido porque hoje navegamos num mar de ódio, uma bile fétida que nos corrói. Mesmo para quem está acostumada com águas turbulentas é demais.

Então eu penso nessa outra vida, há várias, mas essa é uma das minhas favoritas. Flanando em Paris, passando o verão no campo, vivendo um amor safado com aquele homem lindo que gosta de Joy Division e fala francês no meu ouvido. Tomaríamos café preto conversando na cama sobre folhetins, cantaria Chico, porque sou dessas mulheres que só dizem sim, em português. E nossos corpos se entenderiam perfeitamente. Haveria toda aquela arte, toda aquela história, um tanto de poesia e uns carros para queimar, que é a melhor parte dessa outra vida, ser tudo possível.

Aqui, onde o possível mora numa caixa de fósforo, navego nesses mares do que foi e do que poderia ter sido, bem como história e literatura. Navego em letras e sons, cantarolo chorando, choro escrevendo. Quando consigo escrever.

Já contei que a analista está de férias?

The Flâneuse Herself – Writing in the Margins
Flâneuse

Lena Muniz: Artista visual, pesquisadora, ilustradora e ceramista vivendo em Lisboa.

https://www.instagram.com/lenamuniz1/

Romaria

Eu passo muito tempo nas redes sociais, a desculpa há anos é a minha pesquisa, mas o motivo é que preciso preencher o vazio e sobrepor algo às vozes que gritam aqui dentro. Em um cenário de pandemia, isolamento e completo caos, tornou-se uma estratégia de sobrevivência.

Todos os dias muitas tragédias, pequenas e grandes, mas há algo do cotidiano das pessoas que sigo que sempre me alenta. Leio textos maravilhosos em blogs (sim, boomer), poesia postada em montagens fotográficas e ouço lives de quem está produzindo um som que salva.

E me encanto com tantas coisas, as minhas próprias pequenas aventuras domésticas, a arte que chega até mim, e as pequenas coisas. Essas são tão importantes quanto. Provavelmente não fazem sentido para você, mas no meu momento atual são o que permite que eu mantenha um fio que me liga à realidade.

Percebi quando assisti pela décima vez o trecho da live do Porchat com o Boulos, rindo sem parar. O inesperado, a naturalidade dos dois, nada indicando uma condenação daquela nudez e, obviamente, o fato de que seria algo que eu mesma poderia ter feito. O ordinário do acaso num tempo de vigilância e suspensão do real. Uma delícia.

Também quando apareceu a entrevista do Renato Teixeira explicando a história da música Romaria. A primeira música que aprendi a cantar, na escola, lembro da sala das aulas de música, da graça com cai-pira-pira-pira-pora, e o verso “o meu pai foi peão, minha mãe solidão” que até hoje acho um dos mais lindos da música brasileira. E vi ali todo o imaginário da minha infância, Sérgio Reis e o menino da porteira, a rádio AM, a fè cristã, a música caipira, Elis. Um Brasil que desaparece.

E hoje, com o vídeo do Supla em Cubatão nos TTs. A memória de passar de carro pela cidade símbolo da poluição terceiro mundista, que virou referência ecológica. A garota de Berlin, a Japa Girl, a Marta na TV preto e branco falando sobre sexo no TV Mulher, o Suplicy no show do Mano Brown. Eu em Volta Redonda me sentindo em Blade Runner. E o Supla que, vindo de uma família quatrocentona, poderia ser um completo idiota mas é esse cara gente boa aí.

Guardo todos esses frames, os monto e desmonto, aos poucos, dou um sentido só meu. Sobrevivo. Não precisa fazer sentido, só precisa ser.

Quarentena. Dias demais de isolamento.