Chico

Tem muito Chico Buarque por aqui esses dias, tem Camões e tem quem não está entendendo nada. Tem muita gente preocupada com a minha saúde, logo agora que estou finalmente cuidando. Talvez seja assim mesmo, saúde demais faz mal. Enquanto isso, recolhida, aproveito a companhia do Chico que me diz

“Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar”

Eu, que queria tanto que você ficasse, estou partindo. O descuido não aconteceu, nem a poesia, então deixo essa história sem um fim. É uma tristeza, eu sei.

Chico me faz chorar.

Uma mãe possível

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08/05/16

Eu ia passar o dia em branco, só curtindo com as crianças, mas sentei agora pra escrever e lembrei dessa foto.
É uma das poucas fotos em que estamos abraçadas de maneira natural. E é um registro de um tempo no qual a nossa convivência ainda não tinha virado uma batalha diária.
Foi bem ali, no ano de 1988, que nossa relação começou a se transformar em outra coisa.
Veja, ao contrário de todo mundo que tá postando relato hoje, eu não tive a melhor mãe do mundo. Tive uma mãe possível. E se reconheço que ela se esforçou absurdamente para ser uma boa mãe, também reconheço que foi falha e humana em todas as suas tentativas.
Ali, aos 13 anos, comecei a desenvolver meus próprios interesses e minha mãe não dava conta de quem eu estava me tornando. Ela não me conhecia, não me entendia e não sabia o que fazer com a frustração de se sentir uma péssima mãe.
Meu mundo não cabia no dela e ela achava que de alguma forma era sua culpa. Foram anos de muita briga e rejeição.
A conciliação só veio quando eu me tornei mãe e ela pôde perceber que, de alguma forma, aquele caminho torto que eu tomei me levou para um lugar que ela conhecia.
Foi na maternidade que nós nos encontramos.

PS: Resolvi escrever porque vejo todos os dias a nossa crítica aos estereótipos, à maternidade compulsória, à nossa condição de mãe. Mas acho que a gente podia avançar bastante se desconstruísse esse ideal de mulheridade e maternidade começando pelas nossas mães.

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13/05/18

Trinta anos depois e ainda estou ressignificando a relação com a minha mãe. A maternidade, esse desafio diário, me aproxima cada vez mais dela. Porque também estou sendo um mãe possível e também não dou conta, na maioria dos dias. Se ela se aproximou de mim no sucesso – quando me tornei uma ótima mãe, eu me aproximo dela no fracasso – quando assumi que sou tão “menas main” quanto.
Da mesma forma, o divórcio também me colocou de frente com situações que ela viveu e as escolhas que fez – que eu nunca entendi ou aceitei. Então, numa “dialética dos afetos”, me encontrei no mesmo lugar de medo, rejeição e falta de amor no qual ela viveu por tantos anos. Estar ali foi muito doloroso, mas pude tomar decisões diferentes e seguir um outro caminho, transformando esse “destino” e compreendendo porque minha mãe conduziu sua vida como fez.
Não foi libertador, não houve “perdão”, mas um outro olhar pra nossa relação e pro meu lugar de mãe. Também me tornei uma mãe possível.

Ps: Continuo achando que precisamos cada vez mais discutir a maternidade, porque esse discurso de perfeição – para nossa mães e para nós – é muito nocivo.

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“Mother, did it need to be so high?”

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12/05/19

*Eu não gosto das grandes datas comemorativas, não só pelo apelo comercial, mas por nos obrigar a condensar um afeto em um único dia. No dia das mães eu sempre estava brigada com a minha e precisava a cumprir aquele rito sem sentido. Sempre odiei o dia das mães.

*Mantenho as comemorações por causa do Tom, mas acho que esse será o último ano. A relação avança e ele entende melhor como funciona o mundo. Não quero que ele também seja obrigado a me amar uma vez por ano.

*O Ian ainda diz que eu sou a melhor mãe do mundo, apesar de já ter entendido o que é ser uma mãe possível. Faço questão de explicar todas as falhas, os erros, e de pedir perdão pelos muitos vacilos. A gente faz o que pode do jeito que dá. Nem sempre funciona, mas é o melhor que podemos fazer. Agora tenho um filho adulto, ainda não sei lidar.

*O Tom ainda acha que eu sou a mãe mais chata do mundo. Mas agora ele já consegue conversar e expressar em palavras o que está pensando e o que está sentindo. Ontem ele pediu desculpas, muito sentido porque viu que fez algo errado e que haveria uma consequência. Esses dias ganhei um beijo espontâneo. Às vezes ele me chama de mamãe.

*Os últimos meses foram muito difíceis. Achei que tinha esgotado a minha cota de sofrimento durante a separação, mal imaginava que ainda haveria tanta dor pra doer. Sem nem piscar virei a mãe-leoa, faça para mim mas não faça para os meus. Sentir seus filhos sob ameaça é terrível. Foi exaustivo e assustador. E solitário. De repente queria um colo de mãe, aquele que nunca tive. Sem colo, sem mãe, fiz como sempre faço: me virei do jeito que deu. A maternidade tem sido a minha maior força, mas também a minha maior fraqueza. Não me define, mas me molda.

*Meu muro continua intransponível, tão alto. Precisava ser tão alto, mãe?

Futuro

Eu me despeço de você um pouco a cada dia, ciente de toda a impossibilidade. Não quero mais amar sozinha e a cada adeus dou mais um passo, me afastando lentamente. Mesmo que continue carregando seu cheiro comigo. Quanto tempo demora para um amor não vivido acabar? Hoje me disseram que sou uma pessoa que não se resigna. Sim, não sei lidar com o impossível. Eu insisto e continuo insistindo. Se o desejo não desaparece, apenas sigo. Saber que não há um futuro possível apenas acelera o fim, mas não o torna menos doloroso. Eu, que sempre fui alguém de futuros, me descobri uma pessoa de momentos. Não aprendi ao certo, mas continuo tateando. Um dia de cada vez. Logo a dor começará a desaparecer. E poderemos, finalmente, nos encontrar de novo.

Baú

Eu carrego um baú cheio de dores, fragmentos de instantes que poderiam ter sido, pedaços de amores que se foram, sonhos não ousados. Eu carrego um baú sem enxoval, apenas discos quebrados, cartas rasgadas, fotos desbotadas, fragmentos de uma utopia que nunca existiu. Eu carrego um baú pesado, repleto de versões de uma vida improvável, de memórias impossíveis, de saudades inocentes.

Eu carrego um baú vazio.

Oração

Ouço um verso e sou automaticamente transportada praquele outro tempo em que eu acreditava. Quase tudo era possível, mesmo já tendo deixado tanta coisa pelo caminho. Mas eu tinha uma penteadeira e um coração onde cabiam vidas inteiras. Acreditava tanto que desenhei um projeto de vida, um futuro empenhado num voto de amor. Uma tolice, por certo, mas naquele tempo eu acreditava. Obviamente foram-se o amor, o projeto e a penteadeira, não se carrega um voto de futuro sozinha. Vejo fragmentos de uma vida distante, um pic-nic, um passeio de bicicleta, um fogão a lenha, um pé de ameixa, um bebê mexendo na barriga. Mas o filme continua e vejo silêncio, tristeza, distância, mentira. Observo a mim mesma de longe, carregando o mundo nas costas, tanto peso, tanto medo, diagnósticos, contas, cobranças. Impossível acreditar num futuro, num amor – esteja lá ou aqui, num momento mais leve, na possibilidade de – algum dia – essa dor passar. Senti um pouco de saudade de acreditar.

Alguma hora passa

Olho o aparelho e percebo que estou desconectada, uma sensação estranha essa de me imaginar só. Um bom momento para pensar em quando me desconectei e mais, se é possível que me encontre em algum lugar. Há décadas fugindo do vazio, tudo o que consegui foi desaparecer. De mim. Em mim. Esse universo de antimatéria onde tudo é desconhecido. Caminho pelo museu e vejo imagens e palavras. Não consegui salvar minha mãe, nem a mim, segui seus passos mesmo tendo corrido devairadamente deles. Nem foi um caminho, mas uma sina. Lembro-me que ainda é tempo de morangos, que o chapéu côco continua no armário, que o amor deveria me esperar no fim da vida. Que sou um oceano talhado em um rosto devastado. Tanto tempo desejei outra vida, largando essa que me foi concedida. Tantas mortes, de formas diferentes. Penso em você, tão distante, não há mais nada, eu sei, e me entristeço mesmo sabendo que esse era o final possível. Mas eu acredito, às vezes eu acredito. E espero. Recolho-me. Alguma hora passa.

Quebrada

O calendário de rascunhos do WordPress me avisa que eu comecei a escrever esse post lá em agosto de 2018, quando a Suzane Jardim postou no FB sobre a maneira como uma iniciativa de organizar os compromissos a ajudou a realmente conseguir cumpri-los. A dica é importantíssima (incluindo a necessidade de acompanhamento terapêutico) porque, no geral, a gente não tá dando conta mesmo. Vai um tempão e uma energia louca pra conseguir encontrar um jeito de montar um sistema de organização que atenda a nossa demanda (e personalidade). Tem gente que é da lista, gente que é do post-it, gente do digital,  montes de aplicativos para as coisas. Eu tenho agenda, mil caderninhos de notas e um milhão de listas e papeizinhos soltos que incluem coisas urgentes e também que devem ser feitas  um dia. Sempre esqueço alguma coisa, troco os dias e tal. Imagine se não tivesse.

Eu gostei do sistema proposto pela Suzane e resolvi testar. Organizei por cores, para identificar os meus compromissos e os dos meninos, fiz uma estrutura de semanas para visualizar o que tinha data marcada e outra mais livre, para mostrar coisas a serem feitas sem prazo fixo. Peguei uma moldura grande de quadro mesmo, com vidro, que já tinha em casa e fiz as divisões num papel branco. Preguei na parede, bem lindo, me sentindo a deusa do calendário. O Tom prontamente preencheu recados importantes nos seus post-it amarelos, como “comprar presentes do dia das crianças”, e colou orgulhoso no quadro. Durou um tempo, até que uma ventania derrubou o quadro da parede. Reforcei a moldura e preguei de novo. Caiu de novo. Sim, teria que ter mudado de lugar, eu sei, mas agora a moldura estava destruída, apesar do vidro ter ficado intacto.

Então, passei o resto do ano do mesmo jeito que tinha começado: desorganizada. A ideia do “um dia de cada vez” virou meu mantra e fui resolvendo questões urgentes à medida que iam surgindo. Perdi vários rolês legais e compromissos importantes, me atrasei para várias coisas e fui deixando a vontade de organizar a vida pra lá. Eu lido relativamente bem com o caos, muito tempo funcionando desse jeito. Mas não é o ideal, ainda mais quando se está destroçada.

Mas o que me mobilizou mais no texto da Suzane foi a frase ” Eu sou mãe, não posso quebrar.” Esse é o tema dessa conversa. Porque eu quebrei lá atrás e continuei quebrando. Passei um ano inteiro quebrando, dia após dia. Parecia que nunca ia deixar de quebrar. O que uma mãe faz quando quebra? Pede ajuda. E esse foi o meu movimento mais importante, porque meus filhos são minha vida e uma mãe não pode quebrar.

Então fui juntando os pedaços que consegui e levando os dias, toda trabalhada no patchwork. Virei um frankenstein, é óbvio. Física e emocionalmente. Mas fui em todas as sessões de análise, cumpri todos os compromissos profissionais e, quando não consegui, avisei que não conseguiria. Aprendi a dizer não. A dizer não dou conta. A pedir e aceitar ajuda. A conversar com os filhos, tão acostumados a ter uma mãe inteira, que faz tudo. Não é fácil nos apresentarmos humanas e falíveis para quem nos ama. Mas é tão importante.

De tanto quebrar, descobri que havia ali uns pedaços que eu nem sabia (ou lembrava) que existiam. Costurei junto, encaixando onde dava. Olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher ou o que fazer com ela. Muitos pedaços faltando, buracos em que nada cabia. Comecei a sentir o vento passando nas frestas, eu que gosto tanto de espaço. E também a perceber que muito do que deixei para trás realmente não era (mais) importante.

Então, assim fragmentada, percebi que esse quebrar foi um processo significativo na minha caminhada. E que ao me colocar de maneira diferente frente ao mundo, abri espaço para experiências diferentes. Nem todas são positivas, por certo, mas muitas são. Mesmo quando eu achava que não seriam. E aos poucos a ordem veio. Outra ordem, outra forma de organizar a vida e o meu universo interno.

Por isso lembrei desse post não escrito no ano passado. Porque fiz uma lista gigantesca do que precisava ser feito já, daqui a pouco, ou um dia. Consegui fazer a Marie Kondo (ainda não acabei, ok), marcar consultas e exames, levar o carro para a revisão, criar uma rotina com os meninos, finalizar trabalhos atrasados e, inclusive, festar muito (afinal: férias!). Assim como a Suzane, de uma maneira tão diferente, consegui tirar o peso de mim e lidar com a vida. E também a comemorar minhas pequenas vitórias, essas que são fundamentais para me manter viva. Vejo outras amigas fazendo o mesmo: olhando para si, para o seu percurso, para o que ficou pelo caminho e dizendo: eu consegui.

Que bom nos ver vivas!