Desfile

Estava eu no escritório da firma, um andar amplo cheio de mesas com computadores, bem estilo industrial-startup-coworking, organizando uma aula enquanto, no salão ao lado, aconteciam os preparativos para uma live de desfile de modas, como um filme publicitário transmitido ao vivo, quase uma propaganda de perfume francês.

Eis que a filmagem começa, modelos belíssimas em trajes esvoaçantes caminhando tão etéreas quanto sérias, até que Ivete Sangalo decide escorregar pelo piso de porcelanato branco, tal qual criança patina de meia pela casa, ela e seu scarpin salto agulha performando por entre as modelos impassíveis.

Nem bem a equipe se recuperou da intervenção bem sucedida, olho para a minha mãe e rapidamente – sem dizer uma palavra, apenas na cumplicidade do olhar – tiramos nossos próprios sapatos e entramos escorregando nossas meias-calças cor da pele pelo desfile. Comoção e desespero da equipe ao se deparar com um flash mob ao vivo, saio do salão lindamente e volto para as minhas funções, agora aproveitando que vestia uma lingerie preta e me preparando para um ensaio de fotos.

Acabo identificada como a causadora do tumulto e, enquanto tento justificar minha impulsividade infantil argumentando que foi irresistível seguir a energia escorregadora-patinadora de Veveta, recebo voz de prisão. Transformo minha transgressão profissional em manifesto artvista enquanto assisto aos trechos da live que viralizaram: eu, vestida de noiva de festa junina, dançando e cantando junto a um grupo de pessoas queer, festejando a liberdade de ser.

Acordei.

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