Tudo bem

Esse deveria ser um texto feliz, afinal está tudo bem, a vida finalmente entrou nos eixos, a dor deu uma trégua, os dias têm sido amenos, alguns momentos muito felizes. Mas o trabalho acumulou, a casa continua suja, os filhos continuam brigando, a menina apanhou no bar que eu frequento, o boy entrou no modo ghosting, a TPM batendo forte.

Ahhh terapia e TPM, por isso o choro desde ontem, essa dor de cabeça insuportável, essa sensação de que tudo está ruindo e nada nunca vai dar certo. A vontade de não sair da cama. Não há chocolate que dê jeito.

Mas amanhã é dia de fotos, sábado é dia de dançar e, como sempre, a dor passa. Aprender que vai ficar tudo bem tem sido um horizonte que me faz andar. Basta dar o primeiro passo.

Sex Education

Há muito para se falar a respeito da série e o desenvolvimento da nova temporada merece uma sequência de posts para abordar cada personagem/situação em específico. Eu, que sou uma senhorinha que ainda se sente como uma adolescente, estou fazendo uma imersão no meu passado longínquo como parte do processo terapêutico e também como projeto pessoal e sinto-me particularmente mobilizada pelos dramas da série.

Então, adentrando aos horrores narrativos das minhas agendas, ilustradas por fotografias e lembranças absolutamente constrangedoras, tenho percebido que, para além dos padrões de comportamento e pensamento que carrego há mais de 30 anos, há algo que transformou em absoluto minha forma de ver e estar no mundo. A tal “virada de chave” que se comenta tanto hoje em dia, para mim, foi o feminismo e, em particular, a Marcha das Vadias.

Foi nas discussões para a organização da Marcha que eu descobri que boa parte das minhas questões sobre feminilidade e sexualidade vieram de uma estrutura machista, sexista e misógina e que não eram exclusivas da minha história, mas faziam parte da história da maior parte das meninas/mulheres. Foram as leituras e os debates feministas que me ajudaram a ressignificar a inadequação, a inaptidão, o não pertencimento, a não aceitação e tantas outras vivências que me marcaram e me tornaram quem sou.

Mas, veja bem, tudo isso aconteceu há menos de 10 anos, o que significa que eu passei a maior parte da minha vida sem ter nenhuma noção do aspecto social dos meus próprios problemas, afogada em culpas e dúvidas nascidas de algo que não dizia de mim, mas sim do mundo a minha volta. De lá pra cá tenho caminhado nessa possibilidade de reescrita de mim e foi nessa perspectiva que eu assisti à série.

Além dos dramas românticos, a questão da bissexualidade e a situação vivida pelo Eric, que trouxeram um tanto de sentimentos e memórias, foi o abuso vivido por Aimee que mais mobilizou a necessidade de uma reflexão sobre quem eu fui e como aprendi sobre o ser mulher nesse mundo tão hostil.

Aimee é uma personagem construída no recurso da comédia, ingênua e meio burra, que contrabalança a figura intelectual-durona de de Maeve. E é por essa ingenuidade que o fio narrativo do abuso foi tão bem construído. Ela não percebe que sofreu violência, preocupa-se apenas com a calça estragada – tão difícil encontrar um jeans com um bom caimento, sabemos bem. Vai tentando falar sobre, com a polícia, com a mãe, ninguém entende realmente o que aconteceu, ninguém acolhe. Nem ela entende bem o que aconteceu, vai andando a pé para a escola, de salto, de tênis, não consegue mais entrar no ônibus, vai transferindo a imagem do agressor. “Eu sorri pra ele”, ela transita do nada aconteceu, para o não foi tão importante, para o foi minha culpa, para o não estou segura.

E é aí que a violência mora. Na consciência de que nunca estamos seguras. Quando eu fui atacada, andando na rua a caminho de um show, segui meu caminho, assisti ao show, voltei sei lá como, mas no dia seguinte eu não consegui sair de casa. Tinha outro show (era um festival) e nesse eu já estava programada para ir de carro, pois era mais longe. Não consegui sair de casa. Não consegui dirigir até o lugar do show. Nunca mais andei de noite naquele trecho de novo, estava a algumas quadras de casa, na minha rua, na frente da casa de um amigo.

Só uma pessoa soube o que aconteceu, na época não falávamos sobre abuso, assédio, violência, nada disso. Apesar de todas passarmos por diferentes situações horríveis e traumatizantes. E de todas nos sentirmos muito culpadas.

Por isso essa temporada foi tão marcante, pois a conversa que as meninas têm, numa homenagem ao Clube dos Cinco, aponta para algo que já sabemos, mas não falamos: mesmo sendo todas diferentes, o que nos une é o fato de sermos sempre alvo. E é a partir dessa consciência que surge a cena mais marcante da temporada, num momento potente de “Nós por nós”.

A força dessa imagem me encheu de felicidade, pois é do nosso movimento coletivo que se pode construir um caminho de existência nesse mundo que nos quer eternamente subjugadas, violentadas e mortas. Se eu, que venho de outro século, já entendi isso, espero que as adolescentes que estão crescendo com a primavera feminista percebam com mais facilidade que o caminho precisa ser construído por todas nós, juntas.

Essa força já tinha sido representada na 15ª temporada de Grey’s Anatomy, mas acredito que Sex Education tem uma entrada maior entre jovens e adolescentes, possibilitando que meninas que passam por isso todos os dias percebam que superar essa violência a que estamos sujeitas passa por falar sobre, por buscar ajuda e por apoiarmos umas às outras.

Se ainda pretendemos “marchar até que todas sejamos livres”, que possamos trazer isso para as nossas relações diárias, construindo esse “nós por nós” de uma maneira diferente.

Ps: todas essa reflexão passa pela boa e velha (e batida) discussão sobre a sororidade. Como a Srta. Bia desativou o blog e o maravilhoso texto “porque não transo sororidade”, deixo aqui pra vocês um compilado do importante debate que rolou lá pelos idos de 2013 sobre os usos do termo.

Bjos.

http://luna-is-the-queen.blogspot.com/2013/08/sororidade-101-sobre-feministas-brancas.html

História de um Casamento

Foi num sábado de manhã, de ressaca e já chorando de TPM, que resolvi assistir ao filme. Havia lido os comentários de quem adorou e de quem odiou e estava curiosa para ver a elogiada atuação dos protagonistas. Também tinha lido que a história não era tudo isso, então sabia que não iria passar mal, como já aconteceu com tantos outros dramas que eu assisti. Depois do surto do meio do ano, quando abri a caixa de Pandora assistindo ao mesmo tempo After life e Boneca Russa, decidi ser mais cuidadosa. (Aliás, essas séries deveriam vir com trigger warning, como 13 reasons.)

Chorei, é claro, mas fiquei tão decepcionada com a construção do roteiro que cheguei a conversar com amigues do Clube das Desquitadas para tentar identificar o incômodo que estava sentindo. Começa pelas cartas que escrevem um para o outro. Em um processo de separação não sobra nada de bom, só desprezo e a descoberta de que a outra pessoa nem gostava de você. Talvez gostasse de quem você foi um dia, aquela figura idealizada, mas com certeza não da pessoa que você se tornou durante a relação.

A cena que mais se aproxima do que vivemos em uma separação é a da discussão. Só que não é um momento de catarse após o qual tudo se acerta. São milhares de momentos horríveis e violentos, intermináveis, intercalados com choro e desespero.

Então, percebi que o incômodo não se deu pelo que foi narrado sobre a separação, mas o pelo que não foi. Tudo o que não está lá: a vergonha, a humilhação, a decepção, o ódio, o nojo, a traição, a agressão, as mentiras, a manipulação, a dor dilacerante, a alienação parental, a ideação suicida.

Mesmo quem não tem filhos passou por variações desse script de término. Faço parte de uma geração de mulheres que carregou nas costas o casamento, o marido, a responsabilidade afetiva, a exclusividade monogâmica. Essa carga nos colocou num lugar de chata, bruxa, megera, louca, alguém pouco amável, sem atributos positivos. Na maioria dos casos, nos colocou no lugar de mãe mesmo. O que é medonho, óbvio.

Sair do lugar da mulher que carregou, afetiva e financeiramente, uma relação até o fim demanda um percurso de superação e de reescrita de si que é lento e sofrido. Quem eu era e quem eu sou agora? Quem eu quero ser? Quem eu não quero mais ser? O que sobrou de mim?

É preciso um bom acompanhamento terapêutico para enfrentar esse processo sem enlouquecer. E a consciência de que serão muitos e muitos anos para que aquele final feliz ali, com pessoas adultas, maduras e responsáveis que priorizam o respeito, possa realmente ser alcançado. Mas, voltamos ao básico: it takes two to tango.

Você só pode fazer por você.

Então faça.

Ano passado eu morri

Ano passado eu morri, esse ano morri de novo. Eu tenho morrido há tanto tempo, de amor, de tristeza, de cansaço. Achava que o pior já havia passado, após a separação, mal sabia que os problemas de fato estavam apenas começando. Lidar com um coração partido, o diagnóstico do filho, o corpo falhando, o descalabro da política nacional. Nada me preparou pra decepção, pra dor, pra raiva, pro medo.

Enquanto fui vivendo o caos, um dia depois do outro, fui observando minhas fraquezas (perceber-se um corpo frágil dá um senso todo novo de falibilidade) e a pouca ou nenhuma capacidade que tinha, na época, de resolver os infintos problemas que se acumulavam. Eu realmente achei que ia morrer, em vários momentos diferentes.

Mas não morri, pelo menos não fisicamente, mesmo que várias partes minhas tenham morrido. Ao mesmo tempo, essas muitas mortes permitiram viver outros sentimentos e outras possibilidades, a começar por ser honesta comigo mesma. Entrei de cabeça na terapia e, após um encontro extremamente potente, abri a caixa de Pandora de tudo o que estava guardado esse tempo todo. Foi horrível e assustador, mas absolutamente fundamental para que eu avançasse existencialmente.

Decidi me recolher afetiva e sexualmente e estando sozinha pela primeira vez em décadas pude me enxergar por outros prismas, inclusive com relação a todo o meu sofrimento, suas causas, e também o fato de que a dor já não dói do mesmo jeito.

Então, mesmo me arrastando cheguei ao fim do ano com um forte senso de prioridades e sabendo o que precisa ser feito. Sei o que quero e o que não quero, o que devo fazer e quais riscos posso assumir. Viver tem sido um eterno recomeçar, numa narrativa sem script, após tantas e tantas mortes.

É claro que é difícil pensar em recomeços quando a necropolítica apocalíptica nos atropela a todo momento. Mas eu confio em quem está ao meu lado, porque se há algo que eu cultivei nesses últimos anos foi a amizade de pessoas absolutamente incríveis e fundamentais. É com elas que eu caminho, com música e poesia, cachaça e afetos.

Então, talvez quem sabe, eu não precise morrer de novo em 2020.

Amor-Navio

Notas sobre A banda – Carlos Drummond de Andrade

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O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Carlos Drummond de Andrade

Correio da Manhã, 14/10/66

Disponível em: http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_drummond.htm

Light

Sexta-feira é dia de trazer o caçula na terapia. Enquanto espero na salinha ouço a rádio light que toca os sucessos de ontem e de hoje e flano nas redes sociais, tentando encontrar o que há por trás dessas vidas tão perfeitas. Já não choro mais, mas viver ainda é uma batalha incessante. Agora toca Forever Young e penso que, às vésperas de fazer 45, me sinto matusalênica, mesmo ainda estando à espera da era da sabedoria, porque nunca saí da era das dúvidas. Quase meio século de incertezas, esse cansaço infinito, mas hoje é dia de dançar, faz sol lá fora e aqui dentro talvez já dê para abrir a janela e começar a respirar.

Perfeição

Alguém deveria nos contar que as grandes coisas não existem. Que os moinhos de vento estão em todos os lugares e que cada pequeno feito é uma importante vitória.
A megalomania da vida online faz com que cada refeição, cada beijo, cada pôr-do-sol seja uma experiência mágica, única. E seguimos vivendo na saturação de imagens, gostos e experiências – todas únicas, infinitas e publicizadas. Toda a simplicidade das pequenas coisas – as verdadeiras – que ocorrem no silêncio e no vazio da vida se perde nesse grande show pirotécnico do virtual.
Quanto a mim, que sou do século passado, cada vez mais é no pequeno, na minúscula vitória de cada dia, que me realizo e concretizo. A guerra dos últimos tempos tem sido contra a “perfeição”. Tenho perdido várias batalhas, mas são essas derrotas que me permitem continuar.
Hoje, por exemplo, foi dia de costura. Tudo sob controle até chegar nos pontos manuais. Tortos e assimétricos. Como eu sou, como a vida é. O primeiro impulso é desmanchar e começar de novo. Às vezes até faço. Hoje não. Estou me acostumando com o processo e com todas as maravilhosas imperfeições da vida.
Costurar me traz paz, me enche de afeto e me proporciona essas pequenas vitórias. Não é importante pra ninguém.
Só pra mim.

♪♫ This is ground control to major Tom ♪♫

Uma tese de fracasso

O Facebook me lembra que lá se vão dois anos de defesa da tese e ainda não consigo “comemorar”. Nem deixo de me surpreender quando me chamam de “doutora”, tão pouco importante o título é para mim. Quando entrei no doutorado, em 2013, estava no auge da potência revolucionária – mesmo já tendo me desiludido com a “militância” , bem como lidava com um processo intenso de autotransformação que começou com a Marcha das Vadias, em 2011.

Nomear-me vítima-sobrevivente no encontro com o feminismo teve um efeito fulminante na minha vida, nunca mais pude ser a mesma. Mesmo tendo sido positivo e libertador, em inúmeros aspectos, viver a mudança também tem sido extremamente doloroso. Eu sempre pensei minha vida como uma sucessão de fases, muito relacionadas aos lugares onde morei. Com a vida adulta, os filhos e o trabalho, as fases se tornaram muito mais processos internos. E a fase do doutorado está sendo mais longa do que o previsto. Começou antes da entrada no PPG e, passando pela defesa e pelo divórcio, ainda não terminou.

Talvez por isso ainda seja tão difícil.

Sobre a vida, ainda não me recuperei, tudo acontecendo como avalanche nos últimos anos. Mas sei que o pior já passou, porque agora entendi o funcionamento desse novo modo de viver – descontrolado e desgovernado. É terrível, óbvio, mas não deixa de ser uma aventura. E sempre, sempre, tenho pessoas incríveis e amorosas ao meu lado.

Sobre a tese, durante 5 min achei que poderia ser socialmente relevante. Lá pela metade do segundo ano percebi que estava escrevendo uma resposta para a minha mãe (que já morreu), o que diz muito sobre tudo o que está ali e que talvez só faça sentido para mim. Algumas pessoas leram, algumas gostaram, teve até gente que citou (!). Mas isso realmente pouco importa. O que importa é que, por causa da tese, escrevi o texto Não me chame de guerreira e esse sim tem sido relevante. Milhares de pessoas leram (e continuam lendo), o que é um tanto absurdo pra minha realidade, e têm encontrado algum tipo de conforto de saberem que não estão sozinhas nesse processo massacrante e desumano que é a pós-graduação.

Já me dou por satisfeita, percebendo que, enfim, a tese serviu para alguma coisa.

No mais, continuo fracassando e postado memes. Em vista das circunstâncias, tá de bom tamanho.

fracassei (2)

Ps: Ainda ontem descobri que, ao contrário do que pensava, eu não sou uma péssima pesquisadora. Só sou uma mulher que trabalha 60 horas semanais, tem dois filhos e, nos minutos que sobram, faz pesquisa. Ainda vou escrever sobre isso.

Sommelier de memes

Sempre que vou falar de assuntos que envolvem questões tecnológicas gosto de lembrar para as pessoas que sou uma criatura do século passado, historiadora, formada para trabalhar com artefatos materiais para todo o sempre.

Muita gente mais nova não entende bem isso, só quando explico que sou do tempo da TV em preto e branco e vi surgirem o telefone sem fio, o videocassete, cd player, discman, 486, internet discada e o falecido orkut (sdds). Gosto de contar de quando eu trabalhava com sistemas de informação no Tecpar e tudo era mato na internet – leia-se chat e email.

Minha relação com memes começou no Facebook, quando descobri o que era a cibercultura e que se podia estudar as aleatoriedades que a gente postava/produzia online. No começo não entendia muito como funcionava e, principalmente, qual a utilidade daquela coisa meio tosca e sem sentido que parecia ser só meio que como uma piada interna.

Daí fui entendendo o gene egoísta do Dawkins, a memética, a viralização e as imensas possibilidades da prática de fixar uma ideia em imagem (e texto). Aí sim comecei minha coleção de memes, como uma curadoria de conteúdo e forma de propagar não só ideias, mas também sentimentos.

Vejo ainda muita gente que não entendeu a linguagem digital e critica o meme como fútil e leviano. Mas é interessante olhar também como nós que vivemos no Brasil nos apropriamos dessa expressão cultural. Porque o humor é a melhor maneira de lidarmos com o absurdo da vida e é a precariedade que faz com que a gente não desista nunca, mas principalmente, ria da própria desgraça.

E foi aí que me tornei sommelier de memes, porque uni a desgraceira nacional ao meu próprio fracasso. Há quem se dedique ao pensamento positivo, ao mantra de que tudo vai melhorar, mas a minha filosofia de vida é que aqui não é disneylândia, é selva pura e que nada é tão ruim que não possa piorar.

Eu fui me aperfeiçoando na arte de garimpar preciosidades do pensamento negativo, do ridículo, da autodepreciação e da luta pelo equilíbrio e saúde física e mental. Vamos combinar que a humanidade já tá fracassando tem um tempo, que ninguém mais sabe explicar o que é que está acontecendo e que a gente já vem vindo ladeira abaixo há anos.

Então, em plena pandemia, nos abraçamos no compartilhamento de memes para aliviar um pouco o horror da realidade que nos cerca. Reuni várias pessoas apreciadoras de memes, muitas das quais tenho o orgulho de chamar de amigas.

E enfrento o apocalipse de peito aberto, recebendo memes que as pessoas acham a minha cara, são presentes diários de carinho e de cumplicidade de quem se apoia e não se entrega.

E para quem gostou da ideia de uma coleção de memes e ainda não conhece, deixo a dica do Museu de Memes, espaço maravilhoso de preservação desse patrimônio nacional.