#MariKon*

Como uma pessoa antenada nas últimas tendências de consumo e totalmente pautada pelas demandas das redes sociais (#sqn), comecei a assistir à série da Marie Kondo. Férias pra mim sempre foi tempo de arrumação. Professora-workaholic, mãe e faxina-freak, é no mês de férias que tenho tempo de organizar e limpar a vida para dar conta do novo ano letivo. Também sou da geração X, aquela que tinha uma mãe que abria o armário e jogava no chão todas as roupas emboladas e socadas e dizia: só sai quando terminar de arrumar.

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Então não foi realmente uma novidade, mas mesmo que eu não use nada do método, acho a ideia interessante (principalmente pra quem não tem método algum). Faço tudo de forma aleatória e ao mesmo tempo, roupas, sapatos, papeis, muitos papeis, milhares de papeis, livros (obviamente ficam todos, mas pelo menos limpos e organizados). Agora não tenho mais garagem, mas estou abrindo espaço no apartamento para poder trazer o que ainda ficou na antiga casa.

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Enquanto vou organizando o que vai e o que fica, vou pensando no espaço que é preciso abrir para que o vazio finalmente exista. E em tudo o que tenho aprendido nesses últimos tempos. A fazer as coisas de maneira diferente (nem que seja para quebrar a cara de um jeito novo e não do mesmo jeito das últimas 384743 vezes). A dizer NÃO para o que não quero, não tenho vontade – tempo ou interesse, não posso e/ou não devo (muitas vezes ainda me sinto culpada, mas essa é outra fase a trabalhar). A aceitar minhas limitações e, principalmente, a me ouvir e me acolher. A saber que eu fiz o melhor que podia, mesmo não tendo sido o suficiente. E a agradecer.

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Aliás, tem um monte de coisas que eu não agradeço. Guardo porque fazem parte de sentimentos não elaborados e, na maioria das vezes, não superados. Ainda tenho guardadas todas as minhas agendas e cartas e um dos momentos de arrumação foi olhar para todo esse passado e ver o que é que ainda existe daquela pessoa que se fez no século passado. Além de perceber que eu também fui uma péssima pessoa tantas vezes (nenhuma novidade aí, mas é meio desconcertante quando a coisa grita na sua cara) também senti que, finalmente, é possível reconstruir algumas memórias. Ressignificar algumas dores e reescrever algumas histórias permite que o passado se mantenha como matéria viva, porém sem assombrar ou doer. Essa foi uma vivência muito potente do ano passado e se mantém, agora como um hábito e não mais como uma surpresa. Ao final de tudo, a síntese. Mesmo tendo abandonado a prática dos rituais, há um do qual não abro mão: queimar. Como não podemos tacar fogo em casas ou pessoas, ficamos com a opção de simbolicamente expurgar no fogo o que nos fere. Para mim funciona.

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Outro ponto importante que fica óbvio cada vez faço a Marie Kondo, ano após ano, é o fato de que, sim, toda a carga mental da família (mesmo não sendo mais uma família) é minha. Já tenho trabalhado isso na análise há algum tempo, mas é impressionante como o acúmulo de responsabilidades e de trabalho emocional se soma ao fato de que ninguém na casa, além de mim, sabe nem onde estão seus próprios documentos. É exaustivo, óbvio, mas também extremamente debilitante para as pessoas envolvidas, que se tornam incapazes de organizar e gerenciar a sua própria vida. O fato de que a parte que me cabe nesse latifúndio é um sintoma de um fenômeno social não muda nada. Tenho visto minhas amigas num mesmo movimento de sobrecarga e acúmulo de funções, trabalhando, estudando, cuidando dos filhos e da casa. Todas exaustas.

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Algumas optaram por mudar a estrutura das relações, o que é um movimento que depende também das pessoas envolvidas. It takes two to tango, já sabemos, e dançar sozinha acaba sendo frustrante e nos mantendo no mesmo modus operandi de sempre. Não há como obrigar a outra pessoa a compartilhar as responsabilidades se ela não tem interesse ou vontade. O #porramaridos mostrou bem como é difícil. Outras decidiram (por inúmeros motivos, é claro) que não valia mais a pena permanecer em uma relação na qual não se constrói em conjunto.

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Não importa qual a vibe, acho que o fundamental é estarmos atentas aos nossos sintomas. É difícil existir no caos completo, mas também uma vida rigidamente regrada se torna uma prisão. Para mim separar, avaliar e ordenar as coisas físicas tem permitido um balanço acerca do ponto em que me encontro. O que me trouxe até aqui? O que ainda é importante que permaneça? O que não serve mais? Há coisas que são constitutivas, como base de fundação mesmo, e que permanecerão provavelmente por muito tempo. No entanto, há tantas outras que deixaram de ter sentido com o passar do tempo, que mudaram de significado ou perderam mesmo, se tornando vazias. Tem sido bem interessante viver esse processo. Recomendo.

 

*Sim, eu sei que a réxitégui é KonMari, mas pelamor MariKon é excelente.

3 pensamentos sobre “#MariKon*

  1. Carga mental realmente é a parte mais complicada. Podemos arrumar tudo, mas sem dividir de fato as decisões continuamos no mesmo ciclo. Achei bem interessante como a série da Marie Kondo mostra esse lado, esse peso que recai geralmente sobre as mulheres

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