Sommelier de memes

Sempre que vou falar de assuntos que envolvem questões tecnológicas gosto de lembrar para as pessoas que sou uma criatura do século passado, historiadora, formada para trabalhar com artefatos materiais para todo o sempre.

Muita gente mais nova não entende bem isso, só quando explico que sou do tempo da TV em preto e branco e vi surgirem o telefone sem fio, o videocassete, cd player, discman, 486, internet discada e o falecido orkut (sdds). Gosto de contar de quando eu trabalhava com sistemas de informação no Tecpar e tudo era mato na internet – leia-se chat e email.

Minha relação com memes começou no Facebook, quando descobri o que era a cibercultura e que se podia estudar as aleatoriedades que a gente postava/produzia online. No começo não entendia muito como funcionava e, principalmente, qual a utilidade daquela coisa meio tosca e sem sentido que parecia ser só meio que como uma piada interna.

Daí fui entendendo o gene egoísta do Dawkins, a memética, a viralização e as imensas possibilidades da prática de fixar uma ideia em imagem (e texto). Aí sim comecei minha coleção de memes, como uma curadoria de conteúdo e forma de propagar não só ideias, mas também sentimentos.

Vejo ainda muita gente que não entendeu a linguagem digital e critica o meme como fútil e leviano. Mas é interessante olhar também como nós que vivemos no Brasil nos apropriamos dessa expressão cultural. Porque o humor é a melhor maneira de lidarmos com o absurdo da vida e é a precariedade que faz com que a gente não desista nunca, mas principalmente, ria da própria desgraça.

E foi aí que me tornei sommelier de memes, porque uni a desgraceira nacional ao meu próprio fracasso. Há quem se dedique ao pensamento positivo, ao mantra de que tudo vai melhorar, mas a minha filosofia de vida é que aqui não é disneylândia, é selva pura e que nada é tão ruim que não possa piorar.

Eu fui me aperfeiçoando na arte de garimpar preciosidades do pensamento negativo, do ridículo, da autodepreciação e da luta pelo equilíbrio e saúde física e mental. Vamos combinar que a humanidade já tá fracassando tem um tempo, que ninguém mais sabe explicar o que é que está acontecendo e que a gente já vem vindo ladeira abaixo há anos.

Então, em plena pandemia, nos abraçamos no compartilhamento de memes para aliviar um pouco o horror da realidade que nos cerca. Reuni várias pessoas apreciadoras de memes, muitas das quais tenho o orgulho de chamar de amigas.

E enfrento o apocalipse de peito aberto, recebendo memes que as pessoas acham a minha cara, são presentes diários de carinho e de cumplicidade de quem se apoia e não se entrega.

E para quem gostou da ideia de uma coleção de memes e ainda não conhece, deixo a dica do Museu de Memes, espaço maravilhoso de preservação desse patrimônio nacional.

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