Gente

Bom dia, Helena, mando notícias do front, Murphy anda abusando da dose, como sempre, ano passado eu estava na mesma, socorro. Talvez para fazer valer os bons momentos, que têm sido ótimos, sempre me surpreendo com o quanto sou amada, mas odeio essa ideia de que há alguma lógica de compensação no carma ou que pra ser feliz precisa sofrer. Pode ser mercúrio retrógrado, mas também pode ser consequência das péssimas escolhas que tenho feito ao longo da vida. Eu estava indo tão bem, achava mesmo que ia dar certo, mas não deu e esse apocalipse todo o dia e toda a hora cansa, por favor, já estou exausta.

Estudei muito tempo em escolas católicas e, para além da culpa cristã que encalacra na gente feito carrapato e não sai nunca mais, aprendi tudo sobre justiça social. A gente assistia Pixote e entendia que aquela realidade precisava acabar, mesmo que houvesse pouca gente fazendo algo de concreto para. A gente aprendia que as pessoas morriam de fome e que morrer de fome era horrível, a miséria precisava ser combatida. A gente aprendia que era preciso ajudar ao próximo e mesmo que houvesse um tanto de caridade vazia ali, havia também o entendimento de que aquelas pessoas que morriam de fome eram gente. Quando foi que deixamos de ser gente, Helena?

Naquela outra vida que vivíamos antes do fim do mundo eu ia para São Paulo para ver shows e visitar museus. Imagine só, parece um sonho. Então, em 2018, estive no Masp e vi um Jesus com cara de meme, não fotografei porque não sou dessas, eu guardo tudo na memória fotográfica que não me permite partilhar imagens. Vi também os retirantes de Portinari e me lembrei de Asa Branca e só deixo o meu Cariri no último pau de arara e a seca no nordeste e a Sudene e todo aquele horror que foi viver no século 20. Tinha outras coisas maravilhosas, Helena, você sabe disso, mas tinha a fome. Então eu chorei ali mesmo no museu, porque nós tivemos o Lula, que errou tanto mas acabou com a fome e só isso já devia ser o suficiente. Porque de repente as gentes eram gentes de verdade, sabe?

Mas agora a gente não é mais gente, as pessoas horríveis venceram e o sinal está fechado pra nós que já estamos velhas demais pra tudo isso, cansadas demais para aguentar saber que tem quem submeta a própria mãe a experimentos médicos, somos todas cobaias desse laboratório de horrores que virou o Brasil, as pessoas todas aceitando tudo, acreditando em tudo, vivendo essa vida de gado, povo marcado e povo feliz. Eu choro de tristeza e de exaustão e de frustração e impotência e quero morrer cada vez que alguém vem medir a temperatura no meu pulso. No pulso.

Mas aí eu penso que ainda é tempo de morangos, a primavera está florescendo e amanhã vai ser outro dia, espero que ďê, Helena, porque hoje não está dando. Sim, tpm e saudade e um desânimo que olha, vou te contar. Pode ser falta de álcool também, você bem sabe, o vinho tá ali esperando. Seguimos.

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