Achatamento

Eu tenho grandes ideias, imensas, beiram a megalomania. Eu acho que o mundo sempre pode ser mais, você pode ser mais. Eu poderia, não fossem a tristeza e os boletos. Mas acabei sendo, contra todas as probabilidades. Penso no universo infinito, nos bilhões de pessoas nesse planetinha minúsculo. E acho que podemos ser mais. Durante um tempo me ocupei do achatamento da realidade, incomodada que estava com tudo e todos que querem que sejamos menos. Criei um grande construto teórico, imenso e megalomaníaco como eu, sobre como nossa realidade estava sendo achatada pela experiência pós-moderna. Passei uns dois anos matutando sobre isso, e apresentando minha grande teoria para turmas assustadas com a amplitude desse real que é inalcançável para tanta gente.

Só agora me dei conta de meu próprio achatamento. A tristeza e os boletos me reduzindo a uma coisinha insignificante, um pacotinho de trauma em posição fetal. De novo. Eu me pergunto quanto tempo mais poderei achatar assim e voltar ao tamanho normal, imenso como minha megalomania, mesmo que contida nesse mini corpinho. Eu estive imensa por um tempo, um universo inteiro, mas fui perdendo a força, o viço, e as palavras. Foi só quando elas me deixaram que percebi o tamanho do estrago. Os livros não escritos que habitam a minha cabeça e os meus post-its, todos indo embora em uma marcha fúnebre. Recebo textos em listas de transmissão, em mailings, mas também em envios individuais, escolhidos a dedo. Vejo as palavras dançando uma dança que não é minha. Elas não mais me pertencem. Meu mundinho confinado entre quatro paredes. Achatado como aquela realidade outra.

Sinto saudades de ser imensa.

2 pensamentos sobre “Achatamento

Deixe uma resposta para thaycaz Cancelar resposta