A Boa Moça

O discurso da boa moça tem sido uma tecnologia de controle da mulher desde sempre e quanto mais eu leio sobre história e ondas do feminismo, mais me incomodo com a permanência dessa narrativa e seus desdobramentos. Obviamente, hoje há uma sofisticação na subjetividade do que representa ser uma “boa moça”, pelo menos do lado de cá. Do lado de lá, apenas para demarcar, o discurso é curto e grosso: seja submissa, obedeça, cumpra o seu papel social. Não há nuance alguma, fácil seguir esse script.

Para nós, feministas e empoderadas, os aparatos de controle têm que se desenhar de outra forma, com outros elementos. Vejamos:

A boa moça é branca, heterossexual e, é claro, cisgênero. Esse é o nosso ponto de partida. Se você não cumpre algum desses pré-requisitos, tem que compensar com outros tão importantes quanto.

O principal deles, é o esforço. Não basta ser escolarizada, tem que mostrar que se esforçou muito, que foi a melhor da turma, uma aluna exemplar. Deus me livre se você disser que reprovou de ano, que matou aula e colou na prova. Caso seja esse o caso, não comente, deixe para trás seu passado de contravenções e ressalte que agora é uma profissional de respeito, principalmente se atuar na área acadêmica.

O esforço também está presente no autocontrole, do corpo e da mente. Você pode ser forte, mas precisa ser cordata. Precisa controlar seus humores e seus desejos, para não se afastar da imagem de ser uma “mulher difícil” ou, muito pior, uma “mulher fácil”. A mulher difícil é grosseira, antipática, mal comida, tem cara de poucos amigos. A mulher fácil é promíscua, descontrolada, vulgar. Só a boa moça tem salvação.es

Junto com o esforço, está a excelência. A boa moça é uma excelente mãe, uma excelente esposa, uma excelente amiga. Ela não precisa se destacar muito, mas precisa agir com perfeição. A mulher de César não basta ser honesta, sabemos bem. Não querer te filhos ou não achar que a reprodução é o grande destino da mulher, não faz de você uma boa moça. Não ter uma boa frequência afetiva, não ser sociável, achar que trabalho é só trabalho ou que capitalismo e sexismo andam juntos, pega mal demais.

A boa moça cuida da aparência e da alimentação, faz atividade física, a terapia em dia, a autoestima sempre lá em cima. A boa moça é feminista e feminina, tem uma sexualidade bem resolvida, mas não faz alarde sobre isso, porque aprendeu a ser sexy sem ser vulgar. Ela não bebe além da conta, não manda nudes nem sensualiza nas redes sociais, afinal ela se dá ao respeito. A boa moça ama a vida e as pessoas, luta por um mundo melhor e está do lado certo da História mas não incomoda ninguém, por favor.

Nem pensar em discutir abertamente sobre saúde mental e o quanto a vida é insuportável para quem não é, nem nunca foi, uma boa moça. Falar sobre o inferno que é conviver com o homem branco cishet, que passa metade do tempo tentando te diminuir e outra metade tentando te comer. Sobre conviver com o machismo, o racismo, o sexismo, a transfobia, a lesbofobia, a bifobia, a putafobia, o intelectualismo, o elitismo, porque não importa de onde vem a crítica, se você não é uma boa moça, você está errada.

As mulheres que não são boas moças ocupam as margens dos círculos sociais. São excluídas dos espaços e afetos, têm visibilidade apenas como objetos de pesquisa. Todo mundo adora pesquisar porque as boas moças nunca serão boas moças. Toda a história do conhecimento humano aí para reforçar essa ideia. Nos livros, só as boas moças aparecem.

Todo mundo adora uma boa moça.

Um pensamento sobre “A Boa Moça

  1. Verdades bem articuladas. So não enxerga quem não quer ver. Sobre isso, Jose Saramago disse melhor do que eu: “A pior cegueira é a mental, que faz que com que não reconheçamos o que temos a frente.”
    Continue, por favor, com seus textos, a ajudar a reduzir a cegueira.

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