Mais uma braçada

Bom dia, Helena, o sol voltou para secar o mofo e repor a vitamina D, toda a vida reorganizada em torno desse fato, afinal em Curitiba nunca sabemos quando essa benção acontecerá de novo. Meu chuveiro queimou pela terceira e já nem me abalo, tantas coisas mais urgentes. Ontem assisti Nyad, cinebiografia com Annette Bening e Jodie Foster e fiquei tão feliz de ver rostos enrugados na tela. Tudo bem que são rostos da faixa dos sessenta, mas para quem envelhece com Cher e Madonna, é bom demais se reconhecer na estética maracujá de gaveta. Assim como o chuveiro, as rugas já estão em 15º plano, porque a atividade física me deixa tão atropelada que não dá para pensar em mais nada. Trocar uma dor por outra, não imaginei que pudesse funcionar tão bem a essa altura do campeonato. Senti uma falta imensa da minha mãe, ao ver aquele corpo velho de maiô, um corpo igual ao dela. “Quero a minha mãe”, disse esses dias para o Tom, e ele me olhou surpreso e incrédulo. Tive que explicar que sim, existe essa sensação de querer algo que não se tem e nunca se teve. Em todos os momentos de crise eu penso num colo de mãe imaginário, visto que a minha mesmo nunca me deu nada além de críticas e “levanta e vai resolver isso aí”. Tento, sempre que possível, explicar sentimentos e ações, principalmente as que envolvem a maternidade. Que ele nunca duvide que as merdas que faço são para evitar a qualquer custo as merdas que fizeram comigo. Semana de aniversário e aquela sensação de nada a comemorar, o que é uma grande mentira, mas estou tão cansada que não consigo mais nem desenvolver as camadas todas das minha vida. Lembrei da fala do filme: só mais uma braçada, me dê mais uma, você consegue. É o que temos pra hoje. Soube que a luz voltou por aí, Helena, que seja literal e metaforicamente, porque ninguém aguenta mais tanta desgraça.

Um pensamento sobre “Mais uma braçada

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