Uma resposta para Simone

Eu gosto muito daquele texto (que não é do Drummond) que fala sobre fatiar o tempo, dividir em doze meses um ano como forma de não sucumbir nem entregar os pontos. Gosto da ideia de uma esperança industrial que, em cadeia produtiva, vem se renovando e movendo o ciclo da vida, criando espaço para um respiro que seja, um moto-contínuo que permite alimentar a coragem de existir. É como um pacto que faço com a vida, esse de não desistir e de seguir tocando o barco, buscando ser mais e melhor, ou buscando apenas ser, o que já é mais do que suficiente, porque é a mudança que alimenta o viver, aquele primeiro passo que preciso dar para me colocar em movimento, mesmo sem saber qual rumo tomar.

Durante anos fiz listas de metas, todas aquelas conquistas que precisava para me completar, como se o vazio pudesse ser preenchido com a matrícula na academia, um novo corte de cabelo, um novo emprego ou um novo amor. Essa esperança industrial carregando um produtivismo exaustivo, porque pôr-me em movimento incluiu cumprir um script que me foi dado pela capa da revista afirmando que se não cumprisse a meta – ou dobrasse a meta – não seria feliz. E assim, nesse tempo fatiado, fui acumulando listas de coisas que não fiz, que não conquistei, que não consegui, desistindo de um pouco de cada sonho, metas não cumpridas se acumulando no cantinho de uma vida não vivida. Aquele sucesso que está a um passo de ser atingido, mas nunca é, nem nunca foi, porque não foi desenhado para ser. E nem percebi, empenhada que estava em seguir esse roteiro que não escrevi, nem era meu, queria tantas outras coisas, a maioria delas ficou pelo caminho, já nem lembro mais.

Mas se continuo girando em torno do sol foi porque viver não cabe na capa da revista, nenhuma história contada ali é a minha história e tenho tantas, tão lindas, muitas tão tristes, sempre verdadeiras mesmo quando achava que não. Cumprir o script foi só uma etapa do percurso, trabalho, família, cachorro, gato, galinha, tantas conquistas que valeram tanto e continuam valendo, parte constituinte de quem sou.

Em 2018 não houve script, nada que pudesse servir como guia (mesmo que péssimo) para o existir. Segui dia após dia carregando um coração dilacerado, sangrando, o mundo em minha volta ruindo, uma dor aguda latejando a cada passo. Foi tão doloroso que achei que não fosse aguentar, deixando uns pedaços pelo caminho, me esvaindo, aquela mão apertando o peito, quase sufocando, nem a boa e velha esperança industrial para me confortar. Como Clarice, tenho caminhado no deserto há muito tempo, acostumada com a sede de quem já bebeu a última gota de água. Embrulhei, inclusive, meus melhores sentimentos em papel de presente colorido, um cartão transbordando amor escrito à mão. Não foi suficiente, nunca é.

Então, Simone, eu queria te contar que nesse ano escabroso eu descobri o meu super poder, esse mesmo que me trouxe até aqui. Minha resiliência me manteve alive and kicking, vivendo uma vida linda e inesperada. Pois de repente eu me vi cantando que a felicidade é uma arma quente, pude dizer não para o que me fazia mal e abraçar uma existência sem roteiro. Enquanto meu presente permaneceu fechado e embrulhado, um destinatário não encontrado, eu recebi tantos outros. Alguns vieram em pacote de pão, como aquela garrafa de bebida que se intenta esconder, sem enganar ninguém. Outros vieram na sacola do mercado, com o preço pendurado. Uns tantos vieram sem pacote mesmo, um post-it dizendo “pensei em você”. Continham poesia, abraço, afeto, presença, música, silêncio, festa, beijos, amizade, amor. Descobri que estou cercada por pessoas maravilhosas, todas lutando suas próprias batalhas, sobrevivendo como eu. E que é possível trocar, mesmo achando que não tenho nada a oferecer. E eu recebi tanto.

Somos todas sobreviventes, Simone, e o que temos feito é nos mantermos vivas. Acho que está de bom tamanho, porque vivendo descobrimos que (quase) sempre podemos mais.

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