Comidas feias

Minha mãe nunca foi uma boa cozinheira, daquelas de mão cheia, sabe? Aprendeu a cozinhar depois de casada, porque sempre teve quem fizesse a comida na casa da minha avó. Depois de um tempo, já sabia cozinhar e fazia alguns pratos muito gostosos, principalmente os favoritos do meu pai. Aprendeu culinária maranhense e nos ensinou o básico.

Eu sempre gostei de cozinhar e aos 15 anos já conseguia fazer um almoço completo e alguns pratos mais sofisticados que eu via na televisão. Exercitava meus dotes culinários nos almoços de família e, principalmente, para os namorados. Muitas receitas especiais para almoço/janta e também lanche/sobremesa. Salgados e doces, eram comidas lindas e gostosas.

Até casar, ter dois filhos e ter que cozinhar todos os dias. E separar e decidir que nunca mais ia cozinhar pra macho. Aí os primores gastronômicos foram substituídos por arroz/feijão/mistura. Que é a base da nossa alimentação até hoje, mesmo sendo vegetariana há anos. Para a comida do dia-a-dia não há tempo para firulas. Há muita invenção no manejo de 4 a 6 panelas e mais alguma coisa no forno. Queima, fica esquisito, cru, passa do ponto. Fica feio.

Com o tempo fui desaprendendo de fazer comidas bonitas porque o mais importante era alimentar e não perder a hora. As comidas são gostosas e nutritivas, saudáveis, feitas com bons ingredientes. Alimento. Mas são comidas feias.

Os doces, então, desaprendi muito. Suja tudo, acaba rápido, não tenho paciência. Mal como, porque prefiro mil vezes comida salgada. Mas os meninos adoram, lógico. Então faço. Queima, fica esquisito, cru, passa do ponto. Fica feio.

Ás vezes acerto e aí parece que o universo se encaixa e tudo passa a fazer sentido. Sim, amor é trabalho não pago, maternidade e alimentação têm uma carga imensa psicanalítica, há arquétipo, construção social, carga emocional, trabalho afetivo e compulsoriedade no ato de cozinhar para os filhos.

Mas passei por anos terríveis de alienação parental com o Tom e esse é um caminho possível de aproximação. Na reconstrução do nosso relacionamento, a comida tem ocupado um lugar importante. Ele se esforça para gostar de novos sabores, eu me esforço para entender que precisa ser gostoso.

E assim, seguimos, isolados e confinados, cozinhando e comendo. E esses dias vivemos um momento mágico. Fizemos um bolo perfeito. Bolo de pacote, baratinho, de churros. Ele colocou todos os ingredientes no liquidificador, untei a forma nova enquanto a massa batia, colocamos no forno e cuidamos do tempo.

Parecia bolo dos programas de culinária que assistimos juntos (sim, a comida é central em tudo isso) e que eu sempre comento: meus bolos nunca ficam assim. Esse ficou. Lisinho, úmido, macio, nem coloquei cobertura. Foi uma festa! Tirei foto na hora, mostrei para os dois, servi os pedaços quentes ainda e estava maravilhoso. O bolo mais gostoso/lindo que fiz na vida.

O Tom narrou a peripécia para os amigos do jogo online: MINHA MÃE ACABOU DE FAZER UM BOLO DE CHURROS PERFEITO! Algum tempo depois a Andrea, mãe de um dos amigos, manda um recado:

Eu gargalhei alto! Amiga, comprei a massa pronta no atacadista, mas comprei só uma porque era tão barata que achei que fosse ser horrível. Terei que voltar lá só pra comprar um estoque do bolo.

E assim surgiu o melhor bolo do mundo. E, sim, eu sei que parte da feiura das minhas comidas vem do fato de que sou uma péssima fotógrafa com uma péssima câmera de celular. Mas isso faz parte da graça da coisa toda.

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