Passado

Aos 15 eu estava lendo Platão e Nietzsche, não entendi nada, mas Ferlingheti sim falou comigo, recitei de cor junto com Blake. Não me tornei mais inteligente por isso, porque também li Sidney Sheldon e Danielle Steel. Que eu seja toda prosa, de leitura longa e lenta, é apenas um detalhe sem maior importância. Porque continuo ininteligível como Deleuze e mesmo que você não conheça esses nomes não há problema algum, pois eles nada dizem de mim, apenas de algo que faz parte da minha história. Assisti aos filmes do Kieslowski, tão importantes quanto Hughes, esse sim o formador de caráter de toda a minha geração. A pessoa que assistiu Alguém muito especial e concordou comigo hoje é apenas a lembrança de um flerte muito mal sucedido e deixo aqui registrado que, nesse caso específico, a conta da paquera fracassada pode ser dividida meio a meio. Sinto falta de quem eu era e olha que nem gostava muito de mim. Mas havia talvez uma promessa, um devir, algo que estava quase. Essa saudade fala de tantos momentos que eu vivi intensamente e de outros que nem me lembro, mas estão marcados em meu passado. Já não suporto mais essa palavra, só não é pior do que futuro porque esse nem sequer existe. Esvazio meu baú de memórias ao longo do caminho, como um carreto de mudanças que se abre e vai espalhando restos de vida por todos cantos. Já passou da hora de viajar mais leve, vou vivendo de letras de músicas e sensações de amor. Mas seu sorriso ainda carrego comigo.

Domingo

Essa história não tem fim, também não tem começo. Poderia ser o dia em que nasci, mas também quando minha avó recusou casar -se com o homem que entrava a cavalo no bar. Carrego todas as mulheres que fui e que foram. Um dia eu amei, no outro eu gozei, sinto falta de estar com, de estar em. Mas estar só continua sendo meu maior prazer.

Divago pois há tantas aqui dentro. As páginas do caderno continuam em branco, mas hoje eu declamei uma poesia e isso foi suficiente. Tropeço em meus erros e medos, o fim do mundo tem sido bem assustador. Até para quem é um furacão. Carrego rugas e palavras não ditas. Domingo, o sol se põe, o frio aumenta e a saudade lateja. Não sobrou nada de nós.

O pulso ainda pulsa

Estava lá, com a boca aberta, pensando no tamanho da humilhação de quebrar um dente, isso nunca havia acontecido, mesmo tendo dentes fracos, tudo em mim é fraco. Lembro da última consulta médica, os olhos que nunca enxergaram bem agora estão tão cansados, quem é que não está nadando na exaustão, não há como manter um corpo funcional em meio ao colapso. Um corpo que vai colapsando aos poucos, crises alérgicas, muitas, inflamação, dor, muita, dentes fracos, unhas fracas, cabelos fracos, não há vitamina que dê conta.

Enquanto o dentista escarafunchava minha boca pensei no primitivismo nessa tortura institucionalizada, nos meus óculos que não estão prontos, no último bom dia, no último meme, em como corri para apagar e deletar e excluir e desfazer, achando que assim poderia mais rapidamente fazer desaparecer o afeto, a paixão, o desejo. Como se esse vazio e essa falta não estivessem repletos de presença, enquanto eu recolho os cacos desse coração partido ouvindo de novo aquela música, pensando em que diabos eu tinha na cabeça quando aceitei dormir de conchinha – virtual, eu que nem dividir a mesma cama sou capaz.

Daí que é tanta dor nesse corpo que vem o colapso real, nada é metáfora por aqui, digo e repito. E hoje choro de dor enquanto me sinto mesquinha e egoísta porque é só um dente quebrado, é só um coração partido. E as pessoas morrem, cada dia mais, parece que nunca vai parar esse horror. Então entendo que minhas dores são dores de quem está viva, de quem luta para se manter viva, não há nenhuma lição ou ensinamento nisso, muito menos agradecimento. Não sou cristã para me alimentar de culpa e graça e jamais perdoaria um deus que deixasse que boas pessoas morressem como moscas enquanto os maus, os perversos, continuam no governando. Nem em democracia eu acredito para achar que seja de alguma validade esse jogo sórdido.

Tomo uma taça de vinho para apaziguar a dor, amanhã o dente sara, o coração já não acredito mais, são tantos pedaços estilhaçados tantas vezes que já não há mais o que fazer. Canto canções velhas que me lembram que já vivi uma vida inteira, ou várias vidas inteiras, entendendo que é só tristeza e que em meio a tanta dor e tantos pedaços o pulso ainda pulsa. E isso precisa bastar.