Bidê

Aproveitando a temática dos memes do dia, hoje resolvi ir chorar na faxina. Há muito tempo não fazia isso, desde o auge da pandemia, quando chorar virou uma função básica como respirar ou comer.

Semi intoxicada pelos produtos não autorizados pela Anvisa, acabei fazendo aquela imersão na neurose da limpeza, porque a ordem externa dá sempre uma forcinha no caos existencial. Como esse foi o tema da última sessão da análise, tudo bem latente ali sendo devidamente processado naquela matraca mental.

Vários Insights, sempre.

O primeiro foi sobre a escrita, porque nada como um artigo novo para nos animar a limpar até a alma do banheiro. O bloqueio da escrita atualmente passa pela falta de sentido do ato em si, porque ando rançosa da academia, das redes, da falta de interlocução. Da necessidade de produzir, de pontuar o lattes, publicar, participar de eventos e ter zero retorno, seja profissional ou financeiro. E talvez, pior ainda, da necessidade de ser vista, de manter o networking, de produzir conteúdo, “fazer um nome”.

É a armadilha do capitalismo acadêmico, que caminha coladinho com essa meritocracia existencial, nessa falácia de que se a gente se esforçar muito vai conseguir (insira aqui o que é que vc almeja). Daí vai de signo à religião, de psicologia barata à filosofia barata, aquela vibe coach positive vibrations que te obriga a ver sempre o lado bom das coisas e a parar de ser uma pessoa tão negativa, ninguém gosta de gente que tá sempre reclamando.

Pois eu gosto, reclama mais que tá pouco, poder vir que a central Reclame Aqui funciona 24h por dia, sábados, domingos e feriados. Foi só quando eu cheguei no topo da montanha que vi que nada daquilo fazia sentido e que o caminho até ali só tinha deixado trauma e uma saúde mental em frangalhos.

Eu ando gostando bastante dessa vibe velha louca reclamona, já que a vibe milf excêntrica não sobreviveu às sequelas da covid. Seguimos abraçando as vibes todas, essa nova temporada anda meio esquisita, claramente um ajuste pós-troca de roteirista, aguardamos ansiosas o plot twist que vai me colocar plena and belíssima chorando em Paris.

Enquanto isso, choro no banheiro porque fui chamada na escola e nunca é coisa boa. Nunca é pra ganhar um prêmio de mãe do ano, pra avisar que a cria já passou de ano no primeiro trimestre e pode ir direto pra faculdade. Alguém já foi chamada na escola pra coisa boa? Além do fato de que as reuniões são marcadas tipo pra semana que vem e tem que aguentar a ansiedade batendo com força até chegar o dia de ouvir como você está fazendo tudo errado. Não recomendo.

Por fim, terminei essa minha ego trip descobrindo que o bidê está entupido e não tem nada que faça a gente questionar o sentido da vida como um bidê entupido. Por que diabos ainda existem bidês? Até entendo que existe essa cultura de gente que não toma banho e só lava as partes, mas vivemos na terra do banho, não faz sentido ter um bidê em casa. Uma ducha higiênica resolve emergências menstruais ou fecais, tá ótimo.

Imersa na perda de sentido existencial do bidê me senti o próprio Duchamp criando A Fonte, nada como se sentir muito inteligente para terminar uma faxina bem feita. Eu queria muito ter vivido nos loucos anos 20, e andado com toda essa gente das vanguardas, lá e aqui. Mas vivo agora e não consigo nem acompanhar a Selvática, meu sonho de princesa. Assistam a série Transatlântico.

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