Você decide o parto que quer e pode ter – o nascimento do Ian

Quando soube que estava grávida comecei a rever todas as crenças que eu tinha (oriundas da minha família) a respeito de como gerar, parir e criar um filho. E, das decisões que tomei naquele momento, ficou uma determinação muito grande. Afinal, solteira e sem perspectiva de participação do pai biológico em todo esse processo, não podia me dar ao luxo de “ver o que ia acontecer”.
Assim, lindamente, decidi que eu seria “parideira” como a minha irmã, que teve 3 filhos de parto normal. Nunca passou pela minha cabeça fazer uma cesárea e comecei a me preparar para o parto normal. Pesava na época 45 quilos e usava manequim 36. Primeira questão: vai passar no quadril?
Os médicos que me acompanharam no pré-natal, por sorte, eram todos da linha do parto “humanizado” (dentro dos limites do que era possível na época) e me orientaram “adequadamente”.
Estávamos no ano 2000 e o acesso à informação na rede não era como hoje. Li meia dúzia de livros, fiz yoga para gestantes e as consultinhas básicas: Está passando bem? Tem alguma pergunta? Pesava, media e tchau…
E assim foi, eu estava com 37 semanas, havia feito uma eco para confirmar peso e crescimento. Tinha certeza que ele ia nascer no carnaval, dali à duas semanas. Brincava que ia de odalisca para a maternidade. Na semana seguinte eu iria tirar as fotos de grávida, fazer a depilação, organizar as coisas para o hospital…
Que nada, na madrugada do dia 15 para 16 acordei com um “ploc”… Dormindo ainda, sem saber o que era, acordei minha mãe (estava na casa dela) e fui tomar um banho. Vi que tinha rompido a bolsa. Eram quase 4 horas e as contrações começaram, 15 em 15 minutos. Quando eu saí do banho já estavam de 5 em 5. Ligamos para a Marge, minha irmã, e ela veio de táxi nos buscar. Organizei minhas coisas e fomos no meu carro (e eu ainda queria dirigir! Não, grávida parindo NÃO dirige…). Chegamos ao Hospital Militar às 5:30 e o médico de plantão era um colega de turma, o Vasco. Ele me examinou, estava com 2 de dilatação, e me encaminhou para a internação.
Quando cheguei ao quarto, as contrações já estavam mais intensas. Passei por toda a preparação (horrorosa, diga-se de passagem) do protocolo de parto (que, aliás, eu não fiz). Tricotomia, lavagem… Agora fica aí deitadinha, esperando… Minha mãe e a Marge estavam comigo o tempo todo. Logo meu pai chegou e a Méu, minha irmã do meio, também (os dois só de passagem, pois iam trabalhar). Conversamos, eu disse que estava tudo bem. Como as contrações já estavam muito fortes, elas começaram a fazer massagem nas minhas costa, na altura do cóccix.
Lá pelas 7:30 os médicos chegaram: Márcia, que havia feito o pré-natal, Regiane, plantonista e Rui, chefe da obstetrícia. Eu já estava com 7 de dilatação e a Márcia disse que a primeira medição, feita à 5:30 deveria estar errada, pois tinha aumentado muito rápido. A Méu avisou que na nossa família o TP é rápido, mas mesmo assim a Márcia disse que iria demorar e que voltaria dali à uma hora.
Bom, nem preciso dizer que todo o TP e quase o parto em si foram feitos no quarto. Por um lado, foi ótimo, pois estava na segurança da companhia da minha família, mas por outro eu estava assustada, achando que alguém deveria estar por ali, me monitorando… Outro motivo de medo foi a afirmação da minha médica de que a dor de parto era como uma cólica forte. Ora, eu que tenho super resistência à dor, sabia que ia tirar de letra. Mas quando as contrações de expulsão começaram entrei em pânico, pois achava que não devia sentir uma dor tão forte.
Então, lá estava eu, deitada, às vezes lado, às vezes de barriga para cima, tentando achar uma posição que doesse menos, sentindo, à cada contração aquela vontade de fazer cocô (que só depois soube que era a expulsão) e gemendo e gritando. Chega uma enfermeira e diz: Mãe, a gente sabe que dói, mas gritando assim você atrapalha os outros doentes e a oxigenação do seu bebê… Concentre-se na respiração… (e cale a boca, só faltou dizer…).
Opa, oxigenar o bebê… isso eu posso fazer. E lá fui eu, respiração cachorrinho, segurando a expulsão, sem gritar, deitada, gemendo…
Quando eu achei que ia morrer e comecei a pensar alguém “peloamordedeus” me dê uma anestesia, me faça uma cesárea, socorro, consegui falar pra minha irmã: FAÇA ALGUMA COISA!!!!!!! Só depois ela me contou que não foi um grito, como eu imaginei, mas um sussurro… Ela olhou pra mim, olhou pra minha mãe, e resolveu espiar. Como eu estava pelada, com aquela camisolinha indecente de hospital, toda aberta… deitada de lado, não foi difícil. Eu abri a perna e ela: TÔ VENDO OS CABELINHOS!!!!!!!! Saiu pelo corredor e voltou com uma enfermeira…
Dali para frente foi tudo correria: vários enfermeiros vieram, A Regiane veio, me passaram para a maca e correram pelo corredor até o elevador. No alto falante, eu ouvindo: “Atenção, pediatria, comparecer ao centro cirúrgico com urgência”. Apesar de estar uma correria e todo mundo falando e gritando, pra mim foi tudo em câmara lenta… E eu pensando, que bizarro isso, né, o povo chamando no alto-falante… e eu sendo empurrada na maca…
E veio um medo: estou exausta, não vou conseguir fazer nada, fazer força. Como é que eu vou parir? Será que alguém vai ter que sentar na minha barriga? Não vou agüentar…
Descemos no andar e entramos no centro cirúrgico. Correndo, atrás de mim, entrou a Regiane, esbaforida… Deixaram a maca ao lado da mesa cirúrgica, naquela sala clássica cheia de luzes e tal, e ela disse pra mim: quando tiver vontade de fazer força, me avise. Ela pôs as luvas e falou que iam me passar para a mesa.
Não dá tempo, é agora!!!!!
Ela mal tinha colocado as luvas, pegou um bisturi e zap! Fez a epísio. Fiz a força, achando que ia desmaiar e …
Pluf: o Ian nasceu! Em uma só contração, saiu inteirinho, para os braços da médica!!!
 
Ela fez um exame rápido e o colocou no meu colo… Momento indescritível, que, infelizmente, só quem é mãe conhece… Eu lá, chorando, com ele mamando… Só então chegou a pediatra, para fazer o apgar de 10 minutos. Tudo ok…
 
Fui passada passa para a mesa, a médica toda atenciosa avisando que iria fazer a anestesia para dar os pontos no corte da epísio. Agora? Eu disse, pode costurar sem anestesia mesmo, depois de tudo isso, costurar é o de menos.
 
Foi um parto lindo, perfeito. Fiz todo o trabalho sozinha, a única intervenção foi a epísio, e ficamos juntos o tempo todo. Voltamos para o quarto, ele todo abraçadinho comigo. Só então relaxei e fiz o primeiro contato consciente… E assim nos descobrimos, eu e ele. Nos reconhecemos e nos amamos.

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