Separação

Foi lá pelos meus quinze anos que decidir que não iria casar.
É claro que eu queria, como toda a adolescente, mas os caminhos da rebeldia me fizeram questionar seriamente as finalidades do casamento.
Já naquela época era difícil encontrar casais bem-casados para me espelhar. O casamento dos meus pais, dos meus tios, o namoro das minhas irmãs, das minhas amigas…
Das minhas relações, não vou nem comentar… um fracasso total. Com o passar do tempo,a  coisa ficou mais ou menos assim: se eu não consigo ter uma relação decente (e se os homens não prestam mesmo), só me resta desencanar do casamento…
Só fui mudar essa visão lá pelos 20 e tantos, quando descobri que um primo meu, o qual eu admirava muito como pessoa (homem bem resolvido é avis rara) era muito bem casado. Eu não conhecia bem a sua esposa, mas as histórias que ele me contou sobre a relação matrimonial me mostraram que eles, enquanto casal, funcionavam muito bem.
Já tinham filhos, nessa época. Mas também já tinham festado muito, viajado o mundo e estavam construindo uma casa (quase um  Eduardo e Mônica).

Mas diferentemente da música, eles eram de carne e osso. E foi quando eu soube todos os problemas que eles passaram que eu passei a admirá-los ainda mais.

Porque ninguém conta como sobreviver a longas relações monogâmicas mantendo o “fogo e paixão”. E não, não é seguindo as dicas da revista Nova que você vai aprender sobre isso. É conversando com genteim como a genteim, que compartilha medos e experiências e te ensina a ver o mundo por outro prisma.

Foi numa conversa que tivemos, na praia, que ele me contou que (já fazia um tempo), a mulher tinha se envolvido emocionalmente com outro cara. Nem sei se ela chegou a “consumar o ato”, porque não era esse o ponto ali. A questão era: o que você faz quando descobre que sua mulher está apaixonada por outro?
Não vou entrar na questão feminista-machista do tema, porque esse também não era o foco…
Nada de “aquela vadia” ou “eu acabei perdoando”.
A conversa centrou-se em como o casal chegou à conclusão de que ainda havia muito amor naquela relação e que valia à pena batalhar por ela…

Porque para amar tem que lutar muito… Não espere novela lacrimosa das oito, nem romances hollywoodianos água-com-açúcar. Nada disso existe no mundo da vida.
Aqui, na dura e crua realidade, tem-se que batalhar diariamente, investir, ceder, relevar, entender, lutar, mas lutar muito mesmo. Tem TPM, ciúmes, insegurança, fofoca, crises de auto-estima. Tudo isso e muito mais. Mas também tem amor e compreensão e, o que é mais importante, a certeza de que é com aquela pessoa que você quer compartilhar a vida.

Foi isso que eu aprendi dessa conversa. Passei a admirá-los ainda mais e revi todos os meus conceitos sobre monogamia, traição e essas coisas. Quando se tem uma nova perspectiva é possível criar uma história diferente.

É claro que não é assim tão simples, do tipo: “olha, tenho a fórmula, agora vai ser super fácil!”, mas me ajudou mesmo a repensar um monte de coisas. E proporcionou que eu também construísse uam relação bacana.

Há alguns anos, pouco antes de engravidar do Tom, ficamos hospedados na casa deles. O Júlio, que sabia o quanto eu era fã do casal, entendeu tudo e passou a respeitá-los também. Ele também tem muito isso de olhar à sua volta e procurar “boas influências”. 

Bom, contei essa história imensa apenas para chegar ao ponto importante: o tal casal-sensacional se separou.

No início fiquei frustrada, afinal quem seria o meu modelo? “Olha, eu conheço, sim, um casal bem casado”, como eu costumava falar para todo mundo.
Mas passado o susto, percebi que exatamente por terem se separado é que eles continuam sendo ótimos! Porque significa que, perto de completar 20 anos de casados, perceberam que aquela relação não tem mais razão de existir. O amor acabou? Cansaram de lutar? Cansaram um do outro?

O motivo não importa, a maturidade está no fato de que eles se ouviram e se respeitaram. Continuam amigos, cuidam dos filhos, mas vão seguir suas vidas em separado. Não houve xingamentos, quebra-pau, nem rompimentos eternos. Houve uma decisão consciente, maturada durante um ano inteiro, até ser concretizada.

Para quem cresceu vendo casais se mantendo unidos por convenção social, por dependência emocional, ou por simples pirraça, é bom saber que nas relações de verdade, tem espaço para muita coisa, inclusive, para a separação.

E agora os admiro ainda mais, pois estão construindo a sua existência de uma outra forma, com muito mais respeito.

Um pensamento sobre “Separação

  1. Amei Sis!!!! a Sister disse que vc deveria ter terminado assim: “Agora o meu casal modelo sou eu e o Júlio”. Ela diz que muitas vezes repensou o casamento para ver se não era apenas acomodação, dá mais trabalho se separar; mas a pergunta sempre a ser feita e “ainda existe amor”??? e essa pergunta deve ser respondida pelos dois, segundo ela…. bjsss te amo Sis

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s