Sabbatical

Depois que me separei emendei um affair após o outro, numa sucessão de fracassos amorosos digna de uma boa comédia pastelão. Depois de (mais) um fora e um surto, decidi entrar em um período sabático para desintoxicar e abrir espaço para algo novo, mais ou menos na metade do ano passado. Foi a noção de que eu não ficava sozinha há uns 20 anos, desde a gravidez do Ian, que me acendeu o alerta. Talvez as trapalhadas afetivas em que estava me metendo sucessivamente fossem um sinal de que estava na hora de parar.

Claro que esse insight foi resultado de um trabalho terapêutico intenso, no qual pude identificar essa minha necessidade patológica de estar envolvida afetivamente com alguém. E também o fato de finalmente começar a bancar quem eu sou, sem pedir desculpas por isso.

Veja você, eu me tornei – de alguma forma – uma pessoa admirada pelos outros. Toda essa minha intensidade irritadiça, essa opinião formada sobre tudo a la Raul, esse mini furacão que incomoda e aciona afetos conflitantes fez com que as pessoas me achassem alguém muito interessante.

O problema é que de perto não é tão atraente assim. Cansa, desestabiliza masculinidades e feminilidades e exige mobilização constante de uma série de sentimentos com os quais as pessoas não querem lidar. “Seje menas”, o mundo me diz todos os dias. Como esse não é o meu caminho, sigo de outra forma. E esse não é um privilégio meu. Ainda hoje conversei com uma mulher maravilhosa – sim, um mulherão da porra – sobre o seu cansaço e solidão de ser too much.

Enfim, passei os primeiros meses aprendendo a finalmente estar só e a aproveitar essa solidão. Nunca tive problema em ficar sozinha, mas há algo que o flerte mobiliza que me mantinha – e mantém, ainda estamos trabalhando nisso – em eterno estado de alerta. Continuei saindo, bebendo, dançando e até recebendo pedidos de beijo*, educadamente rejeitados.

Aí chegou o fim do ano, as tão sonhadas férias, ano novo vida nova, e toda a comemoração de deixar 2019 para trás (sim, nunca mais vamos reclamar de um ano). Pensei que já estava de bom tamanho o resguardo, que já estava bem. Ledo engano, a recaída afetiva é como qualquer abuso de substância: zera toda a contagem.

Então retomei o sabático, empenhada em não me relacionar afetiva/sexualmente de novo durante um longo, longo tempo. Mas veio a pandemia, o isolamento e todos os sentimentos bizarros, apocalípticos, que estão deixando todo mundo bem descompensado. Num primeiro momento, com a impressão de que não duraria tanto tempo, o impulso foi fazer uma lista de bons contatos para acionar assim que acabasse a quarentena.

Depois, com o passar dos dias, dos meses, dos ciclos tpm-ovulação que bagunçam muito o meio de campo, os sentimentos foram se assentando de novo e a paz – no caos – se instalou. A terapia está em dia, avançando finalmente, a urgência de nos manter a salvo faz com que todo o resto se torne secundário.

Estou acompanhando como amigas e amigos estão lidando com a solidão e com a falta de um relacionamento nesse dia dos namorados. É só mais um, mas por toda essa circunstância, parece que o peso está maior. Se esse é o seu caso, lembre-se que vai passar.

Vai passar a solidão, o coração partido, o medo e a incerteza. Está demorando mais do que previmos, mas vai passar. Precisamos canalizar todo esse afeto para o que virá depois. A reconstrução exigirá muito de nós. Mantenha-se firme, e sobreviva <3.

  • Das coisas mais legais que as pessoas estão incorporando é o ato de perguntar: Posso te beijar? Acho digno, respeitoso e muito fofo.

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